| Urbi et Orbi � 20/11/02 Esta hist�ria que nos une e divide Pior que algu�m estupidamente obstinado s� algu�m obstinadamente est�pido e pior que isto s� algu�m informado que utiliza o saber e obstina��o em prol de lutas que j� n�o tinham raz�o de ser no seu tempo e que, ridiculamente, mant�m-se infundadas para al�m de desactualizadas nos tempos que correm. Na v�spera do dia em que escrevo estas linhas tive oportunidade de participar num debate de ideias, a que normalmente assisto, e que desta feita se debru�ou sobre a an�lise dos resultados eleitorais de um pa�s da Am�rica Latina. O debate decorria dentro da cordialidade que habitualmente caracteriza estes eventos, at� que, enquanto se discutiam perspectivas para as principais linhas do novo governo relativamente � CPLP (Comunidade de Pa�ses de L�ngua Portuguesa), algu�m n�o resistiu a uma disserta��o acerca de como esta � uma organiza��o sem poder, sem relevo e sem raz�o de ser, especialmente quando Portugal � dos poucos membros com as quotas em dia, sendo que outros, como Mo�ambique ou a Guin�-Bissau, se v�em atra�dos para as esferas angl�fona e franc�fona, n�o respeitando a lealdade linguistica � antiga metr�pole (como se Portugal realizasse algum investimento digno desse nome na divulga��o e defesa da l�ngua portuguesa). Presente na discuss�o encontrava-se um estudante angolano que apontou a vertente mais economicista da CPLP e o modo de como esta se projecta como plataforma de contactos ao investimento em portugu�s. Com toda a raz�o, notou que gra�as � exist�ncia desta plataforma muito se pot�nciou a presen�a de construtoras, institui��es financeiras e empresas de comunica��es e media portuguesas e brasileiras em Angola, da� que a abnega��o demonstrada no financiamento de uma institui��o que, aparentemente, n�o demonstra s�lida credibilidade na defesa da l�ngua que nos une, acaba por n�o ser assim t�o desinteressada quanto isso, aproveitando esse denominador comum como forma de fortalecer os la�os comerciais e privilegiar o desenvolvimento mutuo em detrimento de uma coopera��o a fundo perdido. Vendo este argumento como uma critica de neocolonialismo ao investimento luso, embora n�o o fosse, novamente se levantaram as vozes do rancor hist�rico, dando corpo ao infundado saudosismo de uma realidade que n�o conheceram e que deu pelo nome de Imp�rio Portugu�s. Pessoas nascidas ap�s 1975, que s� conhecem �frica atrav�s das mem�rias de outros, avivavam a discuss�o com coment�rios t�o absurdos quanto �...n�o te queixes a mim, eu n�o andei a lutar pela vossa independ�ncia...� (como se tivesse lutado pela independ�ncia de Portugal), ou ent�o, o argumento cl�ssico de que �...se quiseram a independ�ncia, ent�o fiquem por l�...� (argumento que, a ser usado por Espanha, rapidamente nos sujeitaria a uma nova vaga de �retornados�). A escalada de tom foi inevit�vel, afastando-nos do assunto em cima da mesa e raz�o pela qual nos t�nhamos reunido naquela noite. De um lado ficaram todos os que preferem alimentar o rancor face a um facto hist�rico que, de algum modo pela sua inevitabilidade, ultrapassou a todos, do outro lado ficaram todos os que entendem o humanismo como sendo mais importante que o historicismo estatal. Negado pelos primeiros e irrelevante para os segundos fica a mancha na nossa hist�ria de uma vergonhosa descoloniza��o, dos quais somos, politicamente, os �nicos respons�veis. Defendendo que todo o Homem tem o direito ao trabalho, quanto mais n�o seja pelo direito � sua subsist�ncia e � dos seus, no final n�o resisti em mencionar os milh�es de portugueses que, sem quaisquer qualifica��es, sa�ram de um pa�s que n�o lhes dava esperan�a de melhor vida para optar por outra onde o trabalho de sol a sol era melhor recompensado. O Brasil � um dos muitos exemplos da nossa di�spora e era precisamente do Brasil que se falava ali naquela noite. Nuno Filipe Mendes |