Sucesso no Rio no ano passado, o espetáculo deve estrear no Ruth Escobar no fim do
mês que vem
BETH NÉSPOLI
Especial para o Estado
RIO - Em breve, o público paulista vai poder assistir a Lima Barreto - Ao Terceiro
Dia, mais uma bem-sucedida montagem teatral de um texto de Luiz Alberto de Abreu,
autor de O Livro de Jó e Bella Ciao. O escritor prepara ainda um livro de
contos e um roteiro de cinema.
A peça, que deve estrear no final de abril, no Teatro Ruth Escobar, dirigida por Aderbal
Freire Filho, é uma espécie de diálogo entre Lima Barreto e os personagens de seu
romance Triste Fim de Policarpo Quaresma. No Rio, em temporada no Centro Cultural
Banco do Brasil, o espetáculo foi indicado em várias categorias para os Prêmios Shell e
Mambembe.
Há muito tempo, Abreu tinha vontade de adaptar O Triste Fim de Policarpo Quaresma,
de Lima Barreto, para o teatro. "Soube que Aderbal Freire Filho estava interessado na
história", diz Abreu. Em 1984, tiveram um contato e combinaram a encenação da
peça. A mesma produtora que tornou possível a montagem de Lima Barreto, no ano
passado, vai agora produzir Francesca, seu novo texto, um musical dirigido por Luiz
Arthur Nunes, com estréia em agosto no Rio.
A peça Francesca é baseada em um trecho de A Divina Comédia, de Dante,
quando Francesca Di Rimini e seu amante Paolo são surpreendidos na cama, assassinados e
depois julgados no inferno. Abreu já trabalhara com personagens do romance de Dante em A
Guerra Santa, um poema dramático que mostra Virgílio e Beatriz viajando não pelo
universo do catolicismo, mas pelas crises brasileiras.
Para Abreu, é instigante "reescrever antigos mitos dentro de nossa sociedade
urbana e moderna". Ele não considera um limite à sua criação estar retrabalhando
uma história já conhecida e diz se "expressar com a liberdade de um inventor".
Conta ainda que seu interesse pela mitologia surgiu com a leitura de Contos Populares
do Brasil, de Sílvio Romero. "Os antigos contos medievais eram passados
oralmente pelos cantadores no interior do Brasil e pequenas quadrinhas, muitas vezes, se
originaram de grandes histórias", explica.
Sem abandonar a linguagem teatral, Abreu agora quer também experimentar a literatura.
Até julho, deve lançar o primeiro de uma série de dez livros com dez contos.
"Será uma espécie de Decameron (obra do escritor Bocaccio em que cem histórias
são contadas em dez noites), mas todos os contos se baseiam em temas míticos."
Em outros tempos, ele já publicou uma revista em quadrinhos. O Entrincheirado Hans
Ribbentrop, um personagem satírico numa história que tinha como tema a 2ª Guerra
Mundial. Os desenhos eram de José Duval. Abreu só não dedica mais tempo a essa
linguagem por questões de mercado. "Os quadrinhos para adulto não são valorizados
pelo mercado editorial brasileiro", lamenta.
Kenoma, que começa a ser filmado em agosto, em São Paulo, é a primeira
experiência de Abreu com roteiro de cinema. O convite partiu da diretora Eliana Café,
depois que o argumento recebeu o prêmio Estímulo, em Brasília. É a história de um
homem obcecado pela criação da máquina de moto-contínuo.
Teatro, literatura, cinema, quadrinhos, só falta a televisão. Abreu já recebeu alguns
convites, mas compromissos com o teatro o impediram de aceitar. Mas não vê
incompatibilidade em escrever para diversos veículos.
"Em geral, as coisas vão-se acertando, algumas idéias cabem melhor num meio, outras
noutro, só não me meto a fazer música ou artes plásticas." Abreu escolheu viver
numa espécie de fazendola em Ribeirão Pires, onde "o ar é melhor, o trânsito
também". E hoje faz parte de um grupo raro no Brasil - um escritor que vive de sua
profissão.

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