A Hora da Estrela - Clarice Lispector
Um pequeno coment�rio:
Eu, particulamente amei esse livro. Clarice Lispector conseguiu envolver o leitor no drama de Macab�a e de Rodrigo S. M. Recomendo o filme  que tem o mesmo nome... Muito bom, apesar de ser antigo!!!
1- A Autora:
   Clarice Lispector foi uma escritora brasileira de origem ucraniana (1925-1977). Criadora de uma linguagem revolucion�ria, � um dos grandes nomes da segunda fase do modernismo. Vem da Ucr�nia para o Brasil rec�m-nascida e � levada pela fam�lia para o Recife.
    Em seus romances predomina o mon�logo interior e o fluxo de pensamento.
    Seu primeiro livro, Perto do Cora��o Selvagem, foi publicado em 1944, quando ela ainda tinha 19 anos.

2- Os t�tulos da obra:
    Logo no come�o do livro, antes da dedicat�ria, pode-se perceber 13 t�tulos, entre eles �A hora da estrela�, e a assinatura de Clarice Lispector no meio da p�gina.
    Cada t�tulo aborda um aspecto da hist�ria de Macab�a ou da cria��o do livro.
    O t�tulo �A hora da estrela� se refere ao momento da morte de Macab�a, a �nica oportunidade que ela teve na vida para ser estrela em alguma coisa. Ela inclusive morre atropelada por uma Mercedes, cujo s�mbolo tem uma estrela e logo antes de morrer vomita uma �estrela de mil pontas�.

3- As tr�s narrativas:
    O livro de Clarice Lispector apresenta ao leitor 3 narrativas: a hist�ria da vida de Macab�a; o drama de Rodrigo S. M., nome que Clarice usa como autor do livro; e a pr�pria hist�ria de cria��o da narrativa, num exerc�cio de metalinguagem.

4- A hist�ria de Macab�a:
    Macab�a era uma alagoana, de �ombros curvos como os de uma cerzideira� (pag 26), �parecia uma filha de um n�o-sei-o-qu� (pag 27), �inteiramente raqu�tica�(pag 28).
    Ela perdeu os pais aos dois anos e foi morar com uma tia. A tia lhe arranjou um emprego de datil�grafa e ela foi morar no Rio de Janeiro. A tia morreu e ela ficou sozinha, morando num quarto com quatro mo�as que trabalhavam nas Lojas Americanas.
    �Ela era encardida pois raramente se lavava. De dia usava saia e blusa, de noite dormia de combina��o. Uma colega de quarto n�o sabia como avisar-lhe que seu cheiro era mirrinhento. E como n�o sabia, ficou por isso mesmo, poir tinha medo de ofend�-la. Nada nela era iridescente, embora a pele do rosto entre as manchas tivesse um leve brilho de opala. Mas n�o importava. Ningu�m olhava para ela na rua, ela era caf� frio.� (pag 27)
    O mundo chegava at� Macab�a atrav�s do r�dio: �Ligava invarialvelmente para a R�dio Rel�gio, que dava hora certa e cultura�( pag 37).
    A �nica dignidade de Macab�a era seu emprego de datil�grafa para o patr�o Seu Raimundo Silveira. Sua colega de trabalho, Gl�ria, que �Apesar de ser branca, tinha em si a for�a da mulatice. Oxigenava em amarelo-ovo os cabelos crespos cujas ra�zes estavam sempre pretas�(pag 59).
    A rotina de Macab�a era trabalhar durante a semana, ouvir a R�dio Rel�gio de madrugada e ir ao cinema uma vez por m�s. O luxo que se dava era pintar a unha de vermelho. Outro prazer seu era recortar an�ncio de jornais. O seu preferido era um de creme para pele. �... ficava s� imaginando com del�cia: o creme era t�o apetitoso que se tivesse dinheiro n�o seria boba. Que pele, que nada, ela o comeria, isso sim, �s colheradas no pote mesmo.� (pag 38)
    O dia em que saiu da sua rotina foi quando conseguiu ficar sozinha no quarto. Ela n�o foi trabalhar dizendo ao chefe que ia arrancar um dente. Ela dan�ou, usufruiu da sua solid�o, pediu � dona dos quartos caf� sol�vel e �gua fervendo e tomou � se lambendo e diante do espelho para nada perder de si mesma� (pag 41). Na tarde desse dia Macab�a saiu para passear e conheceu Ol�mpico, �a primeira esp�cie de namorado de sua vida (pag 43).
    Ol�mpico de Jesus era um paraibano, conhecido como �cabra safado�, que trabalhava de oper�rio numa metal�rgico. Seu sonho era ser deputado ou toureiro, que ele tinha visto uma vez no cinema.
    Os encontros de Macab�a e Ol�mpico sempre aconteciam em dias de chuva. Ol�mpico era arrogante e impaciente, fingia saber sobre tudo, enquanto Macab�a vivia se desculpando.

    �- Voc� sabia que na R�dio Rel�gio disseram que um homem escreveu um livro chamado �Alice no Pa�s das Maravilhas� e que era tamb�m um matem�tico? Falaram tamb�m em ��lgebra�. O que quer dizer ��lgebra�?
    - Saber disso � coisa de fresco, de homem que vira mulher. Desculpe a palavra de eu ter dito fresco porque isso � palavr�o para mo�a direita.
    - Nessa r�dio eles dizem essas coisa de �cultura� e palavras dif�ceis, por exemplo: o que quer dizer �eletr�nico�?
    Sil�ncio.
    - Eu sei mas n�o quero dizer�.  (pag 50)
    � Ela achava Ol�mpico muito sabedor das coisas. Ele dizia o que ela nunca tinha ouvido�.

    O fim do namoro acontece porque Ol�mpico  come�a a namorar Gl�ria. Para ele, ela era o m�ximo. Loira, �carioca da gema�, apesar dele n�o saber o que isso significava, loira e filha de pai a�ougueiro.
    �Macab�a bem viu o que aconteceu co Ol�mpico e Gl�ria: os olhos de ambos se haviam beijado.
    Diante da cara um pouco inexpressiva demais de Macab�a, ele at� que quis lhe dizer alguma gentileza suavizante na hora do adeus pra sempre. E ao se despedir lhe disse:
    - Voc�, Macab�a � um cabelo na sopa. N�o d� vontade de comer. Me desculpe se lhe ofendi, as sou sincero.�

    No dia seguinte ao que Ol�mpico terminou o namoro, Macab�a resolveu se dar uma festa, que consistia em comprar um batom vermelho e pintar a boca fina fora do contorno para tentar se parecer com Marylin Monroe. Quando saiu do banheiro do escrit�rio, ela foi ridicularizada por Gl�ria e sua �nica rea��o foi pedir aspirinas para sua dor de cabe�a.
    Um dia Macab�a resolveu ir ao m�dico indicado por Gl�ria. Ela foi censurada por s� comer cachorro-quente, sandu�che de mortadela. Ele submeteu Macab�a a um exame de raio-X e diagnosticou um come�o de tuberculose pulmonar. A rea��o de Macab�a foi:
    �Ela n�o sabia se isso era coisa boa ou coisa ruim. Bem, como era uma pessoa muito educada, disse:
    - Muito obrigada, sim?�   (Pag 68)

    No escrit�rio, Gl�ria, por remorso, disse a Macab�a que ela come�ou a namorar Ol�mpico por conselho de sua cartomante, madama Carlota. Ela emprestou dinheiro a Macab�a, que foi atr�s da cartomante:
    �- Mas, Macabeazinha, que vida horr�vel a sua! Que meu amigo Jesus tenha d� de voc�, filhinha! Mas que horror!
   Macab�a empalideceu: nunca lhe ocorrera que sua vida fora t�o ruim.� (pag 76)

    Madama Carlota falou sobre o passado de Macab�a e previu que ela ia receber dinheiro de um estrangeiro loiro de olhos azuis. O estrangeiro se chamava Hans e ia casar com Macab�a.
    Macab�a saiu da casa da cartomante pensando no gringo. Ao sair da cal�ada para atravessar a rua, � atropelada por uma Mercedes. �Macab�a  ao cair ainda teve tempo de ver, antes que o carro fugisse, que j� come�avam a ser cumpridas as predi��es de madama Carlota, pois o carro era de alto luxo. Sua queda n�o era nada, pensou ela, apenas um empurr�o. Batera com a cabe�a na quina da cal�ada e ficara ca�da, a cara mansamente voltada para a sarjeta.� (pag 80).
    A morte de Macab�a foi a sua hora de estrela.

5- O drama de Rodrigo S. M.:
     Um escritor que ainda n�o havia alcan�ado o sucesso. Para ele, a linguagem deveria ser livre, despojada.
    �Mas n�o vou enfeitar a palavra pois se eu tocar no p�o da mo�a esse p�o se tornar� em ouro - e a jovem  (ela tem dezenove anos) e a jovem n�o poderia mord�-lo, morrendo de fome. Tenho ent�o que falar simples para captar a sua delicada e vaga exist�ncia� (pag 15)
   �Com excesso de desenvoltura estou usando a palavra escrita e isso estremeec em im que fico com medo de me afastar da Ordem e cair no abismo povoado de gritos: o Inferno da liberdade� (pag 37)

    Para escrever sobre Macab�a, ele tenta se identificar com ela: n�o dorme, adquire olheiras, se abst�m do que lhe dava prazer.
    Os exemplos dessa identifica��o entre criatura e criador est�o espalhados pelo livro:
    �Agora n�o � confort�vel: para falar da mo�a tenho que n�o fazer a barba durante dias e adquirir olheiras escuras por dormir pouco, s� cochilar de pura exaust�o, sou um trabalhador manual. Al�m de vestir-me com roupa velha rasgada. Tudo isso para me p�r no n�vel da nordestina.� (pag 19)
    �Pare�o conhecer nos menores detalhes essa nordestina, pois se vivo co ela. E como muito advinhei a seu respeito, ela se me grudou na pela qual melado pegajoso ou lama negra.� (pag 21)
    �Estou passando por um pequeno inferno com esta hist�ria. Queiram os deuses que eu nunca descreva o l�z�ro porque sen�o eu me cobriria de lepra�.   (pag 39)
    � Eu estive na terra dos mortos e depois do terror t�o negro ressurgi em perd�o. Sou inocente!� (pag 85)
     �Macab�a me matou (... ) N�o vos assustei, morrer � um instante, passa logo, eu sei porque acabo de morrer com a mo�a�.  (pag 86)

6- A metalinguagem no livro:
    Rodrigo S. M. tenta revelar o segredo de escrever. Diz que escreve por necessidade de se compreender e continuar� fazendo isso at� alcan�ar seu objetivo. O escritor tamb�m vai, ao longo do livro, interrompendo a narrativa para dar explica��es. Ele dialoga com o leitor.
    �Enquanto eu tiver perguntas e n�o houver respostas continuarei a escrever.�  (Pag 11)
    �Por que escrevo sobre uma jovem que nem pobreza enfeitada tem? Talvez porque nela haja um recolhimento e tamb�m porque na pobreza e corpo e esp�rito eu toco na santidade, eu que quero sentir o sopro do meu al�m�  (pag 21)
    �Tamb�m esqueci de dizer que o registro que em breve vai ter que come�ar - pois j� n�o ag�ento a press�o dos fatos - o registro que em breve vai ter que come�ar � escrito sob o patroc�nio do refrigerante mais popular do mundo e que nem por isso me paga nada...� (pag 23)
    �Pensando bem quem n�o � um acaso na vida? Quanto a mim, s� me livro de ser apenas um acaso porque escrevo, o que � um ato que � um fato. (...) Para que escrevo? E eu sei? Sei n�o.� (pag 36)
    �Vou fazer o poss�vel para que ela n�o morra. Mas que vontade de adormec�-la e de eu mesmo ir para a cama dormir� (pag 81)
    �Agora entendo essa hist�ria. Ela � a imin�ncia que h� nos sinos que quase-quase badalam� (pag 86)
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