Raoul Vaneigem
Isidore Ducasse e o Conde de Lautréamont nas Poesias
Lautréamont entrou, por intermédio de Maldoror, na história literária, e isso, com uma mestria tal que Isidore Ducasse, o autor das Poesias, quase lhe deve dela não ter sido excluído. Os juízos críticos, quantos se desculpam, em efeito, através da dificuldade ou da desenvoltura com a qual abordam o “Prefácio a um livro futuro” com um desmentido tácito, uma desaprovação inconfessada às Poesias? Nenhum sem dúvida, tanto é verdade que o desapego não aparece menor nesta vontade de submeter ao mecanismo de uma lógica puramente formal o delicado processo onde se diferenciam os múltiplos aspectos de um mesmo ser.
É preciso lembrar em torno de qual dilema gravitam a maioria das explicações propostas até o presente? Ou as Poesias sucedem Maldoror como à “revolta sem piedade” um “conformismo sem nuanças” (Camus); onde o niilismo sistemático dos Cantos abre uma via nova sob uma mistificação cínica. Em outros termos, ou Lautréamont desiste (não se podia melhor desdobrar – e às custas de um exemplo mais complacente – o paradoxo de Rimbaud), ou ele dissimula. Nos dois casos, semelhante comportamento nada trai; lá o supõem em seu ponto ideal, o estado de um pensamento preocupado de seus próprios reflexos e, por conseguinte, muito pouco preocupado com a realidade concreta. Entretanto, o problema das Poesias, tão complexo o seja, não justifica de modo algum a ausência de uma solução objetiva.
Ninguém pensaria em negar a violência, a respeito dos cantos de Maldoror, do objeto biológico, psicológico e social; ninguém, desde o perspicaz estudo de Léon-Pierre Quint, recusar-se-ia discernir, entremeadas na obra, três determinações em dependência estrita com a vida de Isidore Ducasse: a agressividade sexual, a intervenção cada vez mais atestada do controle racional e um conteúdo ético-ideológico mais precisamente centrado sobre a revolta. Bem entendido, nenhum desses caracteres se manifesta no estado puro com particularidades definidas de uma vez por todas, mas cada um dentre eles se amalgama, ao contrário, submetido a leis de interdependência, em um movimento, uma progressão onde um não se transforma senão modificando outro. A cada instante, o controle emparelha e dissocia assim revolta e agressividade sexual do mesmo modo que, por um processo similar, ele trata em Kafka, em análise e sínteses, angústia instintiva e responsabilidade consciente.
Dito isto, Maldoror leva às “Poesias”. Esclarecemos: o “Prefácio a um livro futuro” não aparece nem como a negação formal dos Cantos nem como seu prolongamento, mas se afirma mais como uma superação onde Maldoror, embora negado, oferece conservando-se uma síntese das contradições que se tornaram críticas no canto VI e, desse fato, revela-se, por um salto qualitativo, como resultado de uma transformação que permaneceu, até a desaparecimento de Maldoror, puramente quantitativa.
Entre Maldoror e as Poesias, é a disparidade, à leitura sucessiva das duas obras, que é antes de tudo sentida profundamente; ela é ruptura de hábito nas sensações, não – a priori – no juízo, mas, curioso equívoco, é em função desse mal-estar nascido da passagem sem transição do tornado ao calmo horizonte que permitirmo-nos julgar a obra póstuma de Isidore Ducasse; é na efervescência, na ebulição, no frenesi maldororiano que se persiste, uma vez negligenciado o conteúdo e o sentido da revolta; a prejulgar do Prefácio e de sua fria determinação segundo a intensidade passional dos Cantos. Ainda se a admiração nascia dessa mestria com a qual o controle racional passa ao primeiro plano da obra, dessa presteza a servir-se do garrote sobre o pescoço do erotismo ou da vontade do Canto VI a metamorfosear as manchas de sangue em manches de tinta, que bastará às Poesias apagar! Visto que a questão vale ser proposta: quais causas presidiram a eliminação, no seio da última obra de Isidore Ducasse, de todo elemento espontâneo, instintivo, incontrolado?
Que Ducasse liquida seus problemas sexuais, a estrofe dos pederastas, a meio caminho entre a confissão e a provocação, isso aprova. Sem dúvida ele deixa a uma conduta ativa a preocupação de normalizar seu estado psicológico, de restabelecer nele um equilíbrio há muito comprometido pelos tabus de uma sociedade que ele detestava de tanto senti-la toda poderosa. Seja como for, – e aqui, longe de a excluir, se liga em interdependência estrita à hipótese precedente – outras preocupações polarizam suas faculdades de análise. Com a queda de Maldoror, deveria fazer-se em pedaços, como nós o veremos, o atroz embate entre o eu e a solidão, entre uma sensibilidade exacerbada e um oceano de ódio e paixões. Além do eu, Ducasse descobre o mundo, as idéias e os homens, donde a busca de uma nova verdade, aquela das Poesias do e a partir do grupo Sircos-Damé.
As Poesias vão materializar o triunfo da lucidez sobre as forças confusas do inconsciente, elas consagrarão, para falar como Nietzsche, a vitória do apolíneo sobre o dionisíaco. Maldoror, nele mesmo, traz os estigmas da luta. Jamais traços de um tal combate foram mais aparentes em matéria literária. A lucidez de Lautréamont se reflete inteiramente em sua obra, ela a transforma na medida em que avança, ela se desembaraça de Maldoror para o reconstruir. Se, na origem, ela se limitava a transformar, a racionalizar as pulsões inconscientes ao nível da consciência, ela rapidamente adquire o poder de esvaziá-las de seu conteúdo, de ordená-las conforme as premissas de um mundo ideológico já definido, aquele do mal, aquele de Maldoror. Nada marca mais o ritmo da obra que a constante regressão do concreto face ao abstrato. (Um exemplo entre outros: a luta entre Maldoror e o dragão do Canto III se traduz pela oposição do Mal à Esperança e anuncia os comentários irônicos do Canto IV). Sem interrupção, a tomada de consciência despoja-se dos elementos instintivos e espontâneos para elevar-se a uma autonomia discursiva, absoluta a ponto de deixar por conta os recursos a uma experiência concreta, com a qual era solidária desde o início. É o estado no qual Maldoror, um novo Rocambole, compromete-se num romance-ficção onde “cada astúcia efetiva, como o anuncia Ducasse, aparecerá em seu devido lugar”.
O interesse do Canto VI não reside mediocremente em seu duplo movimento, na exposição simultânea de um realidade percebida, de uma parte, no momento de sua incidência sobre a consciência, sob uma forma simbólica e – a título de signo, de conceito – escolhida como objeto de vãs especulações, quando, da outra parte, uma análise sempre mais penetrante conduz Lautréamont além do eu, em direção ao mundo exterior, em direção a esta mesma realidade, cujo eco vai enfraquecendo-se sob os floreios da obra, sob o jogo gratuito da ficção. Etapa crítica de modo algum estranha, aliás, ao gênio de Lautréamont, e que ele domina com o talento tão particular de exprimir até o sarcasmo as conturbações de um pensamento apegado, sob seus próprios reflexos, ao termo de uma marcha contraditória. De fato, descrições naturalistas e propósitos esotéricos confinam – a morte de Mervyn e os enigmas do Canto VI disso fazem fé – a mesma precisão extravagante, a mesma ironia no detalhe; mas o rir ambíguo de Lautréamont cessa de mascarar aqui o desacordo de base; ao contrário, ele o acentua, ele o distende até o antagonismo, ele mantém no lugar os três pontos que marcam, com a impossibilidade de terminar um verso, o desejo de recomeçar o poema. As Poesias respondem a este desejo. A contradição entre realismo e formalismo Ducasse a ultrapassa elevando-se ao nível de um sistema filosófico, não mais sobre uma base arbitrária, convencional, inaceitável, mas por sua vontade de acolher estruturas objetivas e de tratá-las em função de uma observação crítica. Os fatos, livres do lirismo que os transfigurava e os inflava como as velas sobre o mar maldoriano, serão escolhidos, nas Poesias, segundo seu valor demonstrativo ou exemplar. Pedra de toque: qual relato sangrento, qual enorme crime de Maldoror não engendrou, na tormenta dos Cantos, a evocação sinistra de Troppmann, cujo nome solitário figura, ilustrando a recusa da revolta desenfreada, em um aforismo das plaquetas?
Resta uma terceira contradição, aquela, ao nível das idéias, sobre o plano da revolta. Não é mais Maldoror, o ser imaginário, o homem dos lábios de jaspe que é posto em acusação, mas todo o sistema filosófico ao qual ele servia à guisa de ilustração e de porta-voz. Trata-se de refundir o problema do mal sobre novos dados.
Do Mal, considerado como imanente ao mundo, Lautréamont suscitava com Maldoror uma forma aguda, paroxística, de uma violência inaudita, com a qual desejava retornar contra a falsa boa consciência universal, contra um dessecamento moral responsável, segundo ele, por manter o Bem supremo numa transcendência perpétua. Em efeito, se Maldoror representa uma etapa em direção a um mundo melhor, ele não permanece jamais menos excluído deste mundo. Não é sua maldição, seu tormento de condenado, o acavalar-se ao redor de Mario sem confrontá-lo, o devastar sem procurar se elevar sobre as ruínas o “recomeço de tudo”, tão ao modo de Netchaïev? Quem quer que seja, Maldoror, destruidor do mal, eleva-se até Deus, criador deste mal; ele participa da incessante regeneração do mundo como uma força sobrenatural ativa. Ora, na medida em que a sublime Revolta vive, cresce e desenvolve-se ao sabor do livro, um duplo fracasso se anuncia e toma forma. Dissociados da realidade pelo caráter mesmo da obra em seu declínio, a eficácia de Maldoror e, conseqüentemente, o valor do princípio que ela representa rebuscam-se em frases vãs, manifestam uma atividade de mosca presa à teia de aranha antes de se imobilizar em uma confusão na qual, a mestria literária ajudando, subsiste a especulação pura, a acrobacia do formalismo, um sucedâneo da arte pela arte, por assim dizer, que, se satisfazia à vaidade do homem de letras, protesta contra o desígnio do revoltado. A este propósito, quer queiramos ou não, Ducasse permanecerá por toda sua vida um revoltado, um homem para quem o mundo deve ser transformado; e que nisto se emprega.
Por que Lautréamont renega o fantoche Maldoror, o revoltado que ri, o insurgente literário? Isto se explica sem esforço. Por mais que Ducasse podia esperar, de um leitor próximo de suas concepções, que preste ouvido atento às palavras insidiosamente murmuradas por seus heróis à criança das Tulherias (“Não gostaria de um dia dominar teus semelhantes? (...) Os meios virtuosos e benévolos não servem pra nada...”), pelo menos julga ele de outra forma quando deixa Maldoror prender-se no papel de um bufão niilista. A cena do louco Aghone é reveladora neste ponto: “Qual era o objetivo de Maldoror? (...) Obter um amigo a toda a prova bastante ingênuo para obedecer ao menor de seus comandos”, escreve Ducasse e acrescenta: “É Aghone mesmo que lhe é necessário”. Maldoror, reduzido a procurar seu público no meio de delirados, deixa presumir uma segunda razão de sua rejeição. O imobilismo de uma revolta integral aproxima-se aqui da vaidade das violências unilateralmente exercidas contra o mal.
Visto que o Bem não pode nascer, em última análise, de uma autodestruição do Mal, então “as premissas são radicalmente falsas”; daqui às Poesias, à aceitação do bem e ao reconhecimento de sua apetência como princípio primeiro na negação futura do mal não há senão um passo. Quanto ao aspecto mítico, privado de eficácia, ele vai desaparecer em benefício de uma linguagem direta, de um pensamento claro e conciso, guardando do irreal apenas o conteúdo por vezes utópico de aforismos e máximas, por outro lado peremptoriamente dirigidas para a ação.
Ducasse não escolhe entre revolta ou renúncia, mas passa da oposição tese-antítese a uma síntese que forma a revolta das Poesias. Se estas o engajam numa via mais em conformidade com a realidade do mundo em que vive, disso não se deve, sobretudo, concluir que se põe nas nuvens, nem mesmo que aceita – por qual mistério da psicologia? – esse estado de fato contra o qual ele desencadeou Maldoror, contra o qual, com um igual fervor, o anarquista Emile Henry lançará, vinte cinco anos mais tarde, seu ódio e sua bomba. Por certo, a violência perdeu sua atração, mas sem contrariar por isso a vontade de opor às forças do mal o desejo de ter acesso e fazer a humanidade o ter a uma vida melhor. Que se esteja em direito de falar de oposição, isso aparecerá claramente logo as Poesias sejam reconsideradas conforme a época em que nasceram. Esquece-se freqüentemente em demasia, além do fato que os aforismos tiram seu significado do contexto e do sistema elaborado por Ducasse, que a recusa da guerra é contemporânea das campanhas belicistas da imprensa (1870), que as zombarias dirigidas aos “romancistas sentados no tribunal” apontam o dedo contra os Houssaye, Augier, Dumas e outros que acompanharam o processo Troppmann (ver o relatório da Marselhesa de 28 de dezembro de 1869).
Este recurso ao meio histórico, não somente o bom senso o legitima, mas os fatos eles mesmos o exigem. Se as causas internas constituem, como nós o vimos, a base das mudanças, a condição dessas mudanças deve ser pesquisada nas causas externas. Uma vez analisada a passagem de um líquido ao estado gasoso, estudar a temperatura adequada a uma tal transformação impõe-se necessariamente. Do mesmo modo é preciso explicar sob quais influências externas as Poesias se diferenciam qualitativamente de Maldoror.
Para não ter transtornado Ducasse tanto quanto se pretendeu, o fracasso dos Cantos de Maldoror não desempenha aí um papel tão importante em sua determinação. Não que ele falhasse em imaginar, ditado por um desejo de glória, uma palinódia complacente, mas porque a recusa do livro, pelo público e pela censura, concretizava, provava praticamente a vaidade de uma revolta já denunciada na obra e no pensamento do autor. “O todo soçobrou. Isto me fez abrir os olhos”, escreve ele a Darasse. Por que não abandonar a pena conseqüentemente, desaparecer sob a pele de um intelectual anônimo? É que paralelamente à falência de Maldoror, afirmava-se ao mesmo tempo, no espírito de Ducasse e à sua volta, o sucesso das idéias desenvolvidas no curso das Poesias. Quando ele redige suas plaquetas, Lautréamont não está mais só. Sua “filosofia da poesia” deve reencontrar, ele o sabe, a adesão de um grupo literário, de um movimento de jovens cujas idéias ainda incertas se exprimem nas revistas “La jeunesse” (que se tornará “L’Union des Jeunes”) e “L’Avenir littéraire, philosophique et scientifique”. Os dirigentes dessas revistas não são outros senão Alfred Sircos e Frédéric Damé, ambos citados na dedicatória das Poesias. O objetivo? Um editorial de “La Jeunesse” o esclarece: “Trabalhamos, então, meus amigos, para restituir à humanidade sua bela prerrogativa: o amor. Dirijo-me a vós, soldados da inteligência: escritores, poetas, publicistas, artistas... Não é senão hoje que pode começar o progresso da ordem moral”. Dez degraus a mais no estilo e aí estamos no nível das Poesias. Que se compare também ao massacre dos “grandes cabeças moles de nosso século” o conselho de Damé: “O melhor meio de combater esta decadência moral que nos invade é estudar a imprensa moderna, que tanto contribuiu a este triste resultado”. As Poesias tendem a se afirmar como o manifesto de um movimento inovador, e Ducasse aparece como o espírito o mais lúcido e o mais conseqüente. Não proclama ele sua filiação à equipe da “correção moral” quando escreve, como em eco a esse preâmbulo de uma das revistas, “O futuro – ou seja, o Mal ocupando o lugar do Bem, o Feio no lugar do Belo, o Pequeno destronando o Grande...”, a famosa epígrafe das Poesias: “Eu substituo a melancolia pela coragem, a dúvida pela certeza, o desesperança pela esperança, a maldade pelo bem, as queixas pelo dever, o ceticismo pela fé, os sofismas pela frieza da calma e o orgulho pela modéstia”?
Nada disso deve nos surpreender. Ducasse, mais de uma vez, deve ter conversado sobre tais questões com Alfred Sircos, o único crítico suficientemente clarividente para saudar o aparecimento do primeiro canto de Maldoror e que pôde escrever (sob o pseudônimo de Epistémon): “Esta obra não será confundida com as outras publicações de hoje em dia; sua originalidade pouco comum é para nós sua garantia”.
Segundo testemunho das relações que unirão os dois homens: as plaquetas foram editadas na Livraria Gabrie, 25, Passage Verdeau, precisamente onde a “Union des Jeunes” possuía suas salas. Consciente do apoio e da eficácia que encontraria seu sistema de pensamento, Ducasse não tinha mais nenhuma razão para adiar até uma elaboração completa as novas intenções que deviam perturbar seus contemporâneos. O “Prefácio a um livro futuro”, reunindo as concepções tímidas do movimento Sircos-Damé (ainda não organizado), o ultrapassa em direção a uma solução mais original do problema, uma solução recebida pela fieira de Maldoror e determinada a não mais se afastar do concreto, da luta real, de uma organização militante cujas regras de ação tinham sido precisadas num desenvolvimento ulterior das Poesias. Por isso, todo estudo deverá se fundar doravante não somente sobre a dialética Maldoror-Poesias, mas também sobre o contexto histórico que as viu nascer, sobre as interações da época e a evolução tanto psicológica quanto ideológica de Lautréamont. Assim, é preciso admitir que as Poesias se dirigem antes de tudo aos homens do Segundo Império em desmoronamento, como a Teoria da Unidade Universal de Fourier exigia previamente o apoio dos filantropos contemporâneos; nessa condição, compreender-se-á quão a obra tateante de Ducasse reflete a lenta tomada de consciência do oprimido, como, ao lado de Maldoror, de um individualismo monstruoso – de uma vontade de viver por si no desafio dos outros, no meio de um mundo onde cada um vive por si com receio dos outros – tem origem e se desenvolve o desejo de viver por todos, de realizar-se numa sociedade onde o interesse geral satisfaria o interesse de cada um. Assim concebida, toda análise chegará fatalmente a precisar: Maldoror e as Poesias aparecem em última instância como o reflexo da dupla tendência do movimento anarquista, da sua perpétua oscilação da violência pura à utopia reformadora.
Tradução: Fernando Orsi Vieira