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`Burundanga' mistura requinte e simplicidade


O diretor Ednaldo Freire apresenta uma encenação sem exageros cômicos, com uma clara definição visual, perfeitamente adequada para o elaborado texto do dramaturgo Luís Alberto de Abreu

MARIANGELA ALVES DE LIMA

Especial para o Estado

Burundanga, a Revolta do Baixo Ventre não é exatamente um título convidativo. De qualquer forma, a analogia rasteira entre uma convulsão institucional e a fisiologia restringe-se ao título. Sob ele se abriga uma elaborada e fina comédia de Luís Alberto de Abreu.

Prestigiado e bastante encenado no teatro paulista, Abreu dificilmente pode se alinhar entre os inovadores da dramaturgia brasileira. Até o momento, suas peças têm sido uma lenta e segura exploração das vertentes tradicionais da escrita cênica.

Burundanga é também uma continuidade, entrelaçando a tradição oral e cênica das encenações populares ao rigor verbal da cultura. Trata-se, enfim, do mesmo ideário que pauta as esplêndidas criações de Ariano Suassuna.

Certas convenções são seguidas à risca nessa comédia. O ritmo depende de peripécias simples, armadas e desarmadas com pleno conhecimento do espectador; as personagens são tipos de contornos bem-definidos, sem nenhuma dubiedade psicológica. A ação será sempre liderada por um homem do povo cuja inteligência é exatamente proporcional ao seu desvalimento. Todos esses conhecidos ingredientes fermentam em uma fantasiosa revolução, momento ideal para revelar a cobiça e o oportunismo dos poderosos. Como o Brasil de sempre, o local e a época em que essas coisas ocorrem são um tanto arcaicos.

Sobre essa estrutura conhecida o autor exerce seu inegável talento literário. Os diálogos são graciosos e inteligentes porque exibem, ao mesmo tempo, idéia e vocábulos exatos. Não há muitos adjetivos e nem mesmo os ornamentos retóricos elaborados que caracterizam em boa parte as criações da poesia oral. A graça corresponde quase sempre a uma idéia, a um conceito paradoxal ou a uma apreensão rápida das mudanças de situação. Utilizando a secura peculiar de seu estilo, Abreu evita a facilidade imagética com que muitas vezes se romantiza a representação da miséria popular.

Outra qualidade da peça é o equilíbrio de força entre os diversos campos em conflitos. Cenicamente, a representação do povo vale tanto quanto a dos poderosos locais e cada personagem tem a sua oportunidade de conduzir as peripécias. É um mundo que sobrevive porque há ainda uma equivalência de forças negativas e positivas. Regido pela cobiça e pela necessidade nesse pequeno universo não se insinua sequer uma pitada de transcendência.

A encenação de Ednaldo Freire, com uma clara definição visual, sem exageros cômicos que possam se sobrepor ao texto, é excelente. Um espetáculo simples, feito com evidente entusiasmo por um elenco em que ninguém se destaca. É uma virtude apreciável em uma época em que contracenar parece um obstáculo invencível.

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