Abreu transforma clássico em comédia
tropical
Estréia amanhã a peça `Iepe', mais recente criação do
dramaturgo para a Fraternal Cia. de Artes e Malas-Artes para a qual já escreveu sucessos
de público e crítica como `Burundanga' e `Sacra Folia'
BETH NÉSPOLI
Um camponês era coroado rei no chamado Dia dos Tolos, festa popular medieval da qual
participava toda a cidade. A festa foi a fonte de inspiração para que o norueguês
Ludwig Holberg criasse a comédia Iepe, um clássico do teatro escandinavo.
Uma divertida versão tropical de Iepe, criada pelo dramaturgo Luís Alberto
de Abreu, estréia amanhã no Teatro Ruth Escobar, sob direção de Ednaldo Freire, com a
Fraternal Companhia de Artes e Malas-Artes. A peça conta a história de um camponês
vadio e beberrão que dorme bêbado e pobre e acorda, sem saber bem por que, rico e
poderoso.
Em princípio, tudo não passaria da brincadeira de um nobre barão decidido a divertir-se
com um plebeu tolo. Porém, Iepe embarca na fantasia do poder e torna-se um tirano. Pior,
lida com o povo de forma ainda mais cruel do que aquela à qual estava habituado a ser
tratado. Ainda que tenha mantido o tom de fábula, e portanto de época, Abreu adaptou a
linguagem, ampliou personagens e eliminou o moralismo do texto original.
Escrita no século 18, a fábula terminava com a punição de Iepe. Moral da história: um
homem do povo, ignorante, não sabe exercer o poder, concluía o original, esquecendo que
Iepe se espelhara no modelo de poder conhecido. "A versão de Abreu deixa claro que
toda forma de poder absoluto, no qual as decisões são tomadas sem consultar o povo,
será mal exercida, não importa a classe social do soberano", comenta Freire.
Embora tenha adquirido conteúdo político com essa troca da lição, de moral para
democrática, não há nada de panfletário neste espetáculo, garantiu Freire. Autor e
diretor preferiram investir no humor e explorar uma outra vertente da história: a do
homem que mergulha na fantasia passando a negar a realidade. "Como em A Vida É
Sonho, de Calderon de la Barca, o tema é o da inversão entre realidade e
ficção e isso é o que torna o texto um clássico", diz Abreu.
Lembrando os versos da canção de Chico Buarque - quem brincava de princesa, acostumou na
fantasia -, o diretor conta ter optado pela carnavalização em sua concepção cênica.
"Os figurinos (criados por Luiz Augusto dos Santos e Fábio Lusvarghi) são
verdadeiras alegorias", lembra.
Como exemplo, descreve o figurino dos médicos: o alopata que só pensa em cortar os
pacientes e, por isso, em vez de mãos tem tesouras, enquanto seu rival, o naturalista,
que pensa poder curar tudo com chás, veste folhas. "Há um julgamento na peça e o
juiz possuiu braços muito longos é quase um carro alegórico."
Iepe inaugura uma nova etapa do projeto de investigação de humor popular,
Comédia Popular Brasileira, que há quatro anos a Fraternal Companhia vem desenvolvendo
em parceria com Abreu. Em Iepe, eles abandonam os personagens fixos
das quatro peças escritas por Abreu especialmente para a companhia - Burundanga,
Anel de Magalão, Parturião e Sacra Folia - apresentadas com grande
sucesso de público e crítica.
Estrutura épica - Se na tetralogia predominava a linguagem dramática, em Iepe a
ênfase é para a narrativa. Freire aproveitou a estrutura épica do texto para pôr dois
atores representando o papel de Iepe (Gilmar Guido e Ali Saleh) e duas atrizes (Izildinha
Rodrigues e Mirtes Nogueira) no papel de Néli, sua mulher.
Enquanto Iepe fica deslumbrado com as roupas do barão e incorpora a fantasia, os atores
dirigidos por Freire assumem ser simples contadores de história. "O figurino
funciona como uma máscara, signo que caracteriza o personagem." Além de atuar numa
outra chave de interpretação, com esta peça a companhia tira o pé do interior,
abandonando tipos característicos como o caipira João Teité. "Iepe representa
a transição de uma fase mais regionalista para outra mais cosmopolita."