Boletim de informação do grupo francês da Internacional letrista
p o t l a t c h
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aparece todas as terças |
6 de julho de 1954 |
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A GUATEMALA PERDIDA
Em 30 de junho, o governo guatemalense, do qual apoderou-se na véspera um coronel Monzon, capitula diante da agressão tramada pelos Estados Unidos e seu candidato local C. Armas.
Mesmo os mais imbecis dirigentes das burguesias européias compreenderão mais tarde a que ponto o sucesso de seus «aliados indefectíveis» ameaça-os, prende-os em seu contrato irrevogável de gladiadores mal pagos do «american way of life», condena-os a caminhar e a rebentar patrioticamente nas próximas pancadas da História, pelas suas quarenta e oito estrelas ligeiramente tricolores.
Desde o assassinato de Rosenberg, o governo dos Estados Unidos parecer ter escolhido lançar a cada ano, em junho, um desafio sangrento a todos que, no mundo inteiro, querem e sabem viver livremente. A causa da Guatemala foi perdida porque os homens no poder não ousaram bater-se pelo terreno que era verdadeiramente o deles.
Uma declaração da Internacional letrista (Faça-os engolir sua goma de mascar) datada de 16 de junho – três dias antes do pronunciamiento – assinalava que Arbenz devia armar os sindicatos, e apoiar-se em toda a classe operária da América central, a qual ele representava a esperança de emancipação. No lugar de apelar para as organizações populares espontâneas e para a insurreição, tudo sacrificaram pelas exigências do exército regular, como se, em todos países, o exército não fosse essencialmente fascista, e sempre destinado a reprimir.
Uma frase de Saint-Just julgou antecipadamente as pessoas desta espécie:
«Aqueles que fazem revoluções
pela metade não fizeram senão cavar seus próprios túmulos...»
O túmulo está aberto também para nossos camaradas da Guatemala – doqueiros, caminhoneiros, trabalhadores rurais – que foram rendidos sem defesa, e são fuzilados neste instante.
Após a Espanha ou a Grécia, a Guatemala põe-se entre as regiões que atraem um certo turismo.
Nós desejamos fazer um dia esta viagem.
pela Internacional letrista:
M.-I. BERNSTEIN, ANDRÉ-FRANK
CONORD, MOHAMED DAHOU,
G.-E. DEBORD, JACQUES FILLON,
GIL J WOLMAN.
TUDO SE EXPLICA
São pessoas que se chamam «letristas», como diziam «jacobinos», ou «cordeliers*»...
* Membros do Clube dos Cordeliers, fundado por Danton, Marat e Desmoulins em 1790, no antigo convento de Cordeliers em Paris (N.d.T.).
CONSTRUÇÃO DE FAVELAS
No quadro das campanhas de política social destes últimos anos, a construção de favelas para enfrentar a crise de habitação prossegue febrilmente. Não podemos senão admirar a ingenuidade de nossos ministros e de nossos arquitetos urbanistas. Para evitar qualquer ruptura de harmonia, eles projetaram tipos-padrão de favela, cujo projeto adapta-se aos quatro cantos da França. O cimento armado é seu material preferido. Este material, prestando-se às formas as mais maleáveis, é utilizado somente para construir casas quadradas. O mais bel êxito do gênero parece ser a «Cidade Radiosa» do genial Corbusier, ainda que as realizações do brilhante Perret rivalizem-na palmo a palmo.
Em suas obras, um estilo se desenvolve, fixa as normas do pensamento e da civilização ocidental da metade do vigésimo século. É o estilo «caserna»; e a casa 1950 é uma caixa.
A ambientação determina os gestos: nós construiremos casas apaixonantes.
A.-F. CONORD
A MELHOR NOVA DA SEMANA
«Perpignan, 30 de junho (France-Soir). – Um acidente de automóvel, ocorrido esta manhã às 4h30 perto do vilarejo de Saises, custou a vida ao Reverendo Padre Emmanuel Suarez, líder dos Dominicanos, e ao Padre Aureliano Marinez Cantarino, secretário-geral da mesma ordem.
Os dois religiosos retornavam de
Roma de carro e dirigiam-se à Espanha. Parece que o Padre Cantarino,
quem conduzia, adormeceu ao volante, vencido pela fadiga. O veículo, que rodava
à alta velocidade, foi esmagar-se contra uma árvore e seus dois ocupantes foram
mortos com o choque».
PIN YIN CONTRA VACHÉ
A grande voga pelas guerras e pelas «cartas de guerra» obriga-nos a conhecer os atos mais nojentos de heroísmo, como os mais belos testemunhos de deserção.
Mas esta apologia de uma fuga à
interioridade que foram os símbolos essencialmente simbólicos de Jacques Vaché («jamais ganharei algo das guerras»), nós não mais
apreciamo-la; escolheremos o motim que ganha.
Sabemos como constroem-se as personagens. Não esquecemos que Jacques Vaché foi do mesmo modo inteiramente condicionado pelo sistema militar de então. (Arthur Cravan, pelo contrário, parece ter empreendido com sucesso, de um extremo ao outro, uma fulgurante viagem, sem nenhum consentimento deste século.)
Não queremos contestar a grandeza da resistência individual de Vaché, mas, como escrevíamos em outubro de 1952 a propósito do nefasto Chaplin-Luzes-da-Ribalta: «Acreditamos que o exercício mais urgente de liberdade é a destruição dos ídolos, principalmente quando eles invocam em sua defesa o testemunho da liberdade.» (Internacional letrista nº1.)
Confessamos apenas avaliar as literaturas em função dos imperativos de nossa propaganda: a difusão das «Cartas» de Vaché entre os liceus franceses traz apenas certas formulações elegantes às insulsas negações que estão na moda.
Todavia, através de um livrinho a pouco quase desconhecido, o Diário de uma jovem revolucionária chinesa (Livraria Valois, 1931) Pin Yin, uma estudante de dezesseis anos que seguiu o Exército Popular em sua marcha sobre Xangai, guardou-nos estas duas palavras da juventude vermelha:
«Quanto a meus pais, eu não queria naturalmente abandoná-los. Mas não devemos mais pensar nisso, pois a Revolução deve sacrificar um pequeno número de homens para o bem e a felicidade da grande maioria...»
Sabe-se o fim dessa história; e
os vinte anos de reino do general que ainda sobrevive em Formosa; e os
carrascos do Kuomintang:
«... Mas nós não sentimos nem um
pouco o sofrimento, acreditamos que o amanhã será
calmo e belo: um sol rubro como o sangue e em nossa frente um grande caminho
todo repleto de luzes, um belo jardim.»
A voz de Pin
Yin chega-nos deste cair do dia quando partiram, quando
desapareceram – em que velocidade em quilômetros por segundo da rotação
terrestre? – nossos amigos e nossos mais verdadeiros cúmplices. As melhores
razões, pelo menos, não faltarão à guerra civil.
G-.E. DEBORD
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