CARTAS DE LONDRES

Londres, 10 de Junho de 2004
00h30m

O Dia de Portugal, de Cam�es e das Comunidades come�ou h� pouco, e que melhor momento poderia haver para olhar o nosso pa�s que este. Encontro-me a viver em Londres h� cerca de m�s e meio, e desde ent�o tive j� oportunidade de conhecer parte do pa�s. As compara��es e extrapola��es s�o di�rias e admito estar a viver ainda a fase do deslumbramento, mas certo � que o nosso pa�s raramente sai a ganhar destes meus exerc�cios algo masoquistas.
Desde o cuidado que h� com a preserva��o da hist�ria e arquitectura tradicional, que no fundo s�o testemunhos palp�veis das ra�zes de um povo, at� � m�quina promocional do turismo brit�nico, que � certamente caro em alguns aspectos mas que deixa gratuitos alguns dos mais admir�veis museus do mundo, quase tudo em Inglaterra transporta para o desalento quem, como eu, parte para uma compara��o imediata com a p�tria lusa.
No entanto, e de algum modo felizmente, outros pontos h� em que Portugal sai a ganhar, e acreditem que n�o s�o quest�es de menor import�ncia. Antes pelo contr�rio, s�o precisamente duas das quest�es que mais celeumas causam a todos os portugueses. Segundo alguns document�rios e conservas informais que tive o prazer de ter com pessoas que conhecem ambas as realidades, portuguesa e brit�nica, o nosso servi�o nacional de sa�de � bastante superior em termos de qualidade e rapidez. Como se n�o bastasse, o nosso ensino p�blico, at� ao superior entenda-se, n�o fica a dever nada ao brit�nico. Contrariamente aquilo que � praticado em terras de sua majestade, em Portugal � ainda poss�vel matricular um aluno na escola mais pr�xima de casa, n�o havendo a necessidade de fazer uma candidatura com avalia��o curricular a todos os que pretendem ingressar no ensino secund�rio. Sublinho s� aqui o facto de, n�o poucas vezes, fam�lias inteiras terem de mudar de casa s� porque um dos seus elementos ingressou numa escola secund�ria distante do local onde nasceu e cresceu.
Passando j� para um tema mais actual, precisamente o Campeonato Europeu de Futebol, tenho antes de mais a informar alguns dos que t�o garbosamente afirmavam que este evento transmitiria uma imagem de modernidade do pa�s que n�o � bem isso que transparece nos m�dia em Inglaterra. A esmagadora maioria dos an�ncios das grandes marcas que patrocinam o acontecimento mostra um pa�s de �terra batida�, com mi�dos descal�os e homens barrigudos de bigode (n�o que tenha algo contra barrigas e bigodes, note-se). A imagem de modernidade do pa�s continua a ser a de h� 20 anos atr�s e a oportunidade para a renova��o dessa mesma imagem parece ter escapado neste momento cr�tico. A nossa grande fa�anha, segundo afirmam alguns jornais brit�nicos, parece ser o facto de termos constru�do todos os est�dios do Europeu de Futebol com um or�amento inferior em metade ao da constru��o de um s� est�dio brit�nico, o novo est�dio de Wembley. Mesmo para um pa�s onde os derrapes or�amentais s�o demasiado frequentes, a compara��o com o caso brit�nico s� nos pode embevecer.
Certo � que nem tudo s�o laranjas amargas, mesmo que seja igualmente verdade que nem tudo � um mar de rosas para o nosso pa�s. Entre os anos de ouro da economia portuguesa no in�cio dos anos 70 (onde, em boa verdade, poucos eram aqueles que gozavam a riqueza do pa�s), at� aos dias de hoje (em que todos gozam uma riqueza que o pais n�o tem) Portugal passou por in�meras etapas com o intuito vencer o atraso face aos seus parceiros europeus. Mesmo havendo sectores sacrificados, o ritmo de desenvolvimento � alucinante, sobretudo se passarmos novamente para o quadro das compara��es e vermos o que era o nosso pa�s, a nossa regi�o e a nossa cidade h� cerca de 20 anos atr�s.
� importante n�o ter mem�ria curta e mantermos os olhos postos no futuro. � importante termos orgulho no que somos e n�o nos afundarmos no eterno fado luso de vitimiza��o constante. Hoje � o nosso dia porque Portugal come�a em n�s e o Portugal de amanh� ser� aquilo que n�s fizermos dele. Clich�s, frases bonitas e vazias de conte�do, podem opinar alguns, mas cheias de sentido para todos aqueles que, como eu, lutam diariamente pelos nossos interesses.

Nuno Filipe Mendes
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