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Arena volta à cena com peças populares


Comédia lota teatro, reunindo freqüentadores habituais e pessoas que nunca pisaram no local

ALCEU LUÍS CASTILHO

Elite e povo confrontam-se no início e fim da peça Burundanga, a Revolta do Baixo Ventre, em cartaz no Teatro de Arena Eugênio Kusnet. Nas cadeiras históricas, a fronteira entre cultura de elite e popular tem sido rompida desde julho. A comédia de Luís Alberto de Abreu lota a sala e atrai desde freqüentadores habituais de teatro até quem nunca tinha pisado no Arena.

O estilista Alexandre Cunha e o motorista João José Santos de Oliveira são exemplos dessa diversidade. O primeiro vai todo mês a algum teatro. O segundo nunca tinha ido ao Arena. Cunha presta atenção no roteiro, no figurino e já conhecia um trabalho anterior da Companhia Fraternal de Artes e Malas-Artes, grupo que encena Burundanga. Oliveira não sabia nem se ia assistir a uma comédia ou um drama.

O motorista foi ao teatro com a turma de sua escola municipal, no Butantã. Ao fim da peça, estava entusiasmado. "O público praticamente participa", disse, tentando descrever a disposição diferente das cadeiras. "É uma coisa fantástica." Sambista, Oliveira adorou a trilha sonora. "Vou voltar com certeza."

O estilista já conhecia o espetáculo e fez avaliação mais mal-humorada. "Assisti a outra peça da companhia, Anel de Magalão, e acho que ela se adequa melhor ao espaço do Arena", avaliou. Mesmo preferindo ver Burundanga em um espaço maior, ele foi pela segunda vez para acompanhar um amigo. "As duas peças são muito boas", elogiou.

Segundo a professora Hermínia Pereira, que freqüenta o Arena desde 1975, há muito tempo a sala (onde cabem 133 espectadores) não lotava. "Estão voltando os velhos tempos do teatro", afirmou. Os motivos seriam a qualidade do espetáculo e a arquitetura do Eugênio Kusnet. "O povo adora esse contato mais pessoal com os artistas".

Projeto

- Dirigida por Ednaldo Freire, Burundanga faz parte do projeto Comédia Popular Brasileira, da Fraternal Companhia de Artes e Malas-Artes. Com o sucesso de público e crítica, as apresentações irão até o fim de setembro. Mais três peças serão encenadas até abril, quando termina o contrato do grupo com a Funarte, órgão do Ministério da Cultura que autoriza o uso do Arena.

Segundo Freire, boa parte do público acompanhou a companhia em montagens anteriores. Neste ano, no Teatro das Nações, foram encenadas Anel de Magalão e O Parturião. "No Arena, conquistamos o público regular de teatro", diz o diretor. "Ao mesmo tempo em que apresentamos nosso projeto, estamos revitalizando um espaço fundamental na cultura brasileira."

A trama de Burundanga centra-se nos malandros João Teité e Matias Cão. Eles roubam as roupas de dois militares e vão parar numa pequena cidade, isolada do país por causa de uma tempestade. A partir de um equívoco dos moradores, que crêem na existência de um golpe para derrubar o governo, começam a burundanga (confusão) e as composições para se tomar o poder.

Para criar os personagens, Luís Abreu inspirou-se em tipos brasileiros tradicionais, como o político que só pensa em se reeleger, o latifundiário inescrupuloso e a negra onisciente. A exemplo da Commedia dell'Arte italiana, eles voltarão em outras montagens. "São arquétipos de nossa sociedade", explica o dramaturgo.

Lacuna

- Luís Abreu diz que não se preocupou com o lado político em Burundanga. Seu teatro popular seria composto de requinte, simplicidade e festa. "Daí a decoração com cores quentes", explica. Ele acha que a Fraternal Companhia preenche uma lacuna na dramaturgia brasileira. "Faltava essa vertente da comédia, já explorada por Ariano Suassuna", afirma.

A companhia que ele e Freire lideram hoje surgiu há 15 anos na Associação Desportivo-Classista (ADC) da multinacional alemã Siemens. "A falta de formação acadêmica dos atores dá maior espontaneidade na representação de tipos populares", avalia.

O projeto inclui a realização de oficinas de atores no Arena. Fundado em 1955, o teatro foi palco de resistência à ditadura. Revelou atores como Dina Sfat e Lima Duarte e dramaturgos como Oduvaldo Vianna Filho e Augusto Boal. Uma das peças de maior sucesso foi Eles Não Usam Black- Tie, de Gianfrancesco Guarnieri.

Teatro de Arena Eugênio Kusnet - Rua Teodoro Baima, 94, telefone 256-9463.

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