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Ex-libris

O Estado de S. Paulo
NetEstado
12 de setembro de 1997

`Burundanga' faz nova temporada

Peça de Luis Alberto de Abreu ocupa mais uma vez o Ruth Escobar, a partir de amanhã


BETH NÉSPOLI

Especial para o Estado

Na maioria das vezes, o encerramento de uma temporada teatral significa uma frustração definitiva para aqueles que desejaram assistir ao espetáculo e, por algum motivo, não conseguiram. Com a reestréia de Burundanga, a Revolta de Baixo Ventre, de Luis Alberto de Abreu, a Fraternal Companhia de Artes e Malas-Artes, dirigida por Ednaldo Freire, propicia uma rara segunda chance para aqueles que perderam essa ótima comédia, sucesso de público e crítica na temporada anterior. Burundanga reestréia amanhã, às 21 horas, na Sala Gil Vicente do Teatro Ruth Escobar.

A peça faz parte de uma tetralogia de Luis Alberto de Abreu montada pelo grupo no ano passado - Burundanga, O Parturião, O Anel de Magalão e Sacra Folia -, trabalho que valeu à Companhia o Prêmio Especial da Crítica APCA. Em novembro será a vez da reestréia de Sacra Folia e do lançamento em livro dos quatro textos de dramaturgo, tudo sob o patrocínio do grupo Siemens, que há 16 anos mantém a companhia.

Burundanga narra as aventuras de João Teité e Matias Cão que, fingindo-se militares, convencem a população de uma pequena cidade de que uma revolução está em andamento. A partir daí, a cidade divide- se em diversas facções de apoio ao novo regime, enquanto ambos tiram proveito da situação. O espetáculo tem na Commedia dell'Arte o ponto de partida de uma investigação de linguagem, que mescla vários elementos da cultura popular brasileira, tanto em relação ao texto quanto à interpretação dos atores. "Em seu tempo, a Commedia dell'Arte devolveu o teatro ao povo", comenta Freire.

"O mineiro esperto João Teité seria para nós o Arlecchino da Commedia dell'Arte, enquanto Matias Cão, com suas artimanhas, corresponderia ao Brighella." Porém, são autores como Ariano Suassuna e Martins Pena, assim como atores do circo teatro, teatro-revista, cordelistas e camelôs apregoando drogas miraculosas pelas ruas as "fontes" de enriquecimento da encenação. Freire lembra, por exemplo, do "aparte" (frase dita pelo ator diretamente para a platéia), recurso comum nas comédias de autores como Martins Pena, que gerava grande cumplicidade com a platéia. "Em Burundanga, esse recurso foi retrabalhado na gestualidade dos atores, surtindo igual efeito."

"Divertir advertindo", esse poderia ser o lema do grupo, que mergulha na irreverência popular sem, contudo, cair no popularesco. "Alguns ainda são preconceituosos com relação ao humor: desde a Grécia a comédia é relegada a um plano inferior", comenta Freire, para em seguida lembrar que talvez isso ocorra justamente pela ameaça que o texto de humor representa pelo seu potencial crítico, por sua capacidade de desafiar o poder e atingir o público.

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