
de Constantino Alves
Cena 1 Um foco no alto do tecto no centro do palco posicionado na vertical apontando para baixo. Um homem entra no circulo produzido pelo foco e diz Um homem(vestido de pijama): É o fim. (Torce-se em várias posições sugerindo um ataque nervoso; depois volta á primeira posição) - o principio do fim (acende-se pouco a pouco um foco frontal que lhe ilumina a cara; a luz revela profundas olheiras)ao principio era Deus; sempre Deus(senta-se numa cadeira que está á sua frente; quando se senta acende-se a luz geral bruscamente)Deus,o ser supremo ,o espirito infinito, inesquestionável, a fé, a minha vontade de crer a minha vontade de crescer(entusiasmado), o mundo era grande, o universo sem fim...(imagina,salta da cadeira,imita).. um berlinde(ouvem-se vozes de crianças brincando) escolho este, o azul marinho(tira um berlinde imaginário de uma bolsa imaginária); um,dois,três e pum catrapês (a bola imaginária entra numa barroca)ganhei!!Viva, (fica sentado no chão)deus está em todo o lado, nos animais, nas plantas,em nós(sorri)Vamos correr!(corre) vamos ver quem chega primeiro áquele salgueiro;é bom correr, é bom sentir o ar a correr pela nossa cara , é bom viver!!!!(diz a gritar; chega á meta imaginária)Ganhei, ganho sempre(fica sério pouco a pouco; senta-se na cadeira) era um tempo bom, o tempo das não dúvidas, o tempo da cabeça crescer(agarra a cabeça com ambas as mãos), o tempo dos primeiros amores, da nossa mãe, do nosso pai, da ...Rosinha, como era bonita a Rosinha, com as suas tranças louritas, os olhitos verdes, a pele branca, as ...falhas dos dentes...Uma vez peguei-lhe na mão, passeámos num jardim, ofereci-lhe uma flor, ela deu-me um beijo, eu ri-me para ela, (outra vez sério)era o mundo natural, tudo era natural, tudo tinha um sentido, eu tinha sentidos(a berrar; cai inerte na cadeira;apaga-se a luz geral, fica apenas o primeiro foco; balbucia) deus todo poderoso, senhor de todo o universo ,tem piedade de mim(repete várias vezes)(toca uma campaínha electrica com estridente) Entra um homem de bata branca, fica atrás da cadeira por baixo do foco, o rosto não se vê Sente-se melhor?Conte-me qualquer coisa sobre si...(pausa, o primeiro homem continua a balbuciar aquela espécie de reza)...Não se lembra de nada?Não me quer contar nada?(pausa)Dou-lhe este comprimido.. (dá-lhe o comprimido na boca , fá-lo beber um pouco de água)e não fique aqui.. deite-se na cama..(O primeiro homem não responde, o médico leva-o para a cama que fica por detrás da cadeira; sai; ouve-se uma porta a fechar) Cena 2 (Um foco na cara do homem que está deitado na cama com a cara voltada para o público) (abre os olhos de repente) a cama!!(pausa).. a cama era um colchão no chão encostado á parede. A cama era o meu mundo...(levanta-se rápidamente,acende-se a luz geral)na cama, eu lia, eu estudava, eu ouvia as notícias na rádio, eu...eu ouvi as primeiras comunicações sobre a revolução do 25 de abril na cama. A idade das ideias, das novas ideias, a razão a nascer, Era Sartre, era marx, era o mundo a mudar, a barba a crescer,as discussões politicas, um homem a amar(imita; faz sexo com os cobertores),amei na cama, e como amei...o sexo, a loucura do sexo, fica sério,eu amava-a ,loucamente, pus-me todo naquele amor, naquela paixão loucura, caiu deus ,inventei um mundo feroz de amor , só para nós dois,num quarto numa cama. Fizemos sexo sem conta, fizemos tudo sem conta, yoga,espiritismo,macrobiótica. E corremos o mundo de ponta a ponta,á boleia,em autocarro e comboio,imaginámos tudo, quisemos tudo, morreu tudo!(grita)(cai da cama,contorce-se,espuma-se,toca uma campaínha,entram dois homens, agarram-no, dão-lhe comprimidos, metem-no na cama, adormece; os 2 homens saem) Cena 3 Tudo escuro; pouco a pouco ouve-se uma música suave,encantatória, uma luz geral azul vai "crescendo" O homem ergue-se debaixo do lençol, sai da cama, caminha pelo palco Tira lentamente o lençol A luz vai" esbranquiçando-se" Sou um fantasma de mim, (como dando ordens) onde está o meu casaco , as minhas calças,a minha gravata, o meu relógio, os meus sapatos( pausa.... depois vê que ninguém lhe obedece, procura ele esses elementos, vai até um armário alto e estreito, encontra o que procura, veste-os e vai dizendo...) Tenho só cinco minutos, vou chegar atrasado, eu... não quero chegar atrasado.(depois de vestido) bom não quero perder o autocarro, vou andando...(dirige-se para a porta do fundo, não consegue abri-la, bate á porta com estrondo) abram !tenho de ir para o emprego!...ninguém...esquisito,,não consigo sair ...vou faltar ao emprego...o que vai ser de mim.. eu que nunca falto ao emprego...é certo que o meu chefe não me vai repreender, mas a ...sociedade...o que irá dizer de mim...(imita) fulano tal falta ao emprego...afinal não é quem se pensa...defensor da sociedade, mas falta ao emprego (desfaz a imitação)...não aguento... o rídiculo... eu a falhar na minha actividade profissional, a falhar na sociedade...(pausa) a idade da razão, dos príncipios, a sociedade é tudo, a sociedade é a realização do homem, que interessa Deus, que interessa as ideologias, o que é preciso é viver em sociedade, ser politicamente correcto(põe-se direito), vencer na vida, produzir,procriar,cultivar,criar, conviver(vai erguendo a voz) (pausa)........(disturbios orgânicos, revira os olhos, deita-se no chão,rasteja, ainda no chão vira as palmas das mãos para o público, estremece todo), não aguento mais,...(delira),a porta...a sala..., toda destruída, os brinquedos,(lampejos)..., comboios, manifestações,...livros,....berlindes sangue,(aos berros) a rosinha a fazer sexo com Marx, não,não,não....(simula o asssassínio de algúem com uma faca, dá vários golpes) Não (pausa) acende-se uma luz no fundo do palco,vêem-se 2 homens atrás de uma janela Entram dois policias: está preso, inculpado de assassínio da sua mulher, poderá guardar silêncio, tudo o que disser poderá ser utilizado na acusação contra si Fecha-se o pano e a luz FIM Constantino
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