Urbi et Orbi � 10/01/03

O eterno filme do luso-tropicalismo

Contrariamente ao cinema norte-americano, na cinematografia brasileira a miscegena��o surge informalmente, de um modo quase natural, visto ser ela a pr�pria base da cultura nacional. Brancos e negros habitam na mesma casa que � o Brasil, como observaria Gilberto Freyre, pai do ideal luso-tropicalista.

Encontro-me neste momento, enquanto escrevo estas linhas, na qualidade de espectador de um cativante filme brasileiro de nome �O Chang� de Baker Sreet�, onde contracenam os portugueses Maria de Medeiros e Joaquim de Almeida. Por entre o enredo do filme, Joaquim de Almeida, que veste a pele do detective Sherlock Holmes, envolve-se amorosamente com uma actriz de teatro negra de nome Ana, que havia sido salva das m�os de um serial killer pelo pr�prio detective.
A imagem desta rela��o entre o vitoriano ingl�s e a actriz brasileira recordou-me uma outra obra da s�tima arte, ainda que num extremo completamente oposto. Nesse outro extremo encontra-se Spike Lee, realizador norte-americano conhecido pelos seus trabalhos politicamente incorrectos por salientar os conflitos raciais existentes nos Estados Unidos. Numa das suas obras, �Febre na Selva�, revela o caso de uma italiana que se envolve com um arquitecto negro, prosseguindo o filme em torno desta rela��o aparentemente imposs�vel.
Se encararmos a cinematografia como um retrato, ora negativista ora id�lico mas sempre um retrato das sociedades em que � realizada, n�o podemos deixar de partir para uma analogia entre o modo de como � encarada a diferen�a da cor da pele entre brasileiros e norte-americanos.
Mesmo para o mais desatento e infiel espectador televisivo, seja em s�ries norte-americanas seja em novelas brasileiras, � not�ria a exist�ncia desta diferen�a. No primeiro caso, o dominio WASP (White Anglo-Saxonic Portestant � Branco Anglo-Sax�o Protestante), faz imperar o politicamente correcto nas series televisivas que transmite atrav�s do reconhecimento das minorias mas n�o da sua miscegena��o. Series de negros s� com intervenientes negros e series de brancos em que todos os actores eram brancos marcaram as sitcoms das d�cadas de 70 a 90. J� ultimamente um novo modelo politicamente correcto, condicionado por interesses por um maior espectro de audi�ncias, tem sido evidenciado nos meios televisivos e cinematograficos, um modelo �global�, onde todas as cores t�m lugar atrav�s da participa��o de pelo menos um actor representativo de cada uma delas. Um latino-americano, um afro-americano, uma morena e uma loira fazem hoje uma s�rie ou um �xito de bilheteira. O politicamente correcto assim o imp�e.
J� na cinematografia brasileira, a miscegena��o surge informalmente, de um modo quase natural, visto ser ela a pr�pria base da cultura nacional. Brancos e negros habitam na mesma casa que � o Brasil, como observaria Gilberto Freyre na sua obra "Casa Grande e Senzala". Segundo este soci�logo brasileiro do s�culo passado, pai do ideal luso-tropicalista, a raiz desta diferen�a entre norte e sul-americanos, da qual a filmografia � um mero e p�lido espelho, encontra-se no modo de como o Brasil acabou por ser colonizado por um povo de forma��o religiosa antes de �tnica. O anglo-sax�o s� considera de sua ra�a o indiv�duo que tem o mesmo tipo f�sico, o colonizador portugu�s atribui menor import�ncia � ra�a e considera seu igual aquele que tem religi�o igual � sua, numa liturgia antes social que religiosa. e n�o com a mesma rigidez dos povos da Reforma ou de uma Castela dramaticamente cat�lica.
N�o pretendo elevar o luso-tropicalismo ao estatuto de doutrina �ltima do entendimento humano, ainda assim, n�o se podem deixar de admirar as linhas que, se foram tra�ando ao longo de 500 anos de contactos inter-culturais, permitindo uma proximidade que se projecta hoje em locais t�o distantes como Goa, Macau, Cabo Verde ou o Brasil. Institucionalmente, � certo, os portugueses encontram-se entre os maiores comerciantes de escravos e exploradores de recursos locais, ainda assim, foi informalmente atrav�s dos seus nacionais que a sociabiliza��o deu lugar � miscigena��o, tornando a conviv�ncia o oposto do  mero reconhecimento de minorias e da manuten��o e isolamento das suas identidades culturais.

Nuno Filipe Mendes
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