Quando se trata de comportamento,
os ciganos são muito rígidos. Mas, na forma de viver, a palavra de ordem
é ser livre. "Nossa liberdade é a natureza, nela não existem muralhas para
tirar nossa visão do campo aberto, podemos ter contato com o solo, respirar
o verde, sentir a brisa do vento, receber a força dos raios solares, contemplar
a Lua, o brilho das estrelas e tudo o mais que ela possa nos oferecer",
diz Jordana Aristicth, no livro Ciganos A Verdade Sobre Nossas Tradições.
A teoria mais aceita é a de que os ciganos são originários da índia, mas
Jordana Aristicth sugere que eles podem ser ainda mais antigos que os indianos.
Esse povo se espalhou pelo Ocidente a partir do século XV, e os primeiros
representantes teriam chegado ao Brasil no século seguinte. As perseguições
portuguesas aos ciganos teriam sido uma das causas da vinda de alguns grupos
para o Brasil. Um decreto de 1685 mudava as penas de exílio de ciganos da
África para o Brasil. O exílio, na verdade, era remar nas galés, que eram
grandes barcos movidos pela força dos escravos. Já as mulheres foram mandadas
direto para o Brasil. Outros ciganos, pertencentes ao grupo Kalon, chegaram
aqui em 1574, na época de D. Carlos V Os ciganos kalons acompanharam os
exércitos mouros que invadiram e dominaram Portugal por quase quatrocentos
anos e permaneceram lá após o término desse domínio. A estimativa é de que
existam hoje no Brasil um milhão de ciganos. Em vários momentos, eles foram
perseguidos. Considerados feiticeiros, muitos também foram condenados e
mortos durante a Inquisição. Durante a Segunda Guerra Mundial, cerca de
500 mil deles teriam sido assassinados.
Uma das características mais
marcantes da cultura cigana é o nomadismo, ou seja, não ter lugar fixo para
morar. Apesar disso, alguns descendentes já estão se fixando em alguns lugares.
Mas a maioria prefere viver viajando pelo mundo. E quando se trata deste
assunto, viver pelo mundo, o mesmo clima de mistério e misticismo envolve
a questão. Várias são as lendas contadas, e a mais conhecida diz que por
terem roubado um dos quatro pregos da cruz, antes da crucificação de Jesus,
os ciganos foram condenados a uma peregrinação com a duração de sete séculos.
Outra versão é a de que o nomadismo se explica por terem sido os ciganos
os responsáveis pela fabricação dos pregos com que Jesus foi pregado na
cruz. E existem ainda aqueles que acreditam terem sido eles que aconselharam
Judas a vender Cristo. Mas nem tudo é castigo. Uma outra lenda diz que um
cigano tirou o quarto prego do pé de Jesus que, assim, o teria perdoado,
bem como os seus descendentes, de todos os pecados. Na filosofia de vida
cigana, a Terra é a Nação desse povo, o teto é o Céu e a religião é a Liberdade.
Como forma de manter seu povo
unido, além do idioma, o Romani, os ciganos têm as suas próprias "leis".
Eles devem casar entre si. Até os casamentos entre parentes são aceitos
(desde que não seja de sangue). Mas nesta questão, as mulheres são discriminadas.
Elas só podem se casar com ciganos, enquanto que os homens podem escolher
suas companheiras fora do seu povo. A mulher é considerada o alicerce da
família e sua responsabilidade aumenta mais quando tem um filho. Não ser
mãe é um pecado quase que mortal para a mulher cigana. Criada para educar
os filhos e cuidar do marido, ela também deve se casar virgem. Outra "lei"
curiosa que se refere às mulheres é que elas podem descobrir os seios no
meio das pessoas, mas jamais mostrar as pernas. Por isso, as saias são longas.
A mulher cigana precisa estar sempre energizada, então anda descalça para
ter maior contato com a terra e, assim, fortalecer o seu corpo.
Para os ciganos, os acontecimentos
mais importantes são 0 nascimento, o casamento e a morte. Mas os rituais
que envolvem o noivado e o casamento são um capítulo à parte. O mais curioso
é que a noiva é vendida ao pai do noivo. Depois de acertado o acordo, os
noivos trocam objetos, que podem ser um punhal ou uma moeda de ouro, que
serão guardados até o dia do casamento. A noiva envolve o seu presente num
lenço de seda vermelho, que alguns dias antes da cerimônia do noivado fica
amarrado a uma garrafa de vinho. A família do rapaz é responsável pelo pagamento
da noiva, de um vestido branco e outro vermelho para o ritual do casamento,
do enxoval e de toda a festa. Durante a comemoração, a família da noiva
não tem obrigação de ajudar, nem de servir a mesa. E no período de noivado,
os dois têm que se evitar, só se comunicando por recados enviados por amigos
ou parentes. A festa de noivado dura de dois a seis dias. As mulheres usam
os seus melhores vestidos e jóias. A noiva se veste de branco, e o ponto
alto da festa é o ritual dos punhais que é feito com um corte no pulso dos
dois. Nesse instante, os pulsos são unidos, simbolizando a união numa só
vida. Em seguida, os pulsos dos noivos são amarrados por um lenço vermelho,
que é guardado junto com os punhais e substituem as alianças. Já no casamento
são usados os mesmos símbolos do noivado: os dois punhais, o lenço vermelho,
vinho, pão, sal e uma taça de cristal. O vinho é para garantir a alegria
permanente ao casal, o pão e o sal representam a união, a taça de cristal
é para que a harmonia se mantenha presente e o punhal serve para a comunhão
do sangue.
O nascimento de uma criança
é importante porque aumenta a família e, quanto maior for o clã, mais importância
tem dentro da comunidade. Um casal sem filhos está com rumo certo à separação,
pois um casamento só se consolida com o nascimento de uma criança. A mulher
sempre é responsabilizada quando o casal não tem filhos. Para os ciganos,
a morte tam bém é um acontecimento marcante. Eles acreditam que a pessoa
continua rodeando e amparando os que deixou no mundo dos vivos. Também acreditam
que uma pessoa não pode morrer com ódio no coração, senão vagará sem destino
pelo Universo. Segundo as tradições desse povo, a mesma impureza que a criança
traz ao nascer e desaparece no batismo, é encontrada na pessoa que morre.
Por isso, todos os pertences do morto devem ir junto com ele.
Quanto mais velho o cigano,
mais respeito ele tem junto ao seu povo. Eles atuam como consultores e magistrados
nos tribunais ciganos. São sempre procurados para resolver questões e situações
difíceis, sendo seus conselhos acatados pela comunidade e respeitados como
lei. Os idosos devem sempre ter lugar de destaque nas festas, e os mais
jovens precisam sempre beijar lhes as mãos em sinal de respeito.
Os ciganos acreditam que Deus
os colocou no mundo para praticar o dom da adivinhação com a finalidade
de ajudar seus semelhantes. Mas são as ciganas que mais exercita m esse
privilégio. Aos sete anos, elas aprendem a ler a sorte e depois de mais
sete anos seguidos, elas saem às ruas para atender as pessoas. Além da Quiromancia
(leitura das mãos), as ciganas podem exercitar a vidência através de vários
objetos como pedras, moedas, borra de café, copo d'água, bola de cristal,
jogos de carta e Mario. As ciganas transmitem energia pelo olhar e recebem
a mensagem das pessoas pelo olho místico, que se encontra localizado no
meio da testa e na palma da mão. Esse dom da adivinhação não é usado somente
para prever o futuro, como também para detectar algum problema de saúde.
Para manter esse dom, a mulher cigana não deve nunca cortar os cabelos porque,
ao fazê lo, terá sua força energética diminuída.
Os ciganos preservam e usam
muito os quatro elementos fundamentais da natureza Terra, Fogo, Água e Ar
nos seus rituais. Para eles, o Fogo é muito importante, porque queima a
negatividade e ilumina a positividade. Um objeto que concentra os quatro
elementos e que é muito usado por este povo é a vela. A Água e a Terra são
representados pela cera e o pavio. O Fogo é a chama e o Ar (oxigênio) a
mantém viva (acesa). Estas são as lendas, mistérios e magias da vida desse
povo fascinante. E nas próximas páginas você vai conhecer um pouco de tudo:
magias, Quiromancia, Baralho Cigano e muitos outros assuntos que fazem dos
ciganos o povo mais místico da Terra.