Livro reúne espetáculos de Luis
Alberto de Abreu
`Comédia Popular Brasileira' será lançado hoje e traz peças
escritas para a Cia. Malas-Artes
BETH NÉSPOLI
Será lançado hoje, no Teatro Ruth Escobar, o livro Comédia Popular Brasileira,
que reúne as quatro peças criadas por Luis Alberto de Abreu especialmente para a
Companhia de Artes e Malas-Artes: O Parturião, O Anel de Magalão,
Burundanga e Sacra Folia.
A festa de lançamento começa às 20 horas com uma apresentação especial, grátis, da
peça Sacra Folia. Os ingressos podem ser adquiridos na bilheteria, a partir das 15
horas, e dão direito a um exemplar do livro. Após o espetáculo, haverá um coquetel com
a presença do autor.
A edição da tetralogia faz parte das comemorações dos 150 anos da Siemens, empresa
patrocinadora do livro e da companhia dirigida por Ednaldo Freire. A publicação contou
ainda com o apoio da Prefeitura de São Paulo, por meio da Lei Mendonça, e do Ministério
da Cultura, por meio da Lei Rouanet.
Comédia Popular Brasileira tem prefácio de Mariângela Alves de Lima e fotos de
cena da companhia e será distribuído gratuitamente às bibliotecas públicas, centros
culturais e escolas de teatro. Instituições e entidades interessadas devem fazer contato
pelo tel. (011) 865-7226.
Parceria - Luis Alberto de Abreu e Ednaldo Freire são amigos de longa data e essa
tetralogia é fruto de sua mais recente e bem-sucedida parceria. Como diretor da Companhia
de Artes e Malas-Artes, Freire convidou o autor para juntos desenvolverem uma pesquisa
teatral em torno da comédia popular brasileira.
Abreu optou pela criação de personagens fixos para as quatro peças, inspirados na
Commedia dell'Arte - gênero teatral popular na França e na Itália do século 16. Tipos
daquele tradicional gênero, como o Arlequim (bufão simples, mas astucioso), o Pantaleão
(comerciante rico e autoritário), o Briguela (bufão mais arguto do que Arlequim), a
criada, o casal de enamorados, estão presentes nessas comédias, porém recriados dentro
do espírito da cultura brasileira.
Assim, Arlequim vira o mineirinho João Teité, sempre faminto, planejando espertezas e
realizando trapalhadas, enquanto Briguela é Matias Cão, seu parceiro de confusões. A
negra Benedita é a criada, quase escrava, cuja inteligência representa seu único
trunfo, enquanto o coronel Marruá exerce o poder típico do coronelismo nordestino, um
arcaísmo plenamente identificável pela platéia (leitor).
Herança - "Essas quatro peças abrem para os intérpretes incontáveis
possibilidades de elocução e jogos corporais, mas são também leituras
prazerosas", escreve a crítica teatral Mariângela no prefácio do livro. "Elas
são escritas com o pressuposto de que, apesar da televisão, apesar da Internet, apesar
dos atritos a que a metrópole submete o corpo e o ânimo da população, o público é
detentor de uma rica herança e é possível reativar esse imaginário", afirma ainda
num outro trecho.
Ao contrário do que se pode imaginar, o fato de escrever especialmente para a companhia
e, portanto, conhecer as possibilidades de cada ator, não leva Abreu a facilitar a vida
do elenco. "Procuro surpreendê-los a cada texto, propondo sempre novos
desafios." Mas acrescenta que essa atitude é muito bem recebida pelos atores, cujo
talento e disposição possibilitam uma relação dinâmica entre autor, diretor e elenco.
Com a criação da tetralogia Abreu considera ter encerrado um ciclo nesse trabalho. A
nova peça por ele criada para a companhia, IEP, uma comédia épica, já
não envolve os mesmos personagens, o que certamente exigirá um salto artístico da
trupe. "IEP é mais anárquica do que essas quatro juntas", adianta
Abreu.