CARTAS DE LONDRES

Londres, 7 de Julho de 2004
�Progn�sticos, s� no final do jogo�

Quem me conhece e teve oportunidade de falar comigo acerca do Euro 2004, sabe bem a minha opini�o acerca deste evento. Tendo em conta que num per�odo de recess�o econ�mica se despenderam v�rios milh�es de euros para construir est�dios onde j� existiam e para futuro usufruto de clubes supostamente ricos, sempre fui contra a organiza��o do Euro 2004. S� em duas das cidades fizeram-se 4 est�dios, ficando desvendada a duvida de quem mais poder tinha, se os clubes se as autarquias. As infra-estruturas criadas, que se queriam p�los de dinamiza��o desportiva, foram colocadas maioritariamente no litoral, esquecendo mais uma vez o interior onde s�o urgentes condi��es para a fixa��o das popula��es. Finalmente, no contexto dos velhos princ�pios de �P�o e Circo� e �F�tima, Futebol e Fado�, o apelidado desporto rei seria novamente coroado para g�udio da popula��o adormecida e para infort�nio de todos os outros desportos, que a bem da verdade jamais ter�o a mesma import�ncia do futebol.
Em termos racionais esta era, e continua a ser, a minha opini�o acerca do Euro 2004. No entanto, n�o me tinha ainda apercebido que havia um factor com o qual n�o havia contado � a paix�o. A principal diferen�a entre o Homem e a m�quina, a meu ver, � precisamente a exist�ncia de uma extens�o sentimental de n�s enquanto seres racionais, do mesmo modo que nos distinguimos dos restantes animais devido � nossa extens�o racional. Andamos neste meio-termo entre besta e aut�mato e, se � verdade que em alguns o futebol acaba por servir de catalizador de instintos bastante prim�rios, noutros serve de agente mobilizador de um sentimento de perten�a e de identidade. Ora, eu j� assisti, e at� participei, em discuss�es mais ou menos acesas relativas a clubes e � selec��o de todos n�s, s� nunca imaginei que de momento para o outro o desporto se confundisse com a pr�pria identidade nacional.
Pode ter ficado demonstrado que mais do que nunca precisamos de her�is, de modelos com os quais nos identifiquemos. Pode ainda ter ficado comprovado que temos a necessidade de vit�rias que nos elevem o ego. Mas antes de todas estas an�lises terem a sua validade, aquilo que vi foi uma na��o reconciliada com a sua bandeira, com o seu hino e, sobretudo, consigo mesma. Com o fim do Euro 2004, e lembrando-me de todos os argumentos que usava antes do evento, digo agora que valeu a pena o dinheiro e os recursos gastos, porque acredito que aquilo que se conseguiu n�o tem pre�o. Mesmo que o final n�o tenha sido o melhor, acredito que apesar de um jogo ter sido perdido em 90 minutos, houve todo um pa�s que se reencontrou ao longo de 3 semanas.
Deixo-vos agora com o meu testemunho de dois dos momentos altos deste Europeu.


Londres, 26 de Junho de 2004
Ver a batalha por detr�s das linhas do inimigo
(e-mail enviado a amigos ap�s a vit�ria sobre a Inglaterra)

Ver um jogo como o Portugal-Inglaterra em territ�rio do inimigo n�o � coisa para card�acos. Nunca esquecendo que a maior parte dos hooligans ficou por c� e que em Inglaterra as pedras da cal�ada s�o substancialmente maiores (pelo que dever�o doer mais), admito que tive algum receio em ver o jogo na apelidada �little Portugal�. Ainda assim o ambiente foi fenomenal, com portugueses (muitos), ingleses (alguns) e um belga, que era quem mais puxava por Portugal quando o joga n�o nos corria bem. As cambiantes das express�es na cara das pessoas demonstravam bem o clima de histeria vivido, e nem a chuva que se fez sentir arrefeceu os �nimos exaltados das centenas de portugueses que ocupavam o passeio em frente ao Caf� Estrela.
0-1 desalento; 1-1 esperan�a; 2-1 vit�ria; 2-2 morrer na praia. Esta � a hist�ria antes dos penaltis. Depois o caso mudou de figura, mas sempre com avan�os e recuos, sempre a perder e a ganhar quase simultaneamente. O Beckham falha � alegria. O Rui Costa falha � tristeza. Este desgaste emocional s� acabou com dois momentos de grande classe por parte do homem do jogo. Ricardo defende um remate sem luvas e menos de 1 minuto depois marca o golo da vit�ria. A meia-final era uma realidade e a chuva misturava-se com a cerveja e o choro de alegria de todos os que assistiram ao jogo naquele peda�o de passeio londrino.
Com as ruas a serem invadidas por mais portugueses que aflu�am de todas as ruas e sa�das de metro, voltava para casa j� sem cachecol ao pesco�o, mas com um inevit�vel sorriso na cara. O �nico coment�rio ingl�s que ouvi foi um arranhado e bem intencionado �Parab�ns�. Respondi com um obrigado e um �thanks�, porque afinal naquela noite houve dois pa�ses a sofrer pelas suas cores� e, sobretudo, porque as pedras da cal�ada aqui s�o muito maiores.

Londres, 4 de Julho de 2004
Bater num Iceberg chamado Gr�cia e ir ao fundo com o navio
(estrato de um e-mail enviado durante uma guerra entre treinadores de bancada)

A nossa �guerra� � a mesma, as estrat�gias � que parecem serem diferentes. Todas t�m o seu valor e todas s�o igualmente importantes a meu ver, s� acho que � contraproducente andarmos � estalada uns aos outros, sobretudo quando andamos todos ao mesmo. Pessoalmente, achei que uma boa maneira de servir os interesses do pa�s seria ir ter com a comunidade grega que festejava em Trafalgar Square. Digo-vos que a experi�ncia que vivi alimentou em parte o meu ego de portugu�s, pois melhor que saber ganhar � saber perder, e melhor ainda � saber transmitir isso ao advers�rio. Em Trafalgar pus os gregos a gritar PORTUGAL e dar os parab�ns pelo campeonato que fizemos. Estou certo que, novamente s� na minha perspectiva, acabei por servir melhor a na��o que se fosse para casa alimentar o eterno fado lusitano do sentimento derrotista. � um facto que perdemos o jogo e que morremos na praia, e tamb�m acredito que transformar a derrota em vit�ria seria tapar o sol com uma peneira. No entanto, n�o est� nas minhas m�os despedir o Mada�l, o Scolari, ou at� Pauletas e Costinhas (por muito que quisesse). Aquilo que estava ao meu alcance fazer quero acreditar que fiz. Defendi as cores do meu pa�s junto do advers�rio na hora da derrota e demonstrei que o bom desportivismo n�o existe s� na vit�ria mas sobretudo na derrota.

Nuno Filipe Mendes
Hosted by www.Geocities.ws

1