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Título 2
s achados
mais antigos provêm de jazidas neolíticas na Anatólia, Palestina,
Mesopotâmia e Tessália. Por volta de 6000 a.C., começou-se a fabricar, no
Oriente e na Europa, vasos de talhe grosseiro, feitos à mão e sem elementos
decorativos. Na última fase do neolítico, quando na maioria das sociedades
ocorreram rápidos progressos técnicos que prenunciavam uma vida urbana mais
complexa, chegou-se a elaborar cerâmica de qualidade excepcional. Exemplo
clássico são os produtos de Badari (por volta de 3700 a.C.), no Egito, de
perfis afinados e bem polidos, que obedecem a uma técnica nunca mais igualada
no vale do Nilo.
Grécia.
As manifestações da arte da cerâmica provindas do
Oriente difundiram-se paulatinamente na Europa, onde adquiriram características
próprias. Na idade do bronze, no segundo milênio antes da era cristã,
difundiu-se a chamada cerâmica "campaniforme", que se originou entre
as populações calcolíticas da Andaluzia. O vaso típico desse estilo tem a
forma de um sino invertido. No princípio dessa época, o centro de produção
mais importante do Mediterrâneo foi a ilha de Creta, que exportava sua famosa
cerâmica (estilo de Camares) decorada com motivos naturais, rosetas, estrelas
etc. Do século XV ao XIII a.C.
Micenas produziu e propagou no litoral do mar Egeu cerâmica com decoração
geométrica, curvilínea ou floral. No século VII a.C., a cerâmica ática
caracterizou-se pela decoração geométrica e ficou conhecida como cerâmica do
Dipylon. Seus melhores exemplares foram urnas funerárias encontradas no
cemitério do Ceramico, de Atenas. Esse estilo, posterior à invasão dórica,
difundiu-se por várias partes do mundo grego (Beócia, Chipre, Tera, Rodes,
Corinto, Calcídica), e foi seguido pelo estilo orientalizante, assim chamado
por ser influenciado pela arte do Oriente Médio. Surgem depois as célebres cerâmicas de "figuras
negras sobre fundo vermelho" e de "figuras vermelhas sobre fundo
negro". Entre a cerâmica de "figuras negras" e a de
"figuras vermelhas", característica do apogeu, houve suave
transição, em que os ceramistas tentaram técnicas e decorações mais
adequadas à representação da figura humana. Em seu tempo, a cerâmica grega
tornou-se famosa pela variedade e alta qualidade técnica.
Etruscos e
romanos.
A partir do século VI a.C., a Etrúria importou e
imitou a cerâmica da Grécia (antes chamada etrusca, hoje denominada
greco-romana, com referência sobretudo aos vasos romanos negros e vermelhos,
inspirados em modelos gregos). Além de vasilhas comuns, de pequeno interesse
estético, os romanos criaram cerâmica de argila vermelha e brilhante, chamada
terra sigillata -- porque essa terracota trazia a marca (sigillum) do autor.
Espanha
árabe.
No século IX, um estilo derivado do persa foi levado
à Espanha pelos sarracenos. Cerâmica árabe na Espanha é encontrada nas
decorações do palácio de Alhambra. No século XII, em Calatayud, fabricou-se
cerâmica de reflexos metálicos e, nos séculos XIII e XIV, produziram-se
louças arábico-espanholas ou hispano-mouriscas esmaltadas (cerâmica dourada)
em Málaga e no reino mouro de Granada.
China.
A cerâmica chinesa foi a que mais cedo adquiriu
autonomia expressiva e a que mais influenciou a ocidental. A existência de
argilas naturais de grés e caulim, e o aperfeiçoamento de fornos para cocção
a alta temperatura, possibilitaram a fabricação de grés e porcelanas muitos
séculos antes da Europa, onde a cerâmica chinesa seria grandemente apreciada e
imitada. A dinastia Sung (960-1279) foi o período de apogeu da
cerâmica chinesa: surgiram peças decoradas com esmalte celaden de coloração
verde-oliva, de extrema beleza. Na dinastia Yuan (1279-1368) destacaram-se as
porcelanas transparentes com decoração pintada em azul-cobalto. A cerâmica
"azul-e-branca" e as chamadas "família verde" e
"família rosa" caracterizaram a época Ming (1368-1644). Entre 1622 e
1722 produziu-se porcelana vermelha, aperfeiçoou-se a porcelana azul dos Mings
e exportou-se para a Europa a porcelana "família verde". No século
XVIII, usou-se decoração em carmim-claro, típica da porcelana "família
rosa".
Japão.
A cerâmica japonesa, que a princípio imitava a
chinesa, atingiu depois um estilo próprio identificado pela simplicidade quase
caligráfica de sua decoração. Destacam-se a cerâmica da região do Mino, no
século XVI, e a escola da família Kabiemon, no século XVII.
América.
O México, um dos centros mais importantes da
cerâmica pré-colombiana, alcançou grande esplendor nos primeiros séculos da
era cristã, durante o período Teotihuacan. Além das cerâmicas de decoração
policrômica dos maias, toltecas e aztecas, são importantes os vasos com formas
humanas e de animais da cerâmica das culturas andinas, como a mochica e a nazca.
Produção
européia a partir do século XV.
A partir da Espanha, passando pelas Baleares, a
cerâmica islamita atingiria a Itália, onde cedo vigoraria um estilo
personalíssimo: a cerâmica maiólica ou majólica, que surgiu na ilha de
Maiorca, como indica seu nome. Em princípios do século XV, Lucca della Robbia
produziu peças inigualáveis nesse estilo de cerâmica que somente entraria em
decadência no século XVIII. Na Europa, a porcelana de pasta "tenra" foi
obtida pela primeira vez no final do século XVI, em Florença, e no século
seguinte tornou-se comum na França, em Saint-Cloud, Chantilly, Mennecy e
Vincennes. A fábrica desta última mudou-se em 1756 para Sèvres, centro de
produção das mais renomadas porcelanas francesas. Na Alemanha foi descoberto o
processo de vitrificação, e a primeira fábrica de porcelana "dura"
instalou-se em Meissen, por volta de 1709. A porcelana inglesa tornou-se famosa no fim do século
XVIII, com as criações de Thomas Whieldon, a tortoiseshell-ware (porcelana
multicolorida "casco de tartaruga") e a agate-ware. Também importante
é a cerâmica habitualmente chamada Queen's (creamware), criada pelos irmãos
Josiah e Thomas Wedgwood. Centros de produção foram Chelsea e Worcester. Entre
os mais formosos grés se contam as faianças, cujo nome deriva de Faenze,
cidade italiana, se bem que a faiança seja de origem antiqüíssima. Belas
faianças foram fabricadas na Itália, França, Áustria e Alemanha, antes de
fins do século XIX, quando o processo entrou em declínio. Outro importante
centro europeu foi a cidade de Delft, nos Países Baixos, famosa por sua
cerâmica branca decorada de azul. Após a decadência que se manifestou por volta do
início do século XX, houve uma recuperação da arte da cerâmica graças à
revitalização do artesanato popular e à contribuição inovadora de artistas
modernos como Picasso, Juan Miró e Henri Matisse.
Estudo das técnicas de fabricação e decoração de
objetos de barro em seus aspectos evolutivo e comparativo, a ceramografia
fornece elementos de grande importância para a reconstrução histórica das
sociedades antigas, sobretudo no caso de ausência ou exigüidade de fontes
escritas. Seu estudo científico data de inícios deste século, tendo no
arqueólogo Sir William Flinders Petrie (1835-1942) um de seus mais destacados
teóricos. Atualmente é objeto de simpósios com o concurso de físicos,
arqueólogos, estatísticos, historiadores, antropólogos etc.
Estudo das
formas.
Mediante a interpretação adequada de cenas pintadas
nos vasos, pode-se reconstruir muito da vida social de uma comunidade. Nesse
sentido, os testemunhos dos vasos asiáticos e europeus constituem excelentes
complementações das fontes escritas, no que concerne a aspectos da vida
religiosa, artística, militar, profissional etc. O estudo das formas de cerâmica contemporâneas entre
si permite uma datação relativa das culturas que as produziram. Pode-se
estabelecer a chamada cronologia relativa pelo estudo da sucessão das formas e
decorações das cerâmicas de um mesmo sítio arqueológico. As
transformações ocorridas em um dado padrão ou na feitura de um vaso permitem
que se fixe uma seqüência perfeita. A comparação de um tipo dessa
seqüência com artefatos da mesma época ou com padrões cerâmicos similares
de outras jazidas fornece dados essenciais para sua datação. O estudo
clássico dessa técnica continua sendo o de Petrie, que a aplicou no Egito
pré-dinástico, datando as várias jazidas pela comparação das formas de
cerâmica.
Cerâmica
pré-histórica brasileira.
Os mais numerosos e bem documentados indícios sobre a
cerâmica do índio pré-histórico brasileiro provêm, na grande maioria, de
sítios situados nas regiões banhadas pelos rios Amazonas e Paraná. Entre as
da primeira região, algumas têm merecido especial atenção por parte dos
pesquisadores, sobretudo as que se localizam na foz do rio e as que se encontram
nas imediações do Tapajós, em vista dos magníficos espécimes cerâmicos ali
encontrados.
Cerâmica
marajoara.
Marajó, a maior ilha do estuário amazônico, é
constituída por uma planície aluvial, quase completamente inundada pelas
grandes cheias anuais. Insulados na planície encontram-se os tesos, elevações
mais ou menos pronunciadas, de formação artificial, atribuídas a povos
ceramistas que ocuparam a ilha em tempos pré-históricos. Escavações
efetuadas nesses tesos e em outros pontos da ilha revelaram que, de fato, essa
região foi povoada por índios de distintas culturas, que a ela chegaram em
diferentes épocas, com uma arte já plenamente desenvolvida. Registraram-se cinco dessas culturas. A mais antiga,
de Ananatuba, cujos restos foram encontrados no norte da ilha, é representada
por uma cerâmica dura, temperada com cacos moídos e pobremente decorada.
Supõe-se que essa técnica teve origem no Peru, em torno de 1000 a.C., e
atingiu a ilha há aproximadamente 1.300 anos. A cultura seguinte em
antiguidade, a de Mangueira, caracteriza-se por vasos simples, escovados ou
raspados, que mostram influências temporárias da cultura anterior. A cultura de Formiga, possivelmente contemporânea à
de Mangueira, apresenta uma cerâmica pobre e mal-acabada, em comparação com
as precedentes. Sua decoração não possui estilos marcantes. A quarta é
representada pela clássica cultura marajoara e a quinta pela de Aruã. Esta
última tornou-se bem definida quanto à idade, com a descoberta, nas jazidas,
de contas de vidro de origem européia. Os elementos típicos da cultura marajoara são urnas
funerárias, geralmente antropomórficas. Trata-se de uma cerâmica de pasta
temperada com cacos moídos, que se notabiliza pela rica decoração, executada
por meio de incisões, excisões e pintura. As cores empregadas na elaboração
dos magníficos motivos que cobrem toda a superfície das peças são,
freqüentemente, o vermelho e o marrom, aplicados sobre embasamento branco ou
creme. Além das urnas e outros recipientes menores, fazem parte do complexo
cerâmico marajoara pequenas figuras antropomórficas - que são representadas
sem os membros superiores e, geralmente, sentadas -, pequenos bancos redondos, e
as curiosas tangas triangulares. Estas últimas são, normalmente, pintadas de
vermelho ou decoradas com delgadas linhas vermelhas ou marrons.
Cerâmica dos
tapajós.
O complexo cerâmico da região do Tapajós também
não é nativo, devendo ter ali chegado já bem desenvolvido. Santarém é o
mais conhecido dos sítios da região, sempre marcados pela presença de largas
manchas de "terra preta", sinais evidentes de antigos acampamentos
indígenas. A cerâmica atribuída aos índios tapajós, de Santarém, difere
completamente da marajoara. Caracteriza-se por pequenos vasos e ídolos
antropomórficos, intensivamente ornados com figuras plásticas. As peças mais
originais são as "cariátides" e as de "gargalo". As primeiras assemelham-se a taças que, por
intermédio de três cariátides, repousam sobre um suporte em forma de
carretel. As outras apresentam um curto gargalo que emerge do centro da peça
com estilizações de cabeças de pássaros ou sáurios. Encontram-se peças com
ornamentos plásticos zoomórficos que representam espécies da fauna
amazônica. Outros ornamentos são as figuras estilizadas de rostos humanos,
chamadas "caretas". Os pequenos ídolos antropomórficos, até certo
ponto semelhantes aos da cultura marajoara, distinguem-se destes sobretudo por
apresentarem os membros superiores - em geral, têm as mãos ora cobrindo os
olhos ou a boca, ora cruzadas sobre o ventre. Algumas peças são pintadas de vermelho ou preto
sobre fundo branco ou creme. A argila usada na cerâmica de Santarém é
temperada com cauixi, um espongiário de água doce composto de pequenas
espículas de sílica, e que age como antiplástico, conferindo às peças firme
contextura.
Cerâmica do
rio Paraná.
Na porção brasileira da bacia do rio Paraná, poucos
sítios têm sido objeto de escavações sistemáticas. Os indícios cerâmicos
encontrados com mais regularidade são atribuídos à cultura guarani, que na
época do descobrimento ocupava vastas áreas do Brasil meridional. Essa
cerâmica, geralmente denominada guarani, caracteriza-se por elevado número de
vasos, potes e tigelas de formas e tamanhos variáveis, além de grandes urnas
com tampas, no interior das quais têm sido encontrados ossos humanos
desarticulados, o que sugere terem sido usadas para sepultamentos secundários. Trata-se de uma cerâmica tecnicamente grosseira e
medianamente ornamentada. O uso de rolos de argila dispostos em espiral e o
emprego de areia como antiplástico constituíram procedimentos comuns.
Predominam as formas simples, tais como as urnas e vasos de corpos bojudos e
pescoços curtos, às vezes duplos, tigelas e potes semi-esféricos. Há
completa ausência de peças com alças e de fundo perfeitamente plano. Além dos vasos desprovidos de decoração, que
constituem a grande maioria, surgem outros ornamentados com incisões,
corrugações ou imbricamentos e estrias, obtidos com auxílio de espátulas,
pentes, sabugos de milho, polpa dos dedos, unhas e outros meios. Muitas peças
se apresentam pintadas de vermelho, preto e marrom-escuro, principalmente as
urnas funerárias. Muitas vezes, para melhor rendimento pictórico, foram
previamente cobertas com leve camada de argila clara, que as tornou mais
resistentes e impermeáveis. Os motivos ornamentais, cujos desenhos quase nunca
se repetem, são traços retos, curvos, gregos, etc., que raramente ocupam toda
a superfície da peça. Completam os achados cerâmicos os cachimbos angulares,
rudemente trabalhados, com rasos fornilhos e grossos tubos de aspiração. |
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