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Abreu busca inspiração na cultura e na história do País


Ele faz explorações críticas e macunaímicas na construção de seus personagens

MARIANGELA ALVES DE LIMA

Especial para o Estado

Quem tem a determinação de escrever para teatro, no Brasil, tem também, em geral, a gaveta cheia de textos à espera do sopro animador do espetáculo. Embora em São Paulo a produção teatral seja animadíssima, superando de longe a marca de uma estréia por dia, os ensinadores não costumam ser fiéis aos dramaturgos. Alguns autores talentosos chegam a ter a experiência de um ou dois textos encenados e, no exato momento em que poderiam incorporar à escrita o teste do palco, são relegados ao esquecimento. Em parte, a inconstância pode ser explicada pela estabilidade econômica de uma produção que não consegue consolidar companhia, espaços de trabalho e, conseqüentemente, linhas dramatúrgicas. Mas há também uma razão mais circunstancial, ligada a um aspecto peculiar da produção contemporânea: a importância do texto é hoje relativamente menor dentro da composição do espetáculo e qualquer grupo de criação sente-se autorizado a inventar, cortar, adaptar ou simplesmente eliminar componente textual das encenações.

De uma forma ou de outra, enfrentando a concorrência do espetáculo moderno ao texto, contornando a estabilidade dos grupos de produção, Luís Alberto de Abreu tornou-se, ao longo de 15 anos de trabalho no teatro paulista, essa raridade que se chama um dramaturgo profissional. Pode ser que na sua gaveta ainda contenha um número significativo de inéditos, mas a constância com que se mantém em cena é bastante incomum. Se o leitor percorrer hoje o roteiro dos jornais poderá constatar que, no momento, duas peças da temporada paulista levam sua assinatura: Bar Doce Bar e uma farsa compondo uma trilogia, O Parturião. Essa é uma honra que o teatro brasileiro normalmente reserva a Shakespeare e a Nélson Rodrigues. Em espírito pode dizer-se que Abreu defende mais o primeiro do que do segundo.

Guardadas as devidas proporções, a dramaturgia de Luís Alberto de Abreu tem a mesma curiosidade ampla e universal pelos mecanismos da história e pelo desempenho humano transformando ou aceitando o mundo, que caracteriza a dramaturgia do renascimento. No plano mais visível, suas peças não exibem a obsessão pela linguagem característica de boa parte da produção contemporânea nem os mergulhos no inconsciente coletivo com que bons dramaturgos, como Nélson Rodrigues, investigaram a ligação entre a psicologia individual e as representações sociais. Desde o seu primeiro e bem-sucedido trabalho profissional (Bella Ciao, encenada em 1982), suas peças observam e problematizam certas constantes da cultura e da história brasileira. Eventualmente, pode trabalhar com abstrações intemporais como faz em A Guerra Santa (1993) ou em O Livro de Jó (1995).

Outras peças, com um escopo mais moderno de observação de costumes são Foi Bom Meu Bem? e Bar Doce Bar, que retratam a experiência individual e as relações cotidianas, mas extraem sempre alguma conclusão de natureza antropológica. Quase sempre Abreu faz questão de mostrar que a autodeterminação não é possível nem mesmo na intimidade. A liberdade para dar forma ao mundo tem de ser construída no plano do concreto, com esforço da imaginação e dos atos.

Cultura

- Um dos temas preferidos de Abreu é o traço macunaímico da nossa cultura. Em Lima Barreto ao Terceiro Dia, faz reviver em cena o doloroso e enlouquecido visionário Policarpo Quaresma. Ao mesmo tempo iludidos e ilusionistas, os protagonistas de Burundanga, O Homem Imortal, Xica da Silva e O Rei do Brasil corporificam nossa insensata capacidade de embelezar e transformar, por meio da fantasia, tudo o que não conseguimos vencer no mundo real. Nas peças, essa vocação para o engano conserva um valor ambíguo. Ao embarcar na impostura ou na loucura dos projetos fantasiosos, a imaginação das personagens as impele ao ato, a alguma ação transformadora. A população miserável que mitifica um modesto cozinheiro desgarrado em O Homem imortal absorve um pouco do heroísmo imaginado. Mas os delírios de grandeza têm um preço, como o falso pó dourado que recobre os domínios de Xica da Silva.

Faz parte dessa exploração crítica das ilusões uma deliberada recusa, na construção dos textos, dos recursos tradicionais da retórica e do sentimentalismo que permeiam a literatura brasileira. Abreu tampouco recorre ao naturalismo da linguagem coloquial. Todos os seus textos são parcamente adjetivados, sintéticos, confiando na precisão do substantivo e na ordem direta da sintaxe. É dificil reduzir ou cortar qualquer uma de suas frases. São curtas e, em alguns textos, como a adaptação de um livro bíblico, atingem a altitude da boa poesia.

A inclinação poética de Luís Alberto de Abreu é ainda um pouco envergonhada. Quem teve a oportunidade de assistir a Bar Doce bar poderá reconhecê-la nas letras das canções que intercalam as cenas. A assidez na crítica de costumes também é, ao que parece, um elemento secundário que começa a ganhar corpo em O Parturião, uma trilogia encenada agora por Ednaldo Freire, no Teatro Eugênio Kusnet. O comedimento presente nas suas peças anteriores começa a desmanchar-se para dar lugar a uma escritura mais irônica, deliberadamente farsesca.

Fazendo comédia, ou poesia alternadamente, Abreu não faz contudo uma dramaturgia versátil. A amplitude das situações e da forma encobre um propósito sempre reiterado: "Temos um encontro marcado com este país; encontro a sério, sem delírios de grandeza." Feitas as contas, a soma das suas obras têm, no interior, um núcleo duro de roer. São mais intimações do que convite.

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