Urbi et Orbi � 26/04/2002

Num Est�dio � Beira Mar Plantado

O tema n�o � f�cil, ainda para mais quando toda a na��o fervilha com o assunto. � uma quest�o dif�cil de discutir, mas mesmo assim creio que o di�logo � obrigat�rio, quanto mais n�o seja pela necessidade de introspec��o colectiva de que esta na��o carece.
A quest�o anda em torno de 22 indiv�duos e de uma bola. Do que era inicialmente uma modalidade desportiva mas que, de algum modo que me ultrapassa por completo, passou a ser encarado como um tema de interesse vital � na��o. Contrariando o citado pelo Sr. Lu�s Figo, e acreditem que ningu�m o lamenta mais que eu, a verdade � que hoje em dia o joelho deste desportista � um assunto de Estado, precisamente na mesma medida em que o foi a perna partida de Dom Afonso Henriques quando este se punha em fuga de Badajoz h� quase 900 anos atr�s. Se nessa ocasi�o foi toda uma na��o que caiu do cavalo e se viu aprisionada pelos castelhanos, hoje, foi toda uma na��o que se ajoelhou perante o rev�s numa s�rie de conquistas que nos trouxe a doce ilus�o da divina provid�ncia como m�e da gl�ria nacional h� muito ausente.
Sem que este discurso seja tomado por um qualquer bacoco revivalismo her�ico do sagrado destino nacional, pois eu n�o creio que tal exista, a pergunta que fa�o � a de querer saber como � que nos permitimos chegar a este estado? A esta triste realidade que � a de um pa�s buscar a gl�ria ausente numa hipoteca de todo o seu orgulho, esperan�as e ambi��es num grupo de homens que, assuma-se sem hipocrisias, pelo valor em que se encontram avaliados, colocar�o sempre o seu interesse individual � frente do interesse nacional, a n�o ser que estes coincidam.
Voltando ao destino nacional, creio que ele existe de facto e que se foi moldando ao longo dos tempos, consoante os est�mulos internos e externos a que o pa�s e sua popula��o foram sendo expostos. Como tal, esta � uma quest�o que se v� intimamente ligado ao car�cter do que � ser portugu�s, e por isso mesmo convir�, antes de mais, lan�armo-nos na hercul�nia tarefa de tentar caracterizar os pontos chave da forma��o da identidade nacional no seu n�vel mais subliminar.
Telegraficamente, identifico assim as principais altera��es que foram sendo feitas � identidade colectiva nacional: At� ao in�cio do s�culo XV, o objectivo primeiro seria a consolida��o e desenvolvimento interno face �s pretens�es castelhanas; Entre a conquista de Ceuta e D. Sebasti�o d�-se uma face sagrada ao destino nacional; Com D. Jo�o V e a explora��o do ouro e diamantes do Brasil, Portugal mostra-se como uma na��o rica, altiva e orgulhosa; Vindas as invas�es francesas, a consequente independ�ncia do Brasil, a guerra civil e ainda com uma estranguladora presen�a inglesa na administra��o do reino, o orgulho nacional vai sofrendo duros golpes, at� que o Mapa Cor de Rosa acaba por marcar o fim do Portugal mon�rquico; Com a Rep�blica, s�o as revolu��es e instabilidade pol�tica e social a marcar a ordem do dia, at� que em 1933 instaura-se o Estado Novo, regime que explora at� aos limites os her�icos feitos dos antepassados, invocando a excepcionalidade da divina identidade nacional e do sentido de missionarismo no desenvolvimento dos povos ultramarinos.
Chegamos assim at� aos nossos dias, nacionais de um pa�s que se viciou em grandes empreendimentos, que j� teve o mundo e que tudo perdeu, n�o de uma vez mas mais dolorosamente, aos poucos. Chegamos a um pa�s em que, apesar de por v�rias vezes ter visto dinheiro f�cil, a sua popula��o sempre foi pobre, conhecendo a riqueza apenas quando se aventuravam na materializa��o dos sonhos al�m fronteiras. � assim este um pa�s de her�is nascidos no povo e pelo povo elevados a her�is, �cones de perseveran�a e abnega��o a ser seguidos. Um pa�s filho de Deus que por ele se sente abandonado. Um pa�s que n�o governa a sua terra porque os olhos est�o desde sempre presos a mais uma grande empresa al�m mar.
� esta a triste realidade, mas tamb�m � esta a realidade que n�s cri�mos e da qual somos igualmente fruto. � esta a realidade de projectarmos em cada selec��o de futebol uma Ala dos Namorados que nos trar� a vit�ria, em cada treinador um D. Sebasti�o que emergiu do nevoeiro e em cada �rbitro um Papa que, injustamente, reconhece a soberania castelhana sobre as Can�rias.
Temos pois um futebol nacional que n�o se governa internamente e que tem os olhos sempre postos em empresas al�m mar, um futebol que consegue prod�gios mas que no final se sente abandonado por Deus, um futebol com her�is nascidos do povo e que este toma como modelos, um futebol que tem os seus mais valiosos filhos al�m fronteiras, um futebol que saciar� em 2004 o seu vicio por grandes empreendimentos, na v� busca de reconquistar tudo aquilo que j� teve e que aos poucos, dolorosamente, foi perdendo.
Pergunto-vos agora se ser� assim t�o estranha esta realidade que � a de um pa�s buscar a gl�ria ausente numa hipoteca de todo o seu orgulho, esperan�as e ambi��es num grupo de homens que colocar�o sempre o seu interesse individual � frente do interesse nacional? Respondo-vos que n�o vejo nada de estranho em tudo isto, porque � disto que somos feitos, � isto Portugal (no seu melhor).

Nuno Filipe Mendes
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