Urbi et Orbi - 24/10/2001

Tempo de Guerra

Na manh� do dia 11 de Setembro de 2001, os Estados Unidos acordaram para o terror da vulnerabilidade e o mundo acordou para o s�culo XXI. O mundo depara-se hoje com um novo tipo de terrorismo que, ainda em gesta��o, havia j� dado sinais de vida em outros atentados, o terrorismo �privado�. Este tipo de terrorismo diferencia-se do tipo cl�ssico por assumir formas de ac��es perpetradas n�o por grupos organizados afectos a um territ�rio mas por indiv�duos motivados por raz�es e interesses insuficientemente defendidos ou atacados por na��es soberanas, possuem assim contornos mais ideol�gicos e at� econ�micos que territoriais. Mais ainda, a tend�ncia destes empreendimentos privados � a de n�o praticar formas de um terrorismo pol�tico ocidental, caracterizada pelo recurso a ataques espor�dicos e localizados, de que s�o exemplo a ETA e  o IRA, mas de fazer evoluir a forma do terrorismo pol�tico/religioso isl�mico para um modelo similar ao terrorismo pol�tico/econ�mico sul americano, onde se podem encontrar ex�rcitos regulares transfronteiri�os envolvidos em conflitos que mais se assemelham a guerras civis que a escaramu�as entre for�as de seguran�a nacionais e guerrilheiros reaccion�rios.
A livre circula��o destes ex�rcitos regulares atrav�s de estados seus simpatizantes n�o s� favorece a organiza��o de tais for�as como as incentiva e desenvolve, sendo o apoio material e de know how a moeda de troca para a exist�ncia uma quinta coluna de mercen�rios, independentes do estado acolhedor ainda que a seu mando. Fazendo a analogia para situa��es similares vividas por estados soberanos, ao passo que hoje os interesses de na��es apoiantes de grupos terroristas v�em os seus interesses defendidos por actores que, � partida, lhe s�o alheios, lavando da� as suas m�os, num passado n�o muito distante, eram as duas grandes pot�ncias da guerra fria que apoiavam com conhecimento e material grupos armados que lhes eram alheios mas que defendiam os seus interesses. Desde Angola ao Afeganist�o, passando pela Am�rica Central, os exemplos repetem-se.
A era da informa��o atingiu tamb�m os v�rios grupos extremistas mundiais e assim, o mutuo conhecimento e troca de informa��es entre terroristas por todo o mundo facilita invariavelmente a coordena��o de esfor�os com vista a ac��es comuns. Deixou de ser estranho ver a ETA a comprar armamento a grupos �rabes ou de ver o IRA a treinar homens nas florestas controladas por guerrilheiros sul americanos. Deixar� de ser estranho, num futuro pr�ximo, assistir a ac��es de m�dia e grande envergadura levadas a cabo por coliga��es est�reis de grupos que, pol�tica, religiosa, econ�mica ou ideologicamente nada t�m em comum.
Internacionalmente, a primeira reac��o ap�s os atentados de 11 de Setembro � a de contrariar o rumo de uma pol�tica externa unilateral praticada pela Casa Branca, pela qual a imposi��o da vontade norte americana, apoiada pelos seus aliados, precede a discuss�o de assuntos sens�veis � susceptibilidade de outras na��es, algumas das quais representadas no Conselho de Seguran�a da ONU. T�picos como o NDM (National Defensive Missile), que melindrava as rela��es com a R�ssia, o apoio material e com conselheiros junto do governo colombiano na luta contra a guerrilha, posta em causa por alguns estados fronteiri�os sul americanos, ou ainda o apoio declarado � diferencia��o de Taiwan face �s pretens�es da Rep�blica Popular da China, s�o meros exemplos de algumas ac��es individuais de uma na��o que, finda a Guerra Fria, procura assumir-se como ar�ete de uma Nova Ordem Mundial julgada unipolar at� ao passado dia 11.
Agora, provado que est� terem os Estados Unidos um Tend�o de Aquiles, as iniciativas norte americanas dever�o passar pela negocia��o e coopera��o interestatal com vista a eliminar todos os focos de terrorismo que possam constituir formas de amea�a para si e para os seus aliados. Para este efeito, o ataque e at� ocupa��o de na��es ditas renegadas, ou seja, que apoiam e acolhem grupos terroristas, n�o est� posta de parte, sendo at� eventualmente �til, pelo posicionamento estrat�gico que tais na��es, ap�s dominadas, implicariam para os Estados Unidos e seus aliados.
Tendo em aten��o a pol�tica estrat�gica militar americana ap�s o Vietname, era j� de esperar uma longa vaga de ataques a�reos at� � inoperancia militar do Afeganist�o, ao qual se seguiria um apoio a fac��es internas rivais atrav�s de meios e conselheiros militares. Aqui, ainda que n�o preveja uma interven��o terrestre em grande escala por parte dos americanos e seus aliados, uma vez que o elevado numero de baixas tornaria o conflito insustent�vel do ponto de vista da opini�o p�blica, tal n�o quer dizer que esta deva ser posta de parte, isto com vista � abertura de outras sempre �teis frentes de combate, com vista a conter movimenta��es internas ou mesmo transfronteiri�as das for�as inimigas, ou t�o somente tendo em vista alcan�ar uma vit�ria r�pida ainda que com algum desgaste. Destas raz�es, a principal preocupa��o por parte dos Estados Unidos ser� a de controlar as movimenta��es dentro e para fora do territ�rio, ou seja, circunscrever a �rea de ac��o das tropas opositoras, mesmo que para isso se recorra a incurs�es dentro do territ�rio paquistan�s, apoiando o ex�rcito local. N�o se dever�o repetir erros como os do Kosovo, onde o apoio ao U�K e o seu n�o controlo depois do conflito fez com que a guerra passasse a fronteira para a Maced�nia.

Nuno Filipe Mendes

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