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TOCA-TROCA

de Filastor Brega

Esse texto foi inspirado na alegria do Vlad e é dedicado a existência do Val e do Kleber na terra, que se foram juntos no mês de maio de 96.

Personagens: DITÃO E JANETE

DITÃO ESTÁ SOBRE UMA BANCA DE JORNAL, CERCADA DE ÁGUA. SENTA-SE EM UM DESSES ADEREÇOS GRANDES DE PUBLICIDADE. FAZ POSE DE MACHO. ACENDE UM CHARUTO E COMEÇA A FUMAR.

DITÃO- Titica! ... Imundícia!... Dejeto!... Excremento!... Borra!... Fezes!... Cocô!... Bosta!... Merda!...!!!!!!! Chuva do caralho!

JANETE- (NADANDO AO REDOR DA BANCA). - Sos, Sos, Sos... ESSEÔESSEEEEE.... Help-me, help-me! Se me salvar, dou o que quiser!

DITÃO- Que porra é essa?

JANETE- Help-me! Sos... (SEGURANDO NA BORDA DA BANCA) Que bofe! E aí brutão... não vai salvar essa princesa loira e vitaminada...

DITÃO- Pô! Parece uma mina...(OLHA INTERESSADO).

JANETE- Gatão, me ajuda, que essa chuva é uó!

DITÃO- (DESSINTERESSADO) Sai fora jacaré.

JANETE- (SOBE SOZINHA E SACODE A ÁGUA) Bofe! Dragão!

FICAM DE FRENTE, E SE OLHAM COM DESPREZO.

JANETE- Que é que tá olhando?

DITÃO- Sai dessa... tu tá fora do meu cardápio.

JANETE- Não se preocupa... Gosto de homem, mesmo! De macho escândalo. (ENCHE A MÃO).

DITÃO- E eu de mulher, viu mona!

JANETE - Você por acaso é homem?

DITÃO- Pô! Num tá vendo! Em gênero, número e grau!

JANETE- Sem esforço nenhum... paradinha assim, do jeito que tô, sou muito mais macho do que você fazendo pose... Tenho o que a natureza nunca vai te dar. (SEGURA O MEMBRO).

DITÃO- De que é que vale ter o badalo na frente e o sino só tocar na parte de trás.

JANETE- Olha meu bem... garanto que toca do jeito que você quiser ... Se quer ouvir o badalar, é só virar, relaxar e pegar aquela moeda (JOGA UMA MOEDA) te faço escutar e sentir o ribombar dos sinos.

DITÃO - (IRRITADO) Qual é? Sou muito homem?... Todo mundo aqui no pedaço me conhece.

JANETE- Tudo bem, a gente faz escondidinho, e não conta pra ninguém.

DITÃO- Qualéqueé! Meu nome é Ditão!!!

JANETE- (RINDO) Ai!... Éi!... Ií!... Ói!... Ui!... Pra cima de moi... tá mais pra Ditona.

DITÃO- (ENFEZADO) Olha o moral, hein bichinha. Te racho em duas!!!

JANETE- Bichinha não... Ó lá... Ó o respeito... Não me obriga a descer dos saltos. Sou mulher, muito mulher, com M maiúsculo... (GINGANDO) E se folgar muito te passo na gilete e ainda te afogo nessa água imunda...

DITÃO- (VAI PARA CIMA DE JANETE) Putana!... Vagabunda!... Mecatrófica!...

JANETE- (GRITANDO HISTERICAMENTE) Ai! Ui! Ui! Ai! Ai! Ui! Ui! Ai! Não me bate! Ui! Ai! Ai! Ui! ( DITÃO A SEGURA PELO PESCOÇO) Aiiii! Bate! Bate com força! Muita força... Aiiii. Me acaba. (DESMAIA).

DITÃO- Peraí! Tô reconhecendo tua fachada!

JANETE- (RECUPERANDO) Ui! Deus me livre! Não sou tua mãe! (DESMAIA)

DITÃO- Tu não morou no Tucuruvi?

JANETE- Não!... Não!... E não!!! Nem nunca vi o teu!

DITÃO- É o filho da Dona Maria e do seu José!

JANETE- Eu hein! Esse é outro! Tá lá no céu... Cruz credo. (BENZE-SE).

DITÃO- O irmão do João Gaúcho!

JANETE- Deus me livre! Não tenho nenhum irmão de Pelotas.

DITÃO- Tu tinha uma irmã bem gostosa?

JANETE- Que é isso, sou a única filha dos meus pais.

DITÃO- Vacilou malandragem! É tu mesmo!... (COMEÇA A RIR E NÃO CONSEGUE PARAR) Num acredito... É o Luiz Garanhão... (RI MAIS) Cara que cacetada...

JANETE- Me solta!... Me larga!... Me excomunga!... Me queima na fogueira com Joana D’arc.

DITÃO- É o meu chapa Luiz Alberto, o terror das gatinhas e das galinhas!... Efeminou-se (RI).

JANETE- Endoidou a sapata. Tá variando, tá!

DITÃO- Tu era meu ídolo. Conheço tuas histórias... Foi o maior descabaçador do pedaço. As menininhas comiam na tua mão.

JANETE- Nem imagino quem é esse tal! Tens nada a ver comigo.

DITÃO- Tu era um bicho no futsal, agora virou uma bicha de saia.

JANETE- Deus! Do futsal, só gosto daqueles pernão peludão, das bolas e da trave que vem dentro do calção.

DITÃO- Tu foi o campeão da flexão de toalha molhada. Botava a toalha na ponta do bimbo e mandava ver... Eu sonhava fazer isso um dia...

JANETE- Deus me livre! Não sou tão poderosa assim...

DITÃO- Tu chegou a fazer trinta, não foi?

JANETE- Trinta , o cacete! (ORGULHOSO) Fiz quarenta e três. (SENTINDO QUE SE ENTREGOU).

DITÃO- (RINDO AINDA MAIS) Num falei! É tu mesmo! É o Luizinho Papa Anjo. (RI).

JANETE- Paaaaara!

DITÃO- Luiz Pauzão!

JANETE- Cheeeega!

DITÃO- Luiz Pintudão!

JANETE- Aaaagora baaaaasta, Maria Adelaide!

DITÃO- Pô! A memória da quenga tá voltando.

JANETE- Aqui nunca falha nada, viu meu bem!.

DITÃO- Quando o pessoal descobrir!

JANETE- Deus!!! Nem pense nisso! Sou capaz de fazer uma loucura! Aquele pessoal vai .. Eles sabem de você?

DITÃO- Num tô nem aí... tô pouco me lixando.

JANETE- Se contar de mim, conto de você.

DITÃO- Não tenho medo de nada e nem de ninguém... mas pro bem de todos vamos esquecer esta história, que tá de bom tamanho...

SILÊNCIO.

JANETE- Naquela época tinha a mulher que eu queria.

DITÃO- Eu até gostava de homem...

JANETE- Eu traçava todas...

DITÃO- Foi nessa época que surgiu meu interesse por mulheres. Os homens eram todos fáceis, muito tolos... Mulher é muito mais interessante! Muito mais misteriosas.

JANETE- Maria Adelaide!

DITÃO- Fui, num passado muito longe... o que tinha daquela, já morreu faz tempo... Meu nome é Ditão... Agora sou homem!

JANETE- (OLHANDO-O DE CIMA A BAIXO) E eu mulher! Mulheríssima!

DITÃO- Mulher mesmo? Operada?

JANETE- Não bobão... mas ainda realizo esse sonho. Tô juntando dinheiro... tenho até anúncio no jornal. (TIRA DA BOLSA E LÊ) Janete. Bonecativa bem dotada e avantajada, toda durinha, sereia iniciante, um delírio da natureza, loirinha travessa, alto nível, sigilosa, corpo escultural de 20 aninhos, carinhosa, também inteligente, fina, educada, fogozinha, oral total sensacional. Caia de joelhos para o prazer. Vire-me do avesso. Prazer completo. Liga pra mim, o telefone é 223-72...

DITÃO- Pô, vai anunciar o disk-gay em cena!

JANETE- Meu filho, não perco uma oportunidade. Propaganda é a alma do negócio. Além do que, no meio desses bofes que tão aqui, já vi uns dez enrustidos interessadíssimos e pelo menos uns vinte e cinco bem curiosos em saber como é...

DITÃO- Vamos continuar a peça?

JANETE- Ai... Ai... Só mais uma coisa, aceito pré datado e cartão de crédito... Onde paramos? Ah! Um dia ainda opero e mando tirar as sobras.

DITÃO- O que vai fazer com o que sobrar?

JANETE- Sei lá! Vou jogar pros cães... não serve pra nada mesmo.

DITÃO- Não faz isso! Quero tanto, um de verdade... deve ter um jeito de aproveitar.

JANETE- Você tá querendo o meu... membro? O meu falo em você?

DITÃO- Aí vou ter um carne, nervos e sangue... é tudo que eu quero... ainda mais sendo do Luiz Três Pernas!... Uso esses de borracha (TIRA UM DA BOLSA). Mas não é a mesma coisa...

JANETE- Aiiiii! Que esquisitão... mas é consistente.

DITÃO- Mata a minha curiosidade... você é bem servido mesmo?

JANETE- Não é dos menores, mas não é tão grande como divulgavam.

DITÃO- Quanto?

JANETE- (SEM ENTENDER) O quê?

DITÃO- Quanto mede o bruto?

JANETE- Quem é bruto? Ai credo!

DITÃO- Seu... bastão?

JANETE- Ah! Mede... (OLHA PARA UM HOMEM DO PÚBLICO) Quer saber, bem?... Depois te conto no seu ouvidinho! (FALA NO OUVIDO DE DITÃO).

DITÃO- Caceta!

JANETE- Mole, viu...

DITÃO- (EMBASBACADO) Tem gente que fala que tamanho não faz diferença.

JANETE- Chiii...É tudo balela... Se bem que já pensei assim, até o dia deitei, rolei e até engasguei com um play ground de 26,5 de comprimento e 8 de diâmetro ..., medidinho na fita métrica! Foi pura diversão. Meu Deus... E não era daqueles molengão não, era firme o tempo todo. A primeira reação foi de susto, a segunda de terror e a terceira é que fiquei descadeirada... andei três dias como gueixa. Só de lembrar fico toda Arrepiada...

DITÃO- Pode crê! Minha grande vantagem é essa!

JANETE- Qual?

DITÃO- Pô! Posso ter do tamanho que quiser, de acordo com o gosto da freguesa. Tinha uma que saia comigo só se eu levasse o 38 ...

JANETE- Ui! Um revólver?

DITÃO- Não bicha burra! Um palombo de borracha de 38 centímetros.

JANETE- Ui! (MEDINDO NA MÃO) Tem desse tamanho?! E cabe tudo?

DITÃO- Com jeitinho entra!... Meu sonho é ter um de verdade... bem do tamanho do seu.

JANETE- Que mundo injusto, meu Deus! Por que as coisas não nascem no lugar certo? Ia simplificar tanta coisa.... mas também ia perder a graça.

DITÃO- Fazem implante de córnea, de fígado, de coração... tem que ter jeito pra implantar um dramanho!

JANETE- Se tiver jeito, quebro teu galho... Em contrapartida você me dá os seus ovários.

DITÃO- Dou com o maior prazer! Ovário, útero, trompas e de brinde até as tetas... dou tudo!

JANETE- Meu maior desejo é ter uma periquita no lugar dessa trolha, não importa o sacrifício!

DITÃO- Eu também quero uma lança, no lugar dessa xureba.

OLHAM-SE PENETRADAMENTE. TROVÃO FORTE.

DITÃO- Você por acaso sabe o que é ser uma mulher?

JANETE- Claro bem! Sou uma delas!

DITÃO- Mas você é uma mulher diferente. É uma mulher que foi homem, ou pelo menos tem alguma coisa de homem.

JANETE- Infelizmente tenho, oh céus!

DITÃO- Não é a mesma coisa... (INTERESSADO). Você é uma mulher diferente.

JANETE- Para com isso. (FICA SINCERAMENTE ENVERGONHADA).

DITÃO- Tô falando sério.

JANETE- Você por acaso sabe o que é ser um homem?

DITÃO- Claro que sei, pô! Sou um deles!

JANETE- (INTERESSADA). Mas você é um homem diferente. É um homem que foi mulher ou pelo menos tem alguma coisa de mulher.

DITÃO- É infelizmente tenho. (OLHA PARA JANETE, QUE CORRESPONDE AO OLHAR). Tenho que te dizer uma coisa.

JANETE- Eu também...

OS DOIS- Você tá...

JANETE- Pode falar...

DITÃO- Você... as damas primeiro.

JANETE- Obrigada querido... mas então é você.

DITÃO- (BRAVO). Dama não... pô!

JANETE- Tô brincando, coisa fofa!...

OS DOIS- Você tá pensando o mesmo que eu?

OS DOIS- O que você tá pensando?

OS DOIS- Em nós dois...

JANETE- É loucura!... Deve ser a chuva!.

DITÃO- Cada coisa!... Nunca vi inundação igual a esta.(RI SEM GRAÇA).

JANETE- Gosto de você!

DITÃO- Também gosto de você! (SEGURA AS MÃOS)

JANETE- Você é o homem e a mulher que eu tava procurando.

DITÃO- Você é a mulher e o homem da minha vida...

JANETE- Com você, vou realizar todos os meus sonhos.

DITÃO- Vamos ser o casal mais completo do mundo.

JANETE- Nunca pensei numa coisa dessas, Meu Deus!.

DITÃO- Nem eu...

JANETE- Que coisa inimaginável, inacreditável e inenarrável! Vai dar pra gente fazer de tudo.

DITÃO- Que sensação estranha... estou me sentindo uma mulher...

JANETE- Endoidamos os dois, tô me sentindo um homem... tô até excitado.

TROVÃO MAIS FORTE. DITÃO PULA NO COLO DE JANETE. SILÊNCIO!

DITÃO- (CORTANDO) Pera um pouco, como é que a gente vai fazer?

JANETE- Não tô entendendo?

DITÃO- Quer dizer...

JANETE- O que, meu bem?

DITÃO- Não chama de bem... que eu não gosto.

JANETE- Do que vou chamar então?

DITÃO- Chama de ... meu homem.

JANETE- Tô sentindo um troço estranho... até traço outros bofes, mas nunca senti vontade e nem gosto, faço pra ganhar um extra, mas por você, eu tô doidinha ... tesuda!

DITÃO- Você chegou onde eu queria...

JANETE- Aii que bom, você tá doidinha pra me... dar?

DITÃO- Não... É que... pelo contrário... Não gosto dessas coisas assim... Eu... sou homem!

JANETE- Para com isso. Você não quer (FAZ GESTO) abrir tua flor para mim?

DITÃO- Isso! Que dizer... Não é bem isso...

JANETE- Você quer ter um filho!

DITÃO- Quero!

JANETE- Então vai ser do espírito santo.

DITÃO- Mais ou menos...

JANETE- Não acredito... vai querer fazer inseminação artificial?

DITÃO- Pô! Se tem umazinhas aí que podem, porque eu não posso?

JANETE- E o meu desejo?

DITÃO- Mato teu desejo... Tenho do tamanho que você quiser...

JANETE- Não o desejo da retaguarda, mas sim o da vanguarda.

DITÃO- Olha é que... bem... eu...

JANETE- Então?

DITÃO- Me entende... é que...

JANETE- Que o quê?

DITÃO- Tenho medo...

JANETE- Medo do quê?

DITÃO- É que...

JANETE- Quê?

DITÃO- Quê...

JANETE- Fala logo porra!

DITÃO- ...Sou virgem!

JANETE- (RI) Uau! Melhor ainda ... (PULA DE ALEGRIA)

DITÃO- Não vou dar assim, sem mais nem menos... Nunca deixei nada entrar em de mim...(CHORA). Em lugar nenhum... Só de pensar. (CHORA).

JANETE- Olha a gente não é mais criança.

DITÃO- Não vai dar certo... não tenho coragem... Tenho nojo de um troço desses, assim de verdade. Não aguentaria.

JANETE- Maria Adelaide!

DITÃO- Não me chama desse nome.

JANETE- De Ditão?!

DITÃO- Isso Janete!

OLHAM-SE.

OS DOIS- Você foi minha paixão da juventude!

OS DOIS- Jura!

OS DOIS- Juro! (RIEM)

JANETE- Acho que foi por isso que tive a recaída.

DITÃO- Eu também.

JANETE- A gente já tem a nossa vida.

DITÃO- Não ia dar certo.

GRANDE SILÊNCIO (SEM GRAÇA, MUDAM DE ASSUNTO).

JANETE- Isso que dá esses buracos todos tapados... Inunda tudo...

DITÃO- Se tivesse jeito, eu mesmo saía por aí limpando tudo que é buraco.

JANETE- Só que a gente tem que limpar os da gente primeiro.

SILÊNCIO

DITÃO- É!... Não ia dar certo mesmo.

JANETE- É melhor continuar do jeito que tá.

DITÃO- O que você ia querer?

JANETE- Como?

DITÃO- Menino ou menina?

JANETE- Menina é claro.

DITÃO- Eu ia querer um meninão.

OS DOIS- Ia ser complicado...

ABRAÇAM-SE.

LUZ APAGA.

Fim

concluído em 28/07/96

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