
Um texto fundamental para aqueles que escrevem ou querem escrever.
POÉTICA (parte 3) de Aristóteles XX A elocução. Partes da elocução. 116. Quanto à elocução, as seguintes são as
suas partes: letra, sílaba, Conjunção, nome,
verbo, (artigo), flexão e proposição. 117. A letra é um som indivisível, não porém
qualquer som, mas apenas o qual possa gerar um
som composto; porque também os animais emitem sons indivisíveis e, contudo, a esses não
os denomino letras. 118. As letras dividem-se em vogais, semivogais e
mudas. Vogal é a letra de som audível sem encontro (dos lábios ou da lingual);
semivogal, a que tem um som produzido por esse encontro, como o E e o P ; a muda, como o f
ou o , é a letra que necessita da língua ou dos lábios, mas que só vem a ser audível
quando unida a uma vogal ou a uma semivogal. Depois, diferem as letras de cada um destes
grupos pela conformação da boca na pronúncia, pelo lugar da boca em que se produz o
som, e ainda conforme são ásperas ou brandas, longas ou breves, agudas, graves ou
intermediárias, mas estas particularidades são da competência da métrica. 119. Sílaba é o som desprovido de
significado próprio, constituído por muda e soante; efetivamente, as duas letras R/P
produzem uma sílaba, sem A, seja com A, como na sílaba RPZ. Mas também estas
distinções pertencem à métrica. 120. Conjunção é palavra destituída de
significado próprio, mas que não obsta nem contribui para que vários sons
significativos componham uma única expressão significativa, e que se destina por
natureza, a estar nos extremos ou no meio, nunca, porém, no princípio de uma
proposição, por exemplo: µév7jíoabéou é um som desprovido de significado, cuja
função é a de reproduzir um único som significativo, como pé, nepl e semelhantes; ou
é um som não significativo que indica o início, o término ou a divisão no interior de
uma proposição. 121. Nome é um som significativo, composto, sem
determinação de tempo, que não tem nenhuma parte, seja significado "branco"
não exprimem o tempo, mas os verbos "anda", "andou" exprimem-no, o
primeiro, o tempo presente, o segundo,o passado. 123. A flexão tanto pertence ao nome como ao
verso, e indica as relações de casos, como "deste", "a este", ou
outras relações que tais; ou o singular e o plural, como "homens" e
"homem"; ou os modos de expressão de quem fala, como a interrogação, o
comando; efetivamente, "foi?", "vai!" São flexões do verbo segundo
estas últimas espécies. 124. A proposição é som composto e
significativo, do qual algumas partes são de por si significantes (porque nem todas as
proposições se compõem de nomes e de verbos, mas pode haver também uma proposição
sem verbo, como, por exemplo, a definição de homem; no entanto, deve conter sempre uma
parte significativa). Exemplo de parte significante é o nome "Cléon" na
proposição "Cléon anda". Uma proposição pode ser una de duas maneiras; ou
porque indica uma só coisa, ou pelo liame que reúne muitas coisas, adunando-as. E assim,
a Ilíada é una pelo nexo que reúne as diversas partes; e a definição de homem, porque
se refere a um só objeto. XXI A elocução
poética. 125. Há duas espécies de nomes: simples e
duplos. "Simples", denomino os que não são constituídos de partes
significativas, como a palavra (terra); todos os outros são duplos. Estes, depois, ou
são compostos de uma parte não significativa e de uma parte significativa; ou de partes
ambas significativas (note-se porém, que o ser ou não ser significativo não pertence
às partes, consideradas dentro do nome). E também há nomes triplos, quádruplos,
múltiplos, como alguns usados entre os massaliotas: Hermocaïcoxantos. 126. Cada nome, depois, ou é corrente, ou
estrangeiro, ou metáfora, ou ornato, ou inventado, ou alongado, abreviado ou alterado. 127. Nome "corrente", chamo àquele de
que ordinariamente se serve cada um de nós; "estrangeiro", aquele de que se
servem os outros, e por isso é claro que o
mesmo nome pode ser ao mesmo tempo estrangeiro e corrente,
mas, como é natural, não para as mesmas pessoas; assim signon para os cipriotas é
de uso corrente, e para nós, estrangeiro. 128. A metáfora consiste no transportar para uma
coisa o nome de outra, ou do gênero para a espécie, ou da espécie para o gênero, ou da
espécie de uma para a espécie de outra, ou por analogia. 129. Transporte do gênero para a espécie é o
que se dá, por exemplo, na proposição "Aqui minha nave se deteve", pois o
"estar ancorado" é uma espécie do gênero "deter-se". Transporte da
espécie para o gênero, na proposição "Na verdade, milhares e milhares de
gloriosos feitos, Ulisses levou a cabo", porque "milhares e milhares" está
por "muitos", e o poeta se serve destes termos específicos, em lugar do
genérico "muitos". "Tendo-lhe esgotado a vida com seu bronze" e
"cortando com o duro bronze" são exemplos de transporte de espécie para
espécie. No primeiro, o poeta usou, em lugar de "cortar", "esgotar",
e no segundo,
em lugar de "esgotar", "cortar"; mas ambas as palavras especificam o
"tirar a vida". 130. Digo que há analogia quando o segundo termo
está para o primeiro na igual relação em que está o quarto para o terceiro, porque,
neste caso, o quarto termo poderá substituir o segundo, e o segundo, o quarto. E algumas
vezes os poetas ajuntam o termo ao qual se refere a palavra substituída pela metáfora.
Por exemplo, a "urna" está para "Dionisio", como o "escudo"
para "Ares", e assim se dirá a urna "escudo de Dionisio", e o escudo
"urna de Ares". Também se dá a mesma relação, por um lado. entre a velhice e
a vida e, por outro lado, entre a tarde e o dia; por isso a tarde será denominada
"velhice do dia", ou, como Empédocles, dir-se-á a velhice "tarde da
vida" ou "ocaso da vida". Por
vezes falta algum dos quatro nomes na relação analógica, mas ainda assim se fará a
metáfora. Por exemplo, "lançar a semente" diz-se "semear"; mas não
há palavra que designe "lançar a luz do sol", todavia esta ação tem a mesma
relação com o sol que o semear com a semente; por isso se dirá "semeando uma chama
criada pelos deuses. Além desse modo de empregar a metáfora, existe outro, quando,
após usar o termo alheio, se negar algo que lhe é próprio, como se ao escudo se
chamasse urna, não de Ares, mas sem vinho. 132. "Inventado" é o nome que ninguém
usa, mas que o próprio poeta forjou; ao que parece, há algumas palavras deste gênero,
como galhos em vez de cornos, e oficiante, por "sacerdote". 133. Há, depois, os nomes alongados ou
abreviados. No primeiro caso, o nome tem uma vogal mais longa do que a própria, ou uma
sílaba a mais; no segundo, é omitida uma parte da palavra. Alongada, por exemplo, é polhoV,
em vez de polewV,
e Phlhiadew,
em vez de Phleidon
ou, nome abreviado e, por exemplo cri
e dv e mia
ginetai
amjoterwn
oy. 134.
Alterado é o vocábulo do qual uma parte é mantida e outra transformada, como dexiteron
kata
maxón
por dexión. 135. Considerados em si mesmos, os nomes ou são
masculinos, ou femininos, ou de gênero intermédio. Masculinos são os que terminam em N,
R e S, ou em letra composta de é (duas são as letras desce tipo: psi e csi) é
femininos, os que terminam em vogais sempre longa, com eta e omêga ou em vogal alfa
alongada; e assim, a soma das terminações masculinas e femininas vem a ser igual, porque
as terminações em S reduzem-se a uma só (com é ). XXII 136. A excelência da linguagem consiste em ser
clara, sem ser chã. A mais clara é a regida em termos correntes, mas é chã; por
exemplo, as composições de Cleofonte e Estênelo. .
Pelo contrário, e elevada a poesia que usa de vocábulos peregrinos e se afasta da
linguagem vulgar. Por vocábulos "peregrinos" entendo as palavras estrangeiras,
metafóricas, alongadas e, em geral, todas as que não sejam de uso corrente. 137. Mas a linguagem composta apenas de palavras
deste gênero será enigma ou barbarismo; enigmático se o for scí de metáforas,
bárbara, se exclusivamente de vocábulos estrangeiros. Porque tal é a característica do
enigma: elegendo absurdos, dizer coisas acertadas, o que se obtém, não quando se juntam
nomes com o significado corrente, mas, sim, mediante as metáforas, como no verso vi
um homem colando com fogo bronze noutro homem e em outros semelhantes. E
"bárbara" é a linguagem composta de nomes estrangeiros. 138. Necessária será, portanto, como que a
mistura de toda espécie de vocábulos. Palavras estrangeiras, metáforas, ornatos e todos
os outros nomes de que falamos elevam a linguagem acima do vulgar e do uso comum, enquanto
os termos correntes lhe conferem a clareza. 139. Alongamentos e abreviamentos, alterações
dos nomes contribuem em grande parte para a clareza e elevação do discurso; afastados da
forma corrente e do uso vulgar, fazem esses nomes que a linguagem não seja banal,
enquanto, pela parte que mantém do uso vulgar, subsistirá a clareza. 140. Por conseguinte não tem razão Euclides, o
antigo, quando parodiou tais versos, em linguagem vulgar: Epicarhn
eidon
Maraqvnade
badixonta omc
an
geramenoz
ton
eceinom
elleboron 141. É certo que, pelo demasiado evidente destes
modos, se incorre no ridículo, e, por outro lado, a moderação também é necessária
nas outras partes do discurso; pois metáforas, estrangeirismos e outras espécies de
nomes, impropriamente usados, produziriam o mesmo resultado, se de propósito nos
servíssemos deles para provocar o riso. 142. Mas quanto seja diferente o uso moderado
dessas palavras, e o que facilmente se verifica na poesia épica, se inserirmos nos versos
vocábulos correntes. Quanto a palavras estrangeiras, metáforas e outras espécies de
nomes raros, ver-se-á que dizemos a verdade, se as substituirmos por palavras de uso
comum. Por exemplo, Ésquilo e Eurípedes compuseram o mesmo verso jâmbico, mas
Eurípedes mudou um só vocábulo após uma palavra estrangeira no lugar de uma palavra
corrente, e assim fez um verso belo, ao passo que o de Ésquilo é verso medíocre. Com
efeito, no Filoctetes, Ésquilo escrevera. úlcera que come as carnes de meu
pé, Eurípides, em lugar, usou
repastar-se em lugar de comer. E
assim também no verso foi um baixote, ordinário e feio, se dissesse, com os
termos triviais, um pequeno, fraco e feio. Igualmente pondo-lhe um banco
humilde e uma mesa acanhada e pondo-lhe um banco ordinário e uma mesa
pequena. 143. Arífrades, por seu turno, parodiava os
trágicos por usarem eles expressões de que ninguém se serve na linguagem corrente,
escrevendo por exemplo:
owmatwn
apo
em vez de apo
owmatwn
e mais seqen,
egw
de e Acillewz
peri
em vez peri
Acillewz.
Mas o emprego destas locuções, ainda que elas se não encontrem na linguagem vulgar, dá
elevação ao estilo, e isso não viu Arífrades. 144. Grande importância tem, pois, o uso discreto
de cada uma das mencionadas espécies de nomes, de nomes duplos e de palavras
estrangeiras; maior, todavia, e a do emprego das metáforas, porque tal se não aprende
nos demais, e revela portanto o engenho natural do poeta; com efeito, bem saber descobrir
as metáforas significa bem se aperceber das semelhanças. 145. Dos vários nomes, os duplos são os mais
apropriados aos ditirambos, os vocábulos estrangeiros aos versos heróicos, e as
metáforas aos versos jâmbicos. Porém, nos versos heróicos, todas as espécies de
vocábulos são utilizáveis; nos jâmbicos, ao invés. E porque neles se imita a
linguagem corrente, mais convém os nomes que todos adotam na conversação, a saber,
nomes correntes, metáforas e ornatos. 146. Basta o que dissemos, quanto à tragédia é
a imitação que se efetua mediante ações. XXlll A poesia épica e a poesia trágica. As mesmas leis regem a epopéia e a
tragédia. Homero. 147. Quanto à imitação narrativa e em verso, é
claro que o mito deste gênero poético deve ter uma estrutura dramática, como o da
tragédia; deve ser constituído por uma ação inteira e completa, com princípio, meio e
fim, pára que, una e completa qual organismo vivente, venha a produzir o prazer que lhe
é próprio. 148. Também é manifesto que a estrutura da
poesia épica não pode ser igual á das narrativas históricas, as quais tem de expor
não uma ação cênica, mas um tempo cênico, com todos os eventos que sucederam nesses
períodos a uma ou a várias personagens, eventos cada um dos quais está para os outros
em relação meramente casual. Com efeito, a batalha naval de Salamina e a
derrota dos cartagineses na Sicília desenvolveram-se contemporaneamente, sem que estas
ações tendessem para o mesmo resultado; e, por outro lado, às vezes acontece que em
tempos sucessivos um fato venha após outro, sem que de ambos resulte comum efeito. No
entanto, a maioria dos poetas adota este procedimento. 149. Por isso, como já dissemos, também por este
aspecto Homero parece elevar-se maravilhosamente acima de todos os outros poetas: não que
ele poetar toda a guerra de Tróia, sabem que ela tenha princípio e fim (o argumento
teria resultado vasto em demasia e, portanto, não seria compreendido no conjunto; ou
então, se fosse moderadamente extensa, também seria demasiado complexa pela variedade
dos acontecimentos). Eis por que desses acontecimentos apenas tomou uma parte, e de muitos
outros se serviu como episódios; assim, com o "Catálogo das Naves" e tantos
outros que distribuiu pelo poema. 150. Os outros poetas, todavia, compuseram seus
poemas ou acerca de uma pessoa, ou de uma época, ou de uma ação com muitas partes,
como, por exemplo, o autor dos Cantos Cíprios e da Pequena Ilíada. Por isso, enquanto da
Ilíada e da Odisséia não é possível extrair, de cada uma delas, senão uma tragédia,
ou duas, quando muito, dos Cantos Cíprios, ao invés, muitas se podem tirar, e da Pequena
Ilíada, mais de oito: Juízo das Armas, Filoctetes, Neoptólemo, Euripilo, Ulisses
Mendigo, Lacedemônias, Ruína de Tróia, Partida das Naves, Simon e Troianas. XXIV Diferença entre a epopéia e a tragédia quanto a episódios e extensão. 151. As mesmas espécies que a tragédia deve
apresentar a epopéia, a qual, portanto, será simples ou complexa, ou de caracteres, ou
catastrófica; e as mesmas devem ser as suas partes, exceto melopéia e espetáculo
cênico. Efetivamente, na poesia épica também são necessários os reconhecimentos, as
peripécias e as catástrofes, assim como a beleza de pensamento e de elocução, coisas
estas de que Homero se serviu de modo conveniente. De tal maneira são constituídos os
seus poemas, que a Ilíada é simples (episódica) e catastrófica, e a Odisséia,
complexa (toda ela é reconhecimentos) e de caracteres; além de que, em pensamento e
elocução, superam todos os demais poemas. 152. Mas diferem a epopéia e a tragédia pela
extensão e pela métrica. 153. Quanto à extensão,,justo limite é o que
indicamos, a apreensibilidade do conjunto, de princípio e do fim da composição. Mas,
para não exceder tal limite, deveria a estrutura dos poemas ser menos vasta do que a das
antigas epopéias, e assumir a extensão que todas juntas têm as tragédias representadas
num só espetáculo. Para aumentar a extensão, possui a epopéia uma importante
particularidade. Na tragédia não é possível representar muitas partes da ação, que
se desenvolvem no mesmo tempo, mas tão somente aquela que na cena se desenrola entre os
atores; mas na epopéia, porque narrativa, muitas ações contemporâneas podem ser
apresentadas, ações que, sendo conexas com a principal, virão acrescer a majestade da
poesia. A vantagem do poema épico, que o engrandece e permite variar o interesse do
ouvinte, enriquecendo a matéria com episódios diversos; porque, do semelhante, que
depressa sacia, vem o fracasso de tantas tragédias. 154. Quanto à métrica, prova a experiência que
é o verso heróico o único adequado à epopéia; efetivamente, se alguém pretendesse
compor uma imitação narrativa, quer em metro diferente do heróico, quer servindo-se de
metros vários, logo se aperceberia da inconveniência da empresa. Na verdade, o verso
heróico é o mais grave e o mais amplo, e, portanto, melhor que qualquer outro se presta
a acolher vocábulos raros e metafóricos (também por este aspecto a imitação narrativa
supera as outras). Pelo contrário, uma coisa resulta o produzir-se outra, são o
trímetro jâmbico e o tetrâmetro, este primeiro convém à dança, e o segundo à ação. No,
entanto, se há um antecedente falso é o de misturar versos, como o fez Querémon, que o
antecedente seja que ninguém se serviu nunca de verso verdadeiro, nós reunimo-los;
porque o que não fosse o heróico para compor saber que o segundo é verdadeiro leva um
poema extenso. Como dissemos a nossa mente à arbitrária conclusão de que verdadeiro se
a também o ri própria natureza nos ensinou a escolher. 150.
Homero, entre outros motivos é digno de louvor, também o é porque, entre os demais, só
ele não ignora qual seja propriamente o mister do poeta. Porque o poeta deveria falar o
menos possível por conta própria, pois, assim procedendo, não é imitador. Os outros
poetas. pelo contrário, intervêm em pessoa na declamação, e pouco e poucas vezes
imitam. Ao passo que Homero, após breve intróito, subitamente apresenta varão ou
mulher, ou outra personagem caracterizada - nenhuma sem caráter, todas as que o tem. Só
o maravilhoso tem lugar na tragédia; mas na epopéia, porque ante nossos olhos não agem
atores, chega a ser admissível o irracional, de que muito especialmente deriva o
maravilhoso. Em cena ridícula resultaria a perseguição de Heitor: os guerreiros que se
detêm e o não perseguem, e [Aquiles] que lhes faz sinal para que assim se quedem. Mas,
na epopéia, tudo passa despercebido. Grato, porém, é o maravilhoso; prova é que
todos, quando narram alguma coisa;
amplificam a narrativa para que mais interesse aos outros poetas também Homero ensinou o
modo de dizer o que é falso - refiro-me ao paralogismo que os homens crêem ver, quando existir
ou produzir-se com o fito de agradar. 158. De preferir às coisas possíveis nas incríveis são as impossíveis mas críveis;
contudo, não deveriam os argumentos poéticos ser constituídos de partes irracionais;
preferível seria que nada houvesse de irracional, ou, pelo menos, que o irracional apenas
tivesse lugar fora da representação, como, por exemplo, a ignorância de Édipo quanto
à morte de Laio; e não dentro do próprio drama, como a descrição dos Jogos Píticos,
na Electra, ou a personagem que nos Misios, vinda de Tróia para a Mísia, não diz
palavra. Ridículo é pois claro que sem o irracional não subsistiria o mito; em primeiro
lugar, nem tais mitos se deveriam compor; mas, se um poeta os fizer de modo que pareçam
razoáveis, esses ainda serão admissíveis, ainda que absurdos. Na verdade, tudo quanto
de irracional acontece no desembarque de Ulisses inaceitável seria em obra de mau poeta;
os absurdos, porém, Homero os ocultou sob primores de beleza· 159. Importa, por conseguinte, aplicar os maiores
esforços no embelezamento da linguagem, mas só nas partes desprovidas de ação, de
caracteres e de pensamento: uma elocução deslumbrante ofuscaria caracteres e pensa
mento. Problemas
críticos. 160. Assunto esclarecido será o dos problemas e
soluções, de quantas e quais as suas formas, se o encararmos do modo seguinte. 161. O poeta é imitador, como o pintor ou
qualquer outro imaginário; por isso, sua imitação incidirá num destes três objetos:
coisas quais eram ou quais são, quais os outros dizem que são ou quais parecem, ou quais
deveriam ser. Tais coisas, porém, ele as representa mediante uma elocução que
compreende palavras estrangeiras e metáforas, e que, além disso, comporta múltiplas
alterações, que efetivamente consentimos ao poeta. 162. Acresce ainda que não é igual o critério
de correção na poética e na política, e, semelhantemente, o de qualquer outra arte, em
confronto com a poesia. Na arte poética, erros de duas espécies se podem dar: essenciais
ou acidentais. Portanto, se propostos tais objetos, a imitação resulta deficiente por
incapacidade do poeta, o erro e intrínseco á própria poesia; se, pelo contrário, o
defeito consiste apenas em não haver concebido corretamente o objeto da imitação - como
querendo imitar um cavalo que movesse a um tempo as duas patas do lado direito- o erro
não é intrínseco à poesia, como o não e qualquer que se cometa relativamente a uma
arte particular (medicina ou outra), ou quando se representam coisas impossíveis. 163. Importa, por conseguinte, resolver as
críticas que os problemas contém, considerando-as dos pontos de vista precedentes. 164. Primeiro, vejamos as críticas respeitantes
à própria arte. O poeta representar impossíveis é um erro desculpável, contudo, se
atingiu a finalidade própria da poesia (da qualidade já falamos), e se, de tal maneira,
resultou mais impressionante essa parte do poema, ou outra qualquer. Exemplo: a
perseguição de Heitor. Mas, caso possa atingir mais ou menos a mesma finalidade,
respeitando as regras da arte, o erro é injustificável, porque, sendo possível, não
deveria haver erro nenhum. 165. Mas então vejamos: será o erro cometido
daqueles que ofendem a essência da arte, ou não será antes um erro acidental á poesia?
Pois falta menor comete o poeta que ignore que a corça não tem cornos, que o poeta que a
represente de modo não artístico. 166. Além disso, quando no poeta se repreende uma
falta contra a verdade, há talvez que responder como Sófocles: que representava ele os
homens tais como devem ser, e Eurípides, tais como são. E depois caberia ainda
responder: os poetas representam a opinião
comum, como nas histórias que contam acerca dos deuses: essas histórias talvez não
sejam verdadeiras, nem melhores; talvez as coisas sejam como pareciam a Xenófanes; no
entanto,assim as contam os homens. 167. Outros casos há que os poetas referem não
como sendo o melhor, mas como o que fora outrora; assim, quando se diz das armas: "as
lanças erguidas sobre os contos; então, vigorava o uso que os ilírios mantém
ainda. 168. Para reconhecer se bem ou mal falou ou agiu
uma personagem, importa que a palavra ou o ato não sejam exclusivamente considerados na
sua elevação ou baixeza; e preciso também observar o indivíduo que agiu ou falou, e a
quem, quando, como e para que, se para obter maior bem ou para evitar mal maior. 169. Outras dificuldades se resolvem, bem
considerada a elocução. Assim, a daquela
passagem: "os machos (ovpãas) primeiro, porque não queria o poeta falar de
"machos" mas de "sentinelas"; e assim, de Dólon, dizendo o poeta:
"mau ele era de aspecto'; não entende, por isso, que disforme era o corpo dele, mas
apenas "feio de rosto"; efetivamente, dizem os de Creta "belo de
aspecto" por "rosto belo". E, "mistura mais forte': deve ser entendido
não com "servir mais puro", como se de beberrões se tratasse, mas de
"servir mais depressa". 170. Outras palavras se dizem metaforicamente. Por
exemplo: "Todos, deuses e homens, dormiam ainda, pela noite alta ", diz o poeta,
e logo a seguir: "quando
lançava os olhos sobre a planície de Tróia (admirava o tumultuoso som das flautas e das
siringes': é que "todos" está por "muitos" metaforicamente, porque "todos" e uma
espécie de "muitos". Também "só ela [está] excluída [de banhar-se no
Oceano]" há de entender-se como metáfora: "só" está por "o mais conhecido". 171. Com a prosódia resolvem-se outras
dificuldades; assim explicava Hípias de Taso aquele
"glória nós lhe daremos" e 'parte do qual apodrece com a chuva': 172. Outras por diérese, como os versos de
Empédocles: ' Mas depressa se tornaram mortais [as coisas
antes imortais, e misturadas, as que antes eram [simples] 173. E outras por anfibolia: "a maior parte
da noite passou'; em que "maior parte" tem duplo sentido. 174. Enfim, outras se explicam por usos da
linguagem. e mistura de água e vinho chamam "vinho", e assim, disse Homero:
"cnemide de récem-elaborado estatuto'; e porque se dá o nome de "elaboradores
de estanho" aos que trabalham o ferro, assim ele disse também de Ganimedes:
"que a Zeus seria vinho. . . ': se bem que os deuses não bebam vinho. Mas isto
também se poderia explicar por uso metafórico. 175. Se o (nome) contém uma significação
contraditória, e mister procurar quantos significados ele pode assumir na frase em
questão. Por exemplo, em aqui se deteve a brônzea lança; importa verificar de quantas
maneiras pode ser entendido o "ali haver parado". A consideração das várias
possibilidades (significativas) e procedimento oposto aquele de que fala Glauco. Alguns
críticos partem de prevenida e absurda opinião, depois raciocinam concluindo pela
censura, como se o poeta tivesse pensado algo de contraditório ao pressuposto deles, e o
que se verifica a propósito de Icário: supondo-se que ele fosse lacedemônio, logo se
concluiu que era absurdo Telêmaco não o haver encontrado quando chegou a Esparta.
Talvez, porém, o caso se passasse como referem os cefalênios: que, tendo Ulisses
contraído núpcias na terra deles, o nome do herói seja Icádio, e não Icário. É pois
verossímil que o problema nasça de um erro. 176. Em suma, o absurdo deve ser considerado, ou
em relação á poesia, ou ao melhor, ou à opinião comum. 177. Com efeito, na poesia e de preferir o
impossível que persuade ao possível que não persuade. Talvez seja impossível existirem
homens quais Zeus os pintou; esses porém correspondem ao melhor e o paradigma deve ser
superado. E depois, a opinião comum também justifica o irracional, além de que às
vezes irracional parece o que o não e, pois verossimilmente acontecem coisas que
inverossímeis parecem. Expressões aparentemente contraditórias, importa examiná-las
como nas refutações dialéticas; verificar se do mesmo se trata, na mesma relação e,
no mesmo sentido; e analogamente, se o poeta cai em contradição com o que ele próprio
diz, ou com o que, sobre o que ele diz, pensa uma mente sã. 178. Censuras por absurdo ou malvadez só são
justas quando o poeta, sem necessidade, usa do irracional, como Eurípides na
intervenção de Egeu, ou de maldade, como Menelau, no Orestes. 179. As críticas resumem-se, pois, a cinco
espécies: ou porque [as representações] são impossíveis, ou irracionais, ou imorais,
ou contraditórias, ou contrárias ás regras da arte. As soluções devem reduzir-se aos
argumentos indicados, e são doze. XXVI A epopéia e a tragédia. A tragédia supera a epopéia 180. E agora poder-se-ia perguntar qual seja
superior, se a imitação épica ou a imitação trágica. 181. Se é melhor a menos vulgar, e tal e a arte
que a melhores espectadores se dirige, decerto que vulgar é aquela que tudo imita.
Efetivamente, pela rudeza de um público que, sem mais, não entenderia a representação,
entregam-se os atores a toda casta de movimentos, como o fazem os maus flautistas, que
rodopiam, querendo imitar o lançamento do disco, ou arrastam o corifeu, quando
representam a Cila. A tragédia teria pois o defeito que os antigos atores atribuem aos da
sucessiva geração defeito pelo qual Minisco apelidava Calípides de
"macaco", devido á sua exagerada gesticulação; e o mesmo se dizia de
Píndaro. Como estes atores vulgares estão para os primeiros, assim toda a arte
dramática [estaria], para a epopéia. Dizem que a epopéia se dirige a um público
elevado, porque não exige a exterioridade dos gestos, e a tragédia, aos rudes, e que,
sendo vulgar, decerto que e inferior. 182. Em primeiro lugar, digamos que tal censura
não atinge a arte do poeta, mas sim a do ator, visto que também é possível exagerar a
gesticulação recitando rapsódias, como Sosístrato, ou cantando [poemas líricos], como
Mnasíteo de Opunte. E depois, que nem toda espécie de gesticulação e de reprovar, se
não reprovamos a dança, mas tão-somente a dos maus atores - que tal se repreendia em
Calípides, e agora nos que parecem imitar os meneios de mulheres ordinárias. Acresce
ainda que a tragédia pode atingir a sua finalidade, como a epopéia, sem recorrer a
movimentos, pois uma tragédia, só pela leitura, pode revelar todas as suas qualidades.
Por conseguinte, se noutros aspectos a tragédia supera a epopéia, não e necessário que
este defeito lhe pertença essencialmente. 183. Mas a tragédia é superior porque contém
todos os elementos da epopéia (chega até a servir-se do metro épico), e demais, o que
não e pouco, a melopéia e o espetáculo cênico, que acrescem a intensidade dos prazeres
que lhe são próprios. Possui, ainda, grande evidência
representativa, quer na leitura, quer na cena; e também a vantagem que resulta de,
adentro de mais breves limites,
perfeitamente realizar a imitação (resulta mais grato o condensado que o difuso por
longo tempo; imagine-se, por exemplo, o efeito que produziria o Édipo de Sófocles em
igual número de versos que a Ilíada). Além disso, a imitação dos épicos é menos
unitária (demonstra-o a possibilidade de extrair tragédias de qualquer epopéia), e,
portanto, se pretendessem eles compor uma epopéia com argumento em um çênico mito
trágico, se quisessem ser concisos, mesquinho resultaria o poema, se quisessem
conformar-se às dimensões épicas, resultaria prolixo. Quando falo de poesia épica como
constituída de múltiplas ações, refiro-me a poemas quais a Ilíada e a Odisséia, com
várias partes, extensas todas elas (se bem que estes dois poemas sejam de composição
quase perfeita e, tanto quanto possível, imitações
de uma ação cênica). 184. Por conseqüência, se a tragédia é
superior por todas estas vantagens e porque melhor consegue o efeito específico da arte
(posto que o poeta nenhum deve; tirar da sua arte que não seja o indicado), é claro que
supera a epopéia e, melhor que esta, atinge a sua finalidade. 185. Falamos pois da tragédia e da epopéia, delas mesmas e das suas espécies e partes, número e diferenças dessas partes, das causas pelas quais resulta boa ou má a poesia, das críticas e respectivas soluções. Dos jambos e da comédia. . . |