| Urbi et Orbi � 06/03/03 No purgat�rio, entre a guerra e a paz Hoje, o mundo id�lico sonhado por Kant deu lugar ao realismo de Clausewitz, com a �nica diferen�a de que a guerra n�o � mais a prossecu��o da pol�tica atrav�s da viol�ncia, � antes a prossecu��o da economia atrav�s da guerra. Entre os milhares de militares j� presente no Golfo P�rsico e os milhares de manifestantes presentes na ruas, o mundo apresenta-se hoje entre a guerra e a paz. Entre uma guerra que ningu�m, honestamente, espera que seja convencional, isto a avaliar pelos alegados contactos entre o Iraque e a rede terrorista Al-Qaeda, e uma paz que, de igual modo honestamente, acabar� por premiar o esfor�o diplom�tico do opressivo regime iraquiano. Neste limbo de incertezas, a cis�o atl�ntica, a par das diversas manifesta��es decorrentes, assenta no facto de ingleses e norte-americanos n�o colocarem em causa uma poss�vel interven��o unilateral e sem o aval do Conselho de Seguran�a, violando a Carta da ONU e colocando novamente a credibilidade desta organiza��o em causa No Conselho de Seguran�a, a trincheira encontra-se bem vincada entre os seus cinco membros, colocando o Reino Unido e os Estados Unidos em oposi��o aos defensores de uma solu��o que passa pelo esgotar de todas as solu��es diplom�ticas, incluindo o prolongamento das inspec��es dirigidas por Hans Blix. Os defensores desta posi��o, Fran�a, R�ssia e China, s�o igualmente, curiosamente, os actuais maiores investidores no petr�leo iraquiano e os que mais teriam a perder com um eventual conflito. Assim, entre os ganhos �bvios que norte-americanos e ingleses colheriam de um controlo territorial e, consequentemente, energ�tico do Iraque e o actual aproveitamento das energias fosseis que os restantes membros do Conselho de Seguran�a det�m neste pa�s, � inquestion�vel a face economicista deste conflito. As quest�es que se levantam, na minha opini�o, prendem-se sobretudo aos novos alinhamentos que se seguir�o. Devido � recusa de belgas, alem�es e franceses em apoiar a Turquia numa situa��o de pr�-conflito, a NATO personifica o actual cisma Atl�ntico. Norte-americanos apontam a estas na��es europeias as culpas para a inoper�ncia da NATO, salientando que estas n�o respeitam o Tratado do Atl�ntico Norte, em oposi��o, estas na��es defendem que enviar agora tropas e meios para a Turquia s� iria inflamar a regi�o e tornar inevit�vel um conflito. Mais ainda, alegam que o invocar do artigo 5.� n�o est� em causa, prometendo defender este pa�s caso este seja invadido, conforme o que se encontra redigido no Tratado NATO. No centro desta quest�o, a Turquia saboreia pela segunda vez nos �ltimos meses um fruto amargo vindo da Europa. N�o esque�amos que mais uma vez a Turquia viu adiada para as calendas gregas a sua ades�o � Uni�o Europeia. Ao actual cisma do Atl�ntico junta-se agora um poss�vel cisma do Oriente. A Uni�o Europeia � outra das institui��es abaladas, vendo mais uma vez divididas as opini�es entre os seus estados membros. A coes�o europeia em torno dos aspectos ligados � pol�tica externa e � defesa ficar� para sempre marcada com os estigmas de um longa hist�ria que dividiu at� � 50 anos o Velho Continente. Ser� poss�vel encontrar a uni�o enquanto na��es continentais continuarem a agir em bloco contra na��es mar�timas, ou na��es neutrais se encontrarem em oposi��o a na��es armadas? Muito dificilmente e as recentes propostas para um direct�rio franco-alem�o no seio da Uni�o Europeia em nada favorece a coes�o pela paridade entre os estados membros. Em suma, o actual conflito iraquiano, que antes de o ser militarmente j� decorre por entre os corredores de todos os governos, associa��es regionais e internacionais, promete ser o desvendar de uma nova ordem internacional, mais de 10 anos ap�s o fim da ordem da guerra fria. O sonho de uma ordem global regida pelo multilateralismo, materializado em organiza��es e f�runs de discuss�o, parece dar lugar ao bilateralismo, assente em alian�as de conveni�ncia e regida pelos interesses individuais dos estados. Hoje, o mundo id�lico sonhado por Kant deu lugar ao realismo de Clausewitz, com a �nica diferen�a de que a guerra n�o � mais a prossecu��o da pol�tica atrav�s da viol�ncia, � antes a prossecu��o da economia atrav�s da guerra. Nuno Filipe Mendes |