Urbi et Orbi � 16/10/2002

Colocar o Ribatejo no mapa

Ap�s qualquer breve an�lise, torna-se percept�vel que Ribatejo n�o � um mero termo que se utilize cada vez que se pretende caracterizar uma �rea de localiza��o d�bia que defina algo entre o Vale do Tejo e o distrito de Santar�m

Em 1961, Yuri Gagarine foi o 1� Homem a ver a Terra como um planeta uno, onde fronteiras, cren�as e entidades culturais nada mais eram que ac��es com a mesma import�ncia das que as formigas t�m na sua vida em comunidade. Numa situa��o an�loga, � esta a situa��o de todos aqueles que se v�em desenraizados, tirados do seu formigueiro.
Residindo agora fora de Almeirim, tive a oportunidade de viver esta experi�ncia. As expectativas aliam-se ao desconforto e a uma busca da identidade provocam mais que um desejo, uma necessidade de fazer um balan�o quanto �s ra�zes, quanto � caracteriza��o das zonas de influ�ncia de uma poss�vel �cultura ribatejana�, e quanto � caracteriza��o das gentes que habitam estas zonas. Simultaneamente, parece-me oportuno discutir-se agora o que � ser ribatejano, assim como o que � o Ribatejo, uma vez que se discute actualmente e mais uma vez, a execu��o de uma reforma da administra��o do territ�rio na qual as compet�ncias actualmente tratadas em Santar�m passariam para �vora.
Assim, come�ando pela delimita��o geogr�fica, considero existirem 4 zonas distintas entre si dentro das fronteiras da ainda cartografada prov�ncia ribatejana.
Ao norte, v�rios concelhos liderados por Abrantes buscam uma identidade pr�pria por entre um patrim�nio cultural pr�ximo da Beira Baixa e Alto Alentejo, pelo que n�o ser� sem raz�o que alguns concelhos desta zona aspirariam ficar situados numa regi�o liderada por Castelo Branco, ou Portalegre.
Ao sul, seguindo uma linha com come�o em Vila Franca de Xira e que segue at� a Azambuja, encontramos uma �rea que, se bem que fazendo parte das fronteiras ribatejanas, fazem igualmente parte do distrito de Lisboa, pelo que se v� fortemente influenciada pelo ritmo da capital.
A oeste, junto �s serras de Aire e Candeeiros numa faixa que segue de Rio Maior a Torres Novas, situam-se os concelhos onde � mais not�ria esta situa��o de desejo de pertencer a uma regi�o administrativa com sede em Leiria. Our�m, que se encontra a 22 Km de Leiria e a 64 Km de Santar�m tem sido a autarquia que mais tem tentado esta transfer�ncia.
Por �ltimo, o Ribatejo das lez�rias, que se estendem da Goleg� � margem sul da foz do Tejo, onde rio � desgra�a e benesse, criando uma rela��o onde a simbiose entre a terra e o rio � uma constante que se projecta nas actividades tradicionais.
Poder-se-ia ainda falar de uma 5� zona de influencia ribatejana, a do �Ribatejo perdido�, nomeadamente na margem a sul de Lisboa, onde at� h� n�o muito tempo subsistiram na topon�mia local nomes como Aldeia Galega do Ribatejo (Montijo) ou Moita do Ribatejo (Moita), sendo certo que, apesar de se encontrarem perdidos os la�os topon�micos para al�m dos administrativos, se encontram ainda presentes nas suas gentes a manuten��o de tradi��es t�o ligadas � lez�ria.
Ap�s qualquer breve an�lise, torna-se percept�vel que Ribatejo n�o � um mero termo que se utilize cada vez que se pretende caracterizar uma �rea de localiza��o d�bia que defina algo entre o Vale do Tejo e o distrito de Santar�m. � semelhan�a de tantas outras regi�es nacionais, existe uma plataforma cultural que se desenvolveu ao longo da hist�ria pela interac��o entre o Homem e o meio, do mesmo modo que, num outro patamar, existe uma plataforma nacional que faz de Portugal uma dos mais antigos e coesos estados-na��o do mundo. Fazer coincidir tais fronteiras culturais com as administrativas significa, perante a macifica��o de est�mulos culturais de que somos alvo todos os dias, reconhecer, respeitar e preservar as ra�zes sobre as quais se encontram assentes os pr�prios pilares culturais da na��o.

Nuno Filipe Mendes
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