| Urbi et Orbi � 22/04/2002 Pelo direito � cultura No passado m�s, o senhor X, que � algu�m com algum interesse por eventos de relev�ncia cultural, foi uma vez ao teatro, duas ao cinema, viu um concerto e ainda arranjou tempo ao Domingo de manh� para ir ao museu, altura em que, para quem n�o sabe, as entradas em todos os museus do pa�s s�o gr�tis. O senhor X, que pode ser qualquer um de n�s, n�o � abastado mas tem este vicio que n�o lhe sai barato, o vicio da cultura, o alimento sem o qual o seu espirito definha, e por isso faz contas com os trocos que tr�s no bolso a ver se tem dinheiro que chegue para mais uns litros de gasolina, s� a suficiente para ir ao teatro a Lisboa ou ao cinema a Santar�m. O senhor X, apesar de morar em Almeirim, sente-se cada vez mais distante da sua cidade natal, n�o encontrando nela o alimento que acaba por encontrar noutros locais. Sente-se quase um estrangeiro na sua pr�pria terra, reconhecendo nela somente o imenso peso de uma cultura hist�rica local que se projecta em eventos quase anuais. Se dependesse de si, afirma, toda a actividade artistico-cultural seria valorizada, uma vez que uma popula��o mais atenta ao que se passa al�m cidade e at� al�m fronteiras � por certo uma popula��o mais convicta da sua identidade local. Se dependesse de si, continua, os edif�cios mais antigos e representativos do hipot�tico centro hist�rico da cidade seriam mantidos e restaurados, sendo toda a �rea revitalizada, porque defende que casas n�o s�o s� pedras mas toda a materializa��o do espirito de continuidade do que � ser almeirinense. O discurso do �se dependesse de mim� do senhor X, que mais uma vez noto poder ser qualquer um de n�s, � intermin�vel e recheado de ideias v�lidas, mas tal discurso, antes de fazer notar interesse pela mat�ria, n�o � mais que um sinal de desresponsabiliza��o por tudo o que se passa � nossa volta. Num pa�s cheio de treinadores de bancada, em que todos t�m uma opini�o acerca de tudo, se na nossa cidade n�o existe um cinema, n�o existe um museu digno ou s�o escassas as iniciativas do foro cultural, a culpa n�o pertence a mais ningu�m a n�o ser a n�s mesmos. � certo que surge com maior facilidade uma critica ao executivo camar�rio pelo aparente laxismo perante estas e outras situa��es, no entanto, e uma vez que vivemos em democracia, se a �ltima palavra � a do povo, ent�o a primeira ac��o devia ter a mesma fonte, individualmente ou atrav�s do associativismo. A necessidade de outras formas de express�o culturais al�m das existentes, que no fundo n�o s�o mais que extrapola��es da pluralidade que constitui toda a sociedade humana, est� directamente dependente da for�a e do empenho da sociedade civil na sua divulga��o, correndo-se o risco de estas serem abalroadas pela dita arte institucional, aquela que � promovida pelas institui��es p�blicas, ou por qualquer outra imposta pelas leis do mercado. No nosso pa�s, num passado n�o muito distante, o contributo dado aos ent�o tidos como artistas marginais, ou seja, aqueles n�o afectos ao Estado Novo, foi de um valor ineg�vel para uma nova compreens�o da realidade de ent�o e instala��o de um regime democr�tico. Desde os iniciais movimentos liter�rios, passando pela pintura e chegando � musica e aos artistas de interven��o, a divulga��o das ideias atrav�s da arte serviu de fio condutor atrav�s de gera��es como uma luz ao fundo do t�nel do obscurantismo de uma sociedade mecanizada. Felizmente os tempos s�o outros, no entanto, o risco de um novo obscurantismo cultural n�o pode ser esquecido, desta feita motivado pelo afastamento volunt�rio de todo o processo decis�rio por parte da popula��o, rica nas opini�es mas parca nas ac��es. O senhor X que h� em todos n�s, sente que na escola da vida toda a experi�ncia ensina. Gosta de interiorizar todo o tipo de express�o artistico-cultural, absorvendo em cada uma delas qualidades diferentes e de riqueza infind�vel, sendo tal conceito, por muito vago que possa parecer � partida, compreendido somente ap�s muitas horas no cinema, no teatro e em museus, quando o sentido critico despontar para a realidade de que o Ser Humano foi criado para criar e que neste incessante processo de cria��o o Homem se recria a si mesmo. A ambi��o que em todos h�, no surgir de um Homem culturalmente mais elevado, mais sens�vel e mais sensato em rela��o a tudo o que o rodeia, n�o encontrar� a sua origem em especula��es e em falsos r�us, mas sim no instante em que o sonho se tornar obra feita pelas m�os de quem sonhou. Nuno Filipe Mendes |