Urbi et Orbi � 16/04/2001
A preserva��o do patrim�nio hist�rico arquitect�nico local

Vivemos hoje tempos de grande intensidade cultural, onde a busca e caracteriza��o de uma identidade, contra a corrente da cultura de massas, se assume como leme da armada de iniciativas que varrem todo o pa�s. Neste �mbito, a preserva��o do patrim�nio hist�rico, nas suas vertentes arquitect�nico e cultural, surgem na dianteira da manuten��o da distin��o da identidade nacional e das especificidades dos seus povos.
Na sua vertente cultural, a par do alimentar de uma consci�ncia de uni�o nacional em torno de valores e hist�ria comuns, tantas vezes glorificados institucionalmente, valoriza-se localmente, sobretudo atrav�s da livre empresa de institui��es n�o governamentais, a manuten��o de todas as particularidades que distingam o meio local da �rea envolvente.
No que toca � preserva��o da vertente arquitect�nica do patrim�nio hist�rico a situa��o toma um rumo diferente. A especula��o imobili�ria em torno de im�veis e terrenos sobrevalorizados, o abandono volunt�rio de edif�cios centen�rios votados � ru�na e a falta ou deficiente fiscaliza��o na atribui��o, atrav�s de concurso p�blico, para a constru��o desenfreada de casas de habita��o completamente desenquadradas do espa�o envolvente e por vezes do pr�prio Plano Director Municipal, levam a um acentuar de incoer�ncias paisag�sticas que desembocam invariavelmente no limbo de uma crise de identidade
Um meio dominado pelo caos urban�stico e constru��o desenfreada, � um meio no qual a secundariza��o da coer�ncia arquitect�nica, baseada em s�culos de forma��o de uma identidade pr�pria, leva � completa descaracteriza��o desta �ltima. Em contraponto, um meio consciente da sua identidade � um meio consciente das suas potencialidades e viabilidade dos seus projectos, afirmando-se como um meio mais confiante e eficiente no eterno projecto de desenvolvimento local. N�o admira assim que, nesta linha, se observe o transbordo de actividade que marca hoje os meios em que o patrim�nio arquitect�nico foi acarinhado e preservado.
As localidades dotadas de parco patrim�nio hist�rico arquitect�nico devem ser as primeiras a tomar a iniciativa de preserva��o do pouco patrim�nio existente, na certeza que do mesmo se encontra dependente a preserva��o intemporal da sua identidade. Ainda que a necessidade de constru��o de habita��es e vias de transporte seja uma realidade, a estas localidades n�o dever� caber a resigna��o de servir de dormit�rio a outras de maior actividade comercial, o que s� potencia a fuga de massa monet�ria e logo do comercio e postos de trabalho.
O alimentar de uma identidade local hist�rica diferenciada surge hoje como catalisador do apego � terra, mesmo por parte daqueles que, n�o sendo origin�rios, a� resolveram fixar-se. Para tanto n�o s�o necess�rias obras de grande monta. Por vezes bastam pequenos gestos, pequenos para quem os pratica mas grandes para quem deles usufrui. Por vezes basta restaurar um edif�cio em vez de o substituir por uma paup�rrima r�plica, por vezes basta ser diligente na atribui��o de licen�as para a constru��o, por vezes basta t�o somente manter a cal�ada de uma rua em vez de a asfaltar. H� que abra�ar o que de melhor o futuro pode trazer, sem que se coloque de parte o que de melhor j� se possui. O verdadeiro desenvolvimento � aquele que concilia e n�o o que destroi ou o que recria.

Nuno Filipe Mendes
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