
de Dario Uzam
| (UM SR. SECO, APARENTANDO 40 ANOS, VESTIDO À MODA ANTIGA, COM
GUARDA-CHUVA NO BRAÇO, PÁRA EM UM PONTO DE ÔNIBUS. USA GEL OU BRILHANTINA, PALETÓ,
CALÇA DE LINHO LARGA, BIGODINHO RISCADO ETC. ENTRA UM SR. MOLHADO, DE UNS 30 ANOS, ROUPAS
NORMAIS, APRESSADO, GUARDA-CHUVA ABERTO, CALÇA BASTANTE RESPINGADA. TRANSPIRA AGITADO,
RESPIRANDO FORTE).
Molhado - Não agüento mais essa chuva! Seco Hm! Isso na minha terra é garoa. Molhado - E onde é a sua terra? Seco Longe. Muito longe. Lá nem televisão pega. Molhado - Estou com o saco cheio e encharcado. Essa enchente não vai embora. Está parecendo os Estados Unidos com seus rodamoinhos. Seco - Não é rodamoinho. Lá tudo é maior que aqui. Lá tem tufão ou tornado! E é de tornado que eles morrem de medo. Molhado - Todo santo dia, essa maldita enchente me atrasa. Semana passada, perdi meu emprego. E agora, foram os móveis, vídeo. Deus do céu, até a minha tevê... Seco - Tevê é um problema. Sua falta, deixa o homem meio perdido. Deve ser por isso que o senhor está enganado quanto à enchente. Molhado - Enganado, como? Seco - Ela ainda nem começou. Molhado - Como não? Olha pra mim! Estou encharcado até a virilha! Quem foi o corno que começou com tudo isso? Seco - A natureza não tem culpa de nada. Molhado - Mas alguém é o maldito culpado. Ou então temos que criar um. Assim é que não pode ficar! Seco - Sabia que o desabafo também é uma certa espécie de enchente? Molhado - Falta paciência, meu tio. Falta tudo ao mesmo tempo. Tem hora que eu tenho vontade de esganar alguém! (OLHA SÉRIO PARA ELE)... Seco Calma, calma. Saiba que a enchente também tem o seu lado bom. Molhado Qual lado? Seco - Assistir uma enchente pela TV , por exemplo. É uma delícia. Não faz mal a ninguém. Molhado - Já fiquei de porre! Porre de enchente! Seco - O homem pode ser até um homem forte, mas ainda é pequeno diante da natureza. Basta olhar. Como as nuvens, existem homens cirrus, homens nimbus ou cúmulus. E olha que tudo isso é instável. Molhado - É, a enchente traz até os loucos. Cá entre nós, me explica uma coisa. Por que será que o mundo está molhado e o senhor está seco? É porque merda não afunda? Seco - Ledo engano. Na enchente, merda afunda, sim senhor. Merda e ignorância, afundam juntas! Mas eu estou seco só por um justo motivo. É que a enchente ainda não chegou por aqui. Molhado Como não, meu senhor? Toda essa água mexe com a gente! Eu sinto a água entrando na pele, nos poros, chegando até nos ossos! Eu não sou louco, e a enchente já começou! Seco Sabia que o próprio homem é água? Mais de 90 por cento de água. Por isso, fique tranqüilo. Não seja um homem cumulus! Molhado - (OLHANDO SUAS PRÓPRIAS CALÇAS MOLHADAS) É o fim da picada. Seco - Deu na TV. O senhor não viu? Molhado - Como eu ia ver, se minha TV queimou na enchente? Seco - Interessante sua TV "queimar" na enchente. Já ouvi isso em algum lugar. Molhado - Minha TV molhou e depois, queimou. Seco - Agora, sim. A TV é a sua única desculpa e sabe por quê? Molhado - Não. Seco - Tudo é uma questão de previsão. A previsão é o próprio foco da chuva. Molhado - De que planeta o senhor é? Onde se esconde? Como é que essa enchente ainda não chegou por lá? Seco - Para a sua surpresa, eu moro por aqui mesmo. Quem sabe até a gente seja vizinhos. Molhado - Olha! Se estou dizendo que a enchente já me pegou, é porque eu me chafurdei nela. Seco - Só se o senhor viu alguma reprise de enchente, não essa que deu na TV. Molhado - Muito bem, seu sabidão do tempo. Então, me responda uma coisa: como é que o senhor viu a porra da enchente na TV, se ainda nem choveu? Seco A TV disse que está chovendo só no litoral. Existe apenas uma previsão de que a chuva venha para cá. Tudo é uma questão de previsão. Molhado Não é possível. O senhor quer me destruir. Seco - Só estou sendo um pouco científico. Molhado Vai ver que existem duas enchentes. A sua e a minha. Seco - Errado porque moramos no mesmo bairro. E isso aqui também não é nenhuma Amazônia para chover tanto. Molhado - Amazônia? Conhece a Amazônia? Seco - Conheço. Vi num documentário. Molhado - Ah, já entendi. Quer dizer que só vale se der na TV? Se não deu na TV, não existe? Seco - O senhor tem alguma dúvida disso? Molhado Claro que tenho. Seco - Qual? Molhado - O senhor. Seco - Como assim? Molhado - Por acaso, o senhor deu na TV? Seco - Não. Molhado - Então, o senhor também não existe. Se não deu na TV, não existe! Simples como água. Seco - Ignorância sua. Saiba que eu assisto TV todas as manhãs, tardes e noites! Como diria um filósofo: assisto, logo existo. Molhado - Figurinha difícil! Olha o tipo! Daqui a pouco vai colocar a humanidade em perigo. (PASSA UMA MULHER GOSTOSA REBOLANDO). Seco Imagine a mulher mais linda do mundo. Pense nela. Molhado Sei. Seco Agora eu pergunto: se a mulher mais linda do mundo não der na TV, será que ela existe? Molhado - Se ela passar na minha frente, existe. Seco - Mas não vai existir para a grande multidão. Só o senhor, não conta. Além do que, a sua TV queimou, logo o senhor não conta. Acho que estou perdendo tempo com a sua pessoa. Molhado - Não tenho TV mas ainda sou gente. Seco - Por pouco tempo. Veja bem: se um bombardeio, não der na TV, ele existiu realmente? Matou pessoas? Ocasionou desastres? Molhado Mas e se tiver testemunhas vivas? Seco Se não deu na TV, só pode ser mentira! Mentira de um mentiroso como o senhor! Molhado - Mentiroso é a puta que o pariu! Seco - Não gaste seus nervos à toa. Quem somos nós dois contra a grande multidão da TV. São mais de 4 bilhões em todo o mundo. Molhado - O senhor é um fanático, adventista, corintiano de TV. Seco - O presidente dos Estados Unidos seria presidente se não desse tanto na TV? E a falecida lady Diana, teria mesmo morrido naquele acidente, se não desse na TV, dentro daquele carro, daquele túnel? Molhado Quem o senhor quer enganar? Seco - E quando aos foguetes? Acha que eles poderiam subir tanto se não passassem pela TV? Eles chegaria até Marte? Molhado - Só sei que tudo o que sobe, desce... Seco E quanto ao nosso presidente? Molhado - O que tem ele? Seco - Ele seria mesmo Real se não desse na TV? Teria sido reeleito de verdade? Molhado - Não! Chega! O senhor tem razão. Já entendi. Seco - Tudo isso, só pra lembrar que a sua enchente não existe. Molhado - Pela última vez. Minha casa alagou. Vai lá pra ver. Seco - Não adianta. Molhado - Como, não adianta? Seco - Sua casa deu na TV? Molhado - Que esperança. Seco - O quê? Não ouvi direito. Deu na TV ou na Porta da Esperança? Molhado - Não! Não! Não! O mundo está cercado. Cercado, não. Ilhado por gente idiota! Seco Mesmo assim. Se essa enchente de idiotas for mesmo real, ela terá que dar na TV. De um jeito ou de outro. Caso contrário, também não vai existir. Como o senhor, se insistir muito com a sua enchente particular. Molhado Ah, eu desisto. Já não sei de mais nada. Seco Então, arrume a sua TV e logo saberá para onde o mundo gira. Esse é o único problema. Com a sua TV funcionando, o senhor vai parar de ter alucinações. Ligue a sua TV. E depois me ligue, só para ver como eu tenho razão! Eis aqui o meu cartão! (DÁ-LHE O CARTÃO E SE PREPARA PARA PEGAR O ÔNIBUS). Desculpe mas o meu ônibus está chegando! Adeus! (SAI). Molhado - Que ônibus, que cartão? (TENTA LER). Espera aí! Quem é o senhor? O quê? (LENDO) O Homem do Tempo! (OLHA PARA O ÔNIBUS). Não é possível. Como eu sou otário! (CHOVE. SENTE UM ARREPIO. FECHA O GUARDA-CHUVA E VAI EMBORA, HUMILHADO).
duf. jan/96 |

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