ObjetivismoBR 

Sobre egoísmo e altruísmo, capitalismo e socialismo

Geraldo Boz Junior
([email protected])

 

A primeira coisa que vou fazer é definir os termos que estarei utilizando neste texto.

O egoísmo caracteriza aquele que se interessa primordialmente por si mesmo (ego+ismo), vive segundo seus próprios princípios e crenças, voltando seu trabalho para a concretização de seus objetivos pessoais.

O altruísmo, pelo contrário, é característico daquele que rege suas ações primordialmente pensando em outras pessoas (altru+ismo), que sacrifica seus objetivos pessoais em prol do bem comum, ou de alguma pessoa, ou de um grupo de pessoas que ele valorize.

O altruísmo, pelo contrário, é característico daquele que rege suas ações primordialmente pensando em outros (altru+ismo) e não necessariamente em si mesmo.

Por capitalismo, refiro-me a um sistema econômico baseado na propriedade privada, na livre iniciativa e no mercado.

O socialismo, por sua vez, é um sistema econômico que preconiza o fim da propriedade privada, ou, pelo menos, sua subordinação aos interesses públicos, o planejamento centralizado da economia, a produção nas mãos de instituições estatais.

Note-se que estas definições não contêm valorações morais e, portanto, nenhum dos termos definidos tem conotação maléfica ou benéfica preestabelecida. Entretanto, não é esta a forma usual que estes conceitos nos são apresentados. Capitalismo e socialismo normalmente já são definidos como benéficos ou maléficos, ou vice-versa, em função da preferência ideológica de quem os define. Da mesma forma, a palavra altruísmo já é definida como desejar ou fazer o bem para outras pessoas e, portanto, o altruísmo já é algo bom por definição. Por outro lado, o conceito de egoísmo já carrega consigo toda uma carga maléfica e grande parte das mazelas do mundo é atribuída ao egoísmo das pessoas.

Se defendemos uma idéia e alguém tacha esta idéia de egoísta, corremos arrumar argumentos para associar nossa idéia ao altruísmo, porque afinal não queremos ser egoístas. Desde crianças, somos ensinados a não sermos egoístas. Uma idéia boa, do bem, não pode ser egoísta, tem que ser altruísta.

Trabalhar com palavras é trabalhar com a mente, como já disse Ayn Rand. As pessoas podem reconhecer facilmente uma definição tendenciosa (pré-valorada) de capitalismo ou socialismo. Entretanto, aceitam naturalmente definições tendenciosas de egoísmo e de altruísmo. São conceitos que já estão contaminados a tanto tempo pela doutrinação religiosa, que é difícil perceber a contaminação.

Relembro, então, que uso estes termos com os significados descontaminados expostos acima, isto é, definidos objetivamente, sem valoração moral.

A questão que se coloca é a relação do capitalismo e do socialismo com o egoísmo e o altruísmo.

Aqueles que defendem o socialismo, associam o capitalismo ao egoísmo, já que neste sistema cada um deve procurar obter lucros nos seus negócios, pensando exclusivamente em si e não se importando se outras pessoas passam fome, por exemplo. Por se fundar num princípio egoísta, o capitalismo seria intrinsecamente mau.

Os defensores do capitalismo, por outro lado, argumentam que o capitalista precisa pensar, o tempo todo, no seu cliente, viver em função de satisfazer o seu cliente, de promover o bem dele. Portanto, ele seria um altruísta. O fundamento do capitalismo seria o altruísmo e, portanto é algo bom.

Conclusões opostas e, logicamente, pelo menos uma delas não pode ser verdadeira.

Vamos analisar os argumentos mais profundamente. Para isto, vou me valer de um exemplo hipotético:

Suponha que um homem viva sozinho numa ilha e que, para sobreviver, ele crie cabras e colha frutos. Este homem cuida das cabras com extremo zelo, porque ele obtém delas leite e carne para se alimentar, pele para se vestir, além e fabricar ferramentas com chifres. O homem também espalha, pela ilha, sementes das árvores frutíferas, pois ele compete com aves e outros animais pelas frutas. Quanto mais frutas, maiores são suas chances de também saboreá-las.

Devido ao extremo cuidado com que trata esses assuntos, o homem vê seu rebanho crescer todos os anos, assim como sua produção de frutas. Ele tem cabras fortes e sadias, mas trabalha o dia inteiro cuidando delas, afastando predadores, tratando feridas, protegendo filhotes. Com o tempo, a ilha se tornou um grande viveiro de pássaros, devido à grande facilidade deles para obter alimento nas árvores frutíferas.

Este homem é, aparentemente, um grande altruísta, pois dedica sua vida às cabras e às frutas, vive em função dos animais e das árvores. O tempo todo, ele pensa, “será que as cabras estão em segurança?”, “como poderei curar os filhotes doentes?”, “será que as mudas das laranjeiras cresceriam melhor se eu as regasse mais freqüentemente?”, “preciso pôr estacas nas plantas novas, para que o vento não as derrube...”. O altruísmo desse homem teria feito um grande bem para as cabras e também para as árvores e também para os pássaros.

Mas será que esse homem é realmente motivado por razões altruístas?

Olhando com mais profundidade, não é difícil ver que tal homem nunca protegeu as ovelhas pensando primordialmente no bem-estar delas. Lá no fundo, ele pensava na sua própria sobrevivência. Ele nunca plantou árvores pensando em preservar espécies vegetais ou pensando em facilitar a vida dos pássaros. Ele pensava na sua própria sobrevivência. Não havia nenhum altruísmo nas suas ações. Tudo que ele fez, foi pensando no seu próprio bem, foi para concretizar seus próprios planos, foi para garantir os seus próprios interesses particulares e não os interesses de mais ninguém, fossem estes bichos, plantas ou mesmo outras pessoas.

A relação do ermitão com suas cabras é muito semelhante à relação do capitalista com o cliente, do produtor com o consumidor, do vendedor com o comprador. Embora os primeiros se dediquem diuturnamente a satisfazer os segundos, eles fazem isto com o objetivo maior de garantir suas próprias sobrevivências. Para provar isto, basta um prêmio de loteria. As pessoas jogam em loterias, mesmo sabendo de suas chances infinitesimais de ganhar, porque, se ganharem, poderiam “viver suas vidas”, sem se preocupar com clientes, com horários, com patrões ou com... cabras. Um padeiro, como qualquer empresário, se esforça ao máximo para atender seus clientes, mas dificilmente este é o maior objetivo de sua vida. Eu, particularmente, conheço um, que me atende muito bem, cujo plano é trabalhar duro por dez anos e depois vender tudo e sair pelo mundo numa Harley-Davidson, tirando seu sustento da poupança, que já está fazendo.

Ele não faz pão para me alimentar. Faz pão para, um dia, ter sua Harley.

Ele não é um altruísta. É um egoísta e, na verdade, eu me sinto muito mais seguro sabendo disso, do que se ele fosse um altruísta.

Eu explico: se ele fizesse pães pensando primordialmente no meu bem-estar, talvez um dia ele acordasse de mau-humor e pensasse “por que é que estou aqui, dando um duro danado só para que as pessoas comam pães e doces gostosos, enquanto eu trabalho sete dias por semana?”. Daí, provavelmente eu teria que fazer meu próprio pão, talvez plantar meu próprio trigo. Mas o padeiro egoísta, quando acorda de mau-humor pensa: “Preciso melhorar meus produtos, vender mais e assim eu posso largar tudo isso e comprar minha Harley.” Quando ele fizer isso (e eu espero que ele consiga mesmo!), outro padeiro egoísta vai comprar a panificadora e vai produzir bons pães porque ele terá outros sonhos para financiar. E eu vou continuar tendo pão quentinho.

Existe uma outra análise que também desmonta a idéia de que o empresário seja essencialmente um altruísta, principalmente no sentido benevolente do termo. Ora, se por um lado ele vive pensando em satisfazer seus clientes, em oferecer-lhes tudo que ele sabe fazer melhor, por outro lado ele também tem que enfrentar seus concorrentes e usar toda a sua competência e astúcia para derrotá-los, sempre que puder. Não há nada de benevolente nisso, embora isso também pudesse ser considerado altruísmo, pois o empresário gasta seus dias pensando em táticas para suplantar seus concorrentes, em como se defender das investidas deles. Novamente, lá está ele pensando nos outros. Agora, porém, não mais em agradá-los, satisfazê-los ou seduzi-los, mas em derrotá-los, ganhar seus mercados, chegar na frente deles.

Mesmo que o empresário se dedicasse exclusivamente a satisfazer o melhor possível seu cliente, não adotando nenhuma atitude maldosa contra seu competidor, o seu eventual sucesso e crescimento fariam mal para o competidor, que perderia renda. Isso, no mínimo demonstra que o altruísmo não é necessariamente benéfico.

Mas, afinal, isto também não é altruísmo, porque um empresário normalmente não tem como objetivo principal de sua vida destruir o concorrente. Ele enfrenta o concorrente e gasta seu tempo, seu dinheiro e sua criatividade para fazer isso, simplesmente porque isso é uma forma de garantir seus objetivos maiores, que dizem respeito a si mesmo, sua própria sobrevivência, seus próprios sonhos, seus entes queridos. Um prêmio de loteria também demonstraria a verdade disso. Ao invés de usar o dinheiro para finalmente derrotar seus concorrentes, ele muito provavelmente abandonaria o negócio iria atrás do seu sonho. Quem sabe, uma Harley.

Dentro do sistema capitalista, as pessoas têm liberdade para se dedicar ao que quiserem, embora limitadas, obviamente, por suas habilidades e talentos, conhecimentos técnicos, capacidade financeira e as condições do ambiente social em que vivem. Não é um mundo fácil. Em função de suas características de competitividade, o capitalismo já foi comparado a uma selva, onde sobrevivem apenas os mais hábeis. Isso, sob certos aspectos, não deixa de ser verdade. Ainda assim, as pessoas agem segundo seus próprios discernimentos e procuram, acima de tudo, satisfazer a si mesmas. Por este motivo, o capitalismo também está associado ao prazer, uma vez que as pessoas podem procurar atividades que, além de sustentá-las, lhes proporcionem bem-estar e realização pessoal, menos trabalho ou trabalho em condições mais agradáveis.

Entretanto, se no sistema capitalista, as pessoas têm a liberdade para seguir seus próprios rumos e agir segundo seus próprios interesses, também têm a responsabilidade por seus atos. Por isso, embora as pessoas tenham que pensar em si mesmas, serem egoístas, não podem fazer isto de maneira imediatista e impensada. Se o ermitão do meu exemplo não fosse um homem racional, provavelmente ele teria comido todas as cabras, assando-as com lenha extraída das árvores frutíferas. Teria um breve período de grande fartura, seguido de fome, talvez morte. Uma característica essencial do capitalismo é esse egoísmo sem conotação maléfica, também chamado, por Ayn Rand, de egoísmo racional. O egoísmo racional permite que o homem aja em seu próprio benefício, mas em função de um plano em longo prazo, de uma análise do contexto em que vive. O egoísta racional, embora pense primordialmente em si mesmo, não sai por aí roubando e matando outras pessoas, porque, embora esta talvez fosse a forma mais rápida de conseguir riqueza, ela pode resultar, no futuro, em prejuízo para ele mesmo. Aceitar o assassinato ou roubo como regras válidas de uma sociedade transformaria cada indivíduo numa vítima em potencial e isso não interessa a ninguém.

As leis que regem a sociedade capitalista devem existir, portanto, para garantir a convivência pacífica e honesta das pessoas. O Estado deve existir para que essas leis sejam cumpridas. Portanto, o Estado existe em função do indivíduo, para salvaguardar sua liberdade, desde que exercida de forma não-violenta e honesta. Afinal, na sociedade liberal-capitalista o indivíduo é um fim em si mesmo e o Estado existe para garantir nosso direito de agirmos em função de nossos próprios interesses, ou seja, de sermos egoístas.

Voltemos então ao empresário, aquele que vive a pensar nos outros, seja para satisfazer os desejos do cliente, seja para derrotar seus concorrentes. Minha conclusão é que ele não é um altruísta e sim um egoísta. Mais que isso: qualquer pessoa normal é egoísta. Nossa natureza humana exige que sejamos egoístas racionais. Não importa a riqueza nem a posição social de uma pessoa. Desde o homem mais rico ou poderoso do mundo, até o ermitão do meu exemplo, todos vivemos em função de nossos interesses pessoais.

Mas, então, o que seria um altruísta?

Voltando ao exemplo do padeiro, seria alguém que dissesse algo como “meu sonho era ter uma motocicleta e viajar pelo mundo, mas eu desisti de realizá-lo, porque acho mais importante ficar o resto da vida aqui, atrás do balcão, para atender meus clientes, para ver a expressão de satisfação no rosto deles quando pegam o pacote de pão e percebem que o pão ainda está quentinho, recém saído do forno. Agindo assim, tenho a agradável sensação de dever cumprido.”

Alguém pode dizer que tal homem não existe. Eu concordo. Não consigo imaginar alguém que abdique de seus sonhos, de sua vida enfim, para viver em função da felicidade de outras pessoas. Ao menos não consigo imaginar uma sociedade em que todos os indivíduos tenham essa característica o tempo todo. Entretanto, é isso que pregam tanto os socialistas quanto os religiosos. Ambos usam uma lógica que diz que, se todos abdicassem de suas ambições pessoais e se dedicassem ao “bem-comum”, o mundo seria muito melhor e, afinal, todos acabariam se beneficiando. Isso faz sentido numa primeira análise, mas não passa da primeira.

Para começar, vamos levar uma situação ao extremo, que é uma forma útil de verificar a conseqüência de certas idéias. Se fôssemos mesmo capazes de nos despir de nossos sonhos e interesses pessoais e se todos fizéssemos isto, o que aconteceria com a humanidade? A coletividade é uma abstração, não tem existência concreta. As necessidades coletivas não podem ser mais que a soma das necessidades individuais. Os interesses coletivos não são nada mais que o denominador comum dos interesses individuais. O que seria um mundo onde todos fossem verdadeiros altruístas, vivendo em função dos interesses de outras pessoas, que também não têm interesses próprios, porque vivem em função dos interesses de outras, que vivem em função de outras, que vivem em função de outras...? No final, simplesmente não haveria interesses. Não haveria motivação sequer para viver. Uma sociedade de indivíduos altruístas, embora tão sonhada por religiosos e socialistas, é uma impossibilidade lógica.

Uma coisa que salta aos olhos, no momento em que se compreende isto, é que esta sociedade só seria possível se fosse composta de uma grande massa de altruístas, que viveriam para servir aos interesses alheios e uma pequena minoria egoísta, responsável por manter acesa a chama de humanidade, de desejo de progresso, os sonhos, a motivação. Estes, seriam os planejadores centrais, responsáveis por verificar as necessidades coletivas e acionar a produção do que for necessário. As pessoas fariam o que lhes fosse solicitado por esses planejadores e o sistema se encarregaria de atender as demandas de todos. Como todos trabalham para todos, todos têm os mesmos direitos e todos devem ter o mesmo padrão de vida. Portanto, se as pessoas precisam de sapatos, todos devem ter sapatos. Harley-Davidson? Desculpe, mas só se todos puderem ter...

Este seria o mundo verdadeiramente altruísta: o socialismo ideal. Em princípio, um mundo muito mais civilizado que a selva capitalista. Um lugar mais seguro para se viver, pois todos estão trabalhando pelo bem-estar de todos. Não haveria fome, nem desemprego, nem guerras, nem sequer dinheiro. Seria um verdadeiro paraíso na terra e talvez seja isso que a idéia é tão atraente para os religiosos.

O problema é que, para funcionar, este paraíso precisaria daquele homem altruísta, mas este homem não existe. Precisaria de um homem que não tivesse ambições pessoais, nem projeto personalizado de vida, nem sonhos diferenciados. O homem altruísta, que poderia habitar neste lugar, só teria direito a sonhos sociais, a ambições coletivas, a projetos estatais. O homem altruísta deste paraíso só faria o que fosse interessante para a coletividade. Ele pensaria primordialmente no bem-comum e o seu próprio bem particular, privado, seria subordinado ao bem maior. Na verdade, a individualidade, por ser tão mesquinha, tão fútil, tão pequena, seria algo até imoral. A própria existência ou não-existência do indivíduo poderia ser decidida em função das necessidades da coletividade. E, mesmo que condenado à morte ou a trabalhar em condições desumanas, este homem altruísta faria isso feliz, ou, pelo menos, totalmente resignado, sabendo que seu sacrifício é em prol de uma causa “nobre”. Sua recompensa certamente virá, num paraíso terreno, num futuro distante, segundo os socialistas, ou, quem sabe, após a morte, num merecido paraíso espiritual, segundo os religiosos.

O que torna essa sociedade ideal impossível é que este homem altruísta não existe. Não é o Homo sapiens. A busca pela própria felicidade faz parte da natureza humana e os sonhos são sempre individuais e diferenciados. Nossos cérebros desenvolvem habilidades e talentos completamente distintos de indivíduo para indivíduo. Não podemos fugir à nossa necessidade de agir em função de nossos interesses pessoais, porque somos todos diferentes uns dos outros e temos necessidades diferentes. A natureza do homem é egoísta e este foi um dos fatores mais importantes para possibilitar a sobrevivência da espécie e o surgimento da civilização humana.

Na prática, as sociedades coletivistas que existem são ainda mais escravistas. Dentro delas, todo indivíduo vive um duelo psicológico entre a sua natureza egoísta e sua filosofia altruísta. Todo indivíduo é um pecador nato, porque, da mesma forma que na religião herdamos o pecado original, no socialismo já nascemos não-socialistas. Este conceito é extremamente útil para o Estado, porque lhe dá argumento suficiente para considerar qualquer pessoa culpada a piori, seja por motivos religiosos ou ideológicos. Portanto, qualquer liberdade que o indivíduo tenha é uma concessão da coletividade. É uma liberdade limitada, vigiada e condicionada aos interesses coletivos.

Enfim, assim como a sociedade capitalista está associada ao egoísmo e ao prazer, a sociedade socialista está associada ao altruísmo e ao dever. O homem dessa sociedade deve fazer o que a sociedade demanda dele, não pelo seu próprio bem, mas pelo bem da sociedade. O homem deixa de ser um indivíduo livre e passa a ser um animal de sacrifício. A leis, nessa sociedade, existem para garantir os interesses da coletividade, para obrigar o indivíduo a agir conforme determinaram aqueles que falam em nome do coletivo, ou eventualmente, em nome de Deus. Na sociedade altruísta, o Estado, ou Deus, são fins em si mesmos e os indivíduos existem para servi-los. Em outras palavras, é a sociedade da escravidão.

Para encerrar, voltemos às duas conclusões citadas no início do texto. As duas estão erradas.

A segunda dizia que o capitalismo seria fundado no altruísmo e, por este motivo, seria algo bom. Trata-se de um duplo erro. Ele não é fundado no altruísmo e, se fosse, não seria bom.

A primeira conclusão dizia que o capitalismo é fundado no egoísmo, portanto é intrinsecamente mau. Ele realmente é fundado no egoísmo, mas isto não faz dele algo mau, ou inadequado para a civilização. Muito ao contrário. O egoísmo e a racionalidade são inerentes ao ser humano. Se ele deixasse de agir de forma egoísta e racional, estaria deixando de ser humano e não sobreviveria como ser civilizado.

Uma sociedade socialista ideal, onde todos os indivíduos são iguais e vivem suas vidas altruisticamente em função da coletividade, é apropriada para formigas, cupins e outros animais-sociais, cujos instintos os obrigam a viver em função de suas coletividades. O homem, entretanto, não é um animal-social, neste sentido, porque suas ações não são ditadas por um instinto inescapável, mas pela razão. Não somos obrigatoriamente nem animais-sociais nem lobos solitários. O homem é um animal-contratual e os relacionamentos entre pessoas livres são regidos por direitos e deveres que cada um assume em função de seus próprios interesses.

A conclusão correta é que a sociedade liberal-capitalista, baseada no egoísmo racional, é a única condizente com a humanidade.

 

Curitiba, 12 de janeiro de 2003

 

Voltar à página Textos

Hosted by www.Geocities.ws

1