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O Gênio

de Emilio Gama

Prólogo - vão entrando um paraplégico, em sua cadeira de rodas, sendo empurrado por sua mãe.

 

MÃE:             — Não fica assim, filhinho. Você vai superar essa fase. Apesar das células de tecidos nervosos não se regenerarem, tenho certeza de que sua coluna cervical irá transcender a própria condição humana a que está sujeita. Você não viu naqueles filmes da sessão da tarde? Não existe um infeliz que não tenha superado as desgraças de um defeito físico. Sabe, aqueles filmes são todos baseados em fatos verídicos. Aquelas pessoas é que são os autênticos heróis do nosso cotidiano. Merecem ser aplaudidos “de pé”.

 FILHO:          — Está bem, mãe. A senhora já falou isso mais de mil vezes. Agora me deixa aqui que eu quero ficar sozinho um pouco.

 MÃE:             — Você está é maluco. Imagina se eu vou te deixar sozinho. Você pode aproveitar para entrar em estado de depressão.

 FILHO:            Mamãe, eu já estou deprimido.

 MÃE:               Sem essa, rapazinho. Não vem querendo bancar o adolescente revoltado pro meu lado, não. Vai tratando de se coçar que a moleza da fisioterapia já está chegando ao fim. (coloca um monte de livros diante dele)

 FILHO:          — Que é isso?

MÃE:               São livros de história da literatura, gramática, Lingüística geral e teoria semântica. Para ser um bom escritor é preciso ter uma base sólida.

 FILHO:          — E quem te disse que eu quero ser escritor?

 MÃE:               Eu disse, ora essa! Desde cedo que eu peço a Deus para ter um filho famoso. Investi tudo em você, te dei do bom e do melhor e agora você me apronta uma dessas. Te imaginava um grande cantor, um ator, um bailarino. Qualquer coisa que valesse a pena. Agora olha só p ara você. Me pega uma moto e faz a maior cagada da “minha” vida. As aulas de dança, canto, teatro e expressão corporal que eu te paguei foram todas por água abaixo. E tudo por causa desta maldita moto.

 FILHO:          — Mãe, a senhora tá louca!

 MÃE:             — Mas, não. Eu não desisto tão fácil, não. Já que não pode ser um artista bonito e burro; vai tratando logo de ser um gênio incompreendido que eu já joguei muito dinheiro fora com você.

 O filho fica atônito.

 MÃE:             — E não me olha com essa cara de bunda, não. Trata de estudar todas essas teorias poéticas para logo em seguida fazer alguma coisa que preste. A tua máquina de datilografia chega amanhã. Eu, desde já, vou começar a fazer alguns contatos com as editoras.

 FILHO:          — Eu não vou ser um escritor e a senhora está precisando é de um analista.

 MÃE:             — Me respeita! Me respeita! (pausa) E vai ser o que, então?

 FILHO:          — Não sei. Ainda não parei pra pensar. Mas pode ter certeza que eu vou ser aquilo que “eu quero”.

 MÃE:             — Se você “puder” ser aquilo que quer. Não adianta nada um peixe querer voar.

 FILHO:          — Não precisa me lembrar essas coisas, eu sou muito perspicaz para perceber isso sozinho.

 MÃE:             — Olha, filhinho...

 FILHO:          — Não me chama de “filhinho”!

 MÃE:             — Não me leve a mal. Eu estou fazendo isso pelo seu bem. Não é tão difícil assim como você está pensando. É só escrever sobre aquilo que te aconteceu e sobre seus sonhos, angústias e limitações. Tenho certeza que vai dar samba. Todo mundo adora um drama verídico com final feliz.

 FILHO:          — Mas, que final feliz?

 MÃE:             — Você triunfa como escritor e fica famoso. Quer melhor forma de se tornar imortal?

 FILHO:          — Mas, eu não quero ser imortal.

 MÃE:             — Eu sei, certamente você prefere é morrer. É um egoísta! Nem pensa na pobre mãe, viúva, que você vai abandonar sozinha, aqui na terra.

 FILHO:          — Eu não quero morrer! Quer parar com isso? Eu quero apenas que a senhora pare com essa idéia maluca e respeite a minha individualidade.

 MÃE:             — Que individualidade o quê! Tá querendo é espaço para se sentir coitado.

 FILHO:          — Mamãe, pelo amor de Deus...

 MÃE:             — Pois vai tratando de tirar o cavalinho da chuva. Comigo aqui não vai ter moleza, não. Eu até hoje me arrependo de ter te ajudado a escapar do serviço militar. Se você tivesse servido, hoje seria outro homem; essa desgraça toda não teria acontecido.

 FILHO:          — Mamãe, quer parar? Saco!

 MÃE:             — Tá vendo? Como se expressa mal! Se lesse estes livros eu tenho certeza que teu vocabulário melhorava.

 FILHO:          — Eu desisto.

 MÃE:             — Pois, eu não. É essa a diferença entre nós dois. Enquanto você desiste, eu continuo. Eu vou à luta porque sei muito bem o que quero. Você vai ver se esse livro não sai. Nem que eu tenha que escrevê-lo.

 FILHO:          — Como é que é?

 MÃE:               É só me colocar no seu lugar e imaginar todo o drama que você tem passado. Paraplégico e com uma mãe tirava que não te deixa ter uma individualidade. Pobrezinho! Está vendo como não é difícil?

 FILHO:          — Ah, não! Isso a senhora não vai fazer mesmo. Ninguém tem esse direito. A senhora não vai falar através da minha boca.

 MÃE:             — Pois então trate de fazê-lo você mesmo, porque eu tenho um monte de editoras para visitar. Não se preocupe com esse detalhe. Com a minha lábia, “humildade” e determinação não vai ser difícil encontrar um editor simpático que se apaixone pela nossa causa. (sai) O filho fica sozinho. Olha para os livros, pensativo, e começa a folhear um deles.

 FILHO:          — Saco!

FIM 

Emílio Ferreira Gama Neto

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