`Burundanga' faz nova temporada
Peça de Luis Alberto de Abreu ocupa mais uma vez o Ruth Escobar,
a partir de amanhã
BETH NÉSPOLI
Especial para o Estado
Na maioria das vezes, o encerramento de uma temporada teatral significa uma frustração
definitiva para aqueles que desejaram assistir ao espetáculo e, por algum motivo, não
conseguiram. Com a reestréia de Burundanga, a Revolta de Baixo Ventre, de Luis
Alberto de Abreu, a Fraternal Companhia de Artes e Malas-Artes, dirigida por Ednaldo
Freire, propicia uma rara segunda chance para aqueles que perderam essa ótima comédia,
sucesso de público e crítica na temporada anterior. Burundanga reestréia
amanhã, às 21 horas, na Sala Gil Vicente do Teatro Ruth Escobar.
A peça faz parte de uma tetralogia de Luis Alberto de Abreu montada pelo grupo no ano
passado - Burundanga, O Parturião, O Anel de Magalão e Sacra
Folia -, trabalho que valeu à Companhia o Prêmio Especial da Crítica APCA. Em
novembro será a vez da reestréia de Sacra Folia e do lançamento em livro dos
quatro textos de dramaturgo, tudo sob o patrocínio do grupo Siemens, que há 16 anos
mantém a companhia.
Burundanga narra as aventuras de João Teité e Matias Cão que, fingindo-se
militares, convencem a população de uma pequena cidade de que uma revolução está em
andamento. A partir daí, a cidade divide- se em diversas facções de apoio ao novo
regime, enquanto ambos tiram proveito da situação. O espetáculo tem na Commedia
dell'Arte o ponto de partida de uma investigação de linguagem, que mescla vários
elementos da cultura popular brasileira, tanto em relação ao texto quanto à
interpretação dos atores. "Em seu tempo, a Commedia dell'Arte devolveu o teatro ao
povo", comenta Freire.
"O mineiro esperto João Teité seria para nós o Arlecchino da Commedia dell'Arte,
enquanto Matias Cão, com suas artimanhas, corresponderia ao Brighella." Porém, são
autores como Ariano Suassuna e Martins Pena, assim como atores do circo teatro,
teatro-revista, cordelistas e camelôs apregoando drogas miraculosas pelas ruas as
"fontes" de enriquecimento da encenação. Freire lembra, por exemplo, do
"aparte" (frase dita pelo ator diretamente para a platéia), recurso comum nas
comédias de autores como Martins Pena, que gerava grande cumplicidade com a platéia.
"Em Burundanga, esse recurso foi retrabalhado na gestualidade dos
atores, surtindo igual efeito."
"Divertir advertindo", esse poderia ser o lema do grupo, que mergulha na
irreverência popular sem, contudo, cair no popularesco. "Alguns ainda são
preconceituosos com relação ao humor: desde a Grécia a comédia é relegada a um plano
inferior", comenta Freire, para em seguida lembrar que talvez isso ocorra justamente
pela ameaça que o texto de humor representa pelo seu potencial crítico, por sua
capacidade de desafiar o poder e atingir o público.