Prólogo - vão entrando um
paraplégico, em sua cadeira de rodas, sendo empurrado por sua mãe.
MÃE:
Não fica
assim, filhinho. Você vai superar essa fase. Apesar das células de tecidos nervosos não
se regenerarem, tenho certeza de que sua coluna cervical irá transcender a própria
condição humana a que está sujeita. Você não viu naqueles filmes da sessão da tarde?
Não existe um infeliz que não tenha superado as desgraças de um defeito físico. Sabe,
aqueles filmes são todos baseados em fatos verídicos. Aquelas pessoas é que são os
autênticos heróis do nosso cotidiano. Merecem ser aplaudidos de pé.
FILHO:
Está bem, mãe. A senhora
já falou isso mais de mil vezes. Agora me deixa aqui que eu quero ficar sozinho um pouco.
MÃE:
Você
está é maluco. Imagina se eu vou te deixar sozinho. Você pode aproveitar para entrar em
estado de depressão.
FILHO:
Mamãe, eu já estou deprimido.
MÃE:
Sem essa, rapazinho. Não vem querendo bancar
o adolescente revoltado pro meu lado, não. Vai tratando de se coçar que a moleza da
fisioterapia já está chegando ao fim. (coloca um monte de livros diante dele)
FILHO:
Que é isso?
MÃE:
São livros de história da literatura, gramática, Lingüística geral e teoria
semântica. Para ser um bom escritor é
preciso ter uma base sólida.
FILHO:
E quem te disse que eu
quero ser escritor?
MÃE:
Eu disse, ora essa! Desde cedo que eu peço a Deus
para ter um filho famoso. Investi tudo em você, te dei do bom e do melhor e agora você
me apronta uma dessas. Te imaginava um grande cantor, um ator, um bailarino. Qualquer
coisa que valesse a pena. Agora olha só p ara você. Me pega uma moto e faz a maior
cagada da minha vida. As aulas de dança, canto, teatro e expressão
corporal que eu te paguei foram todas por água abaixo. E tudo por causa desta maldita
moto.
FILHO:
Mãe, a senhora tá louca!
MÃE:
Mas,
não. Eu não desisto tão fácil, não. Já que não pode ser um artista bonito e burro;
vai tratando logo de ser um gênio incompreendido que eu já joguei muito dinheiro fora
com você.
O filho fica atônito.
MÃE:
E não me
olha com essa cara de bunda, não. Trata de estudar todas essas teorias poéticas para
logo em seguida fazer alguma coisa que preste. A tua máquina de datilografia chega
amanhã. Eu, desde já, vou começar a fazer alguns contatos com as editoras.
FILHO:
Eu não vou ser um escritor
e a senhora está precisando é de um analista.
MÃE:
Me
respeita! Me respeita! (pausa) E vai ser o que, então?
FILHO:
Não sei. Ainda não parei
pra pensar. Mas pode ter certeza que eu vou ser aquilo que eu quero.
MÃE:
Se você
puder ser aquilo que quer. Não adianta nada um peixe querer voar.
FILHO:
Não precisa me lembrar
essas coisas, eu sou muito perspicaz para perceber isso sozinho.
MÃE:
Olha,
filhinho...
FILHO:
Não me chama de
filhinho!
MÃE:
Não me
leve a mal. Eu estou fazendo isso pelo seu bem. Não é tão difícil assim como você
está pensando. É só escrever sobre aquilo que te aconteceu e sobre seus sonhos,
angústias e limitações. Tenho certeza que vai dar samba. Todo mundo adora um
drama verídico com final feliz.
FILHO:
Mas, que final feliz?
MÃE:
Você
triunfa como escritor e fica famoso. Quer melhor forma de se tornar imortal?
FILHO:
Mas, eu não quero ser
imortal.
MÃE:
Eu sei,
certamente você prefere é morrer. É um egoísta! Nem pensa na pobre mãe, viúva, que
você vai abandonar sozinha, aqui na terra.
FILHO:
Eu não quero morrer! Quer
parar com isso? Eu quero apenas que a senhora pare com essa idéia maluca e respeite a
minha individualidade.
MÃE:
Que
individualidade o quê! Tá querendo é espaço para se sentir coitado.
FILHO:
Mamãe, pelo amor de
Deus...
MÃE:
Pois vai
tratando de tirar o cavalinho da chuva. Comigo aqui não vai ter moleza, não. Eu até
hoje me arrependo de ter te ajudado a escapar do serviço militar. Se você tivesse
servido, hoje seria outro homem; essa desgraça toda não teria acontecido.
FILHO:
Mamãe, quer parar? Saco!
MÃE:
Tá
vendo? Como se expressa mal! Se lesse estes livros eu tenho certeza que teu vocabulário
melhorava.
FILHO:
Eu desisto.
MÃE:
Pois, eu
não. É essa a diferença entre nós dois. Enquanto você desiste, eu continuo. Eu vou à
luta porque sei muito bem o que quero. Você vai ver se esse livro não sai. Nem que eu
tenha que escrevê-lo.
FILHO:
Como é que é?
MÃE:
É só me colocar no seu lugar e imaginar todo o
drama que você tem passado. Paraplégico e com uma mãe tirava que não te deixa ter uma
individualidade. Pobrezinho! Está vendo como não é difícil?
FILHO:
Ah, não! Isso a senhora
não vai fazer mesmo. Ninguém tem esse direito. A senhora não vai falar através da
minha boca.
MÃE:
Pois
então trate de fazê-lo você mesmo, porque eu tenho um monte de editoras para visitar.
Não se preocupe com esse detalhe. Com a minha lábia, humildade e
determinação não vai ser difícil encontrar um editor simpático que se apaixone pela
nossa causa. (sai) O filho fica
sozinho. Olha para os livros, pensativo, e começa a folhear um deles.
FILHO:
Saco!