lognucn1.JPG (57864 bytes)

 Sexta-feira,
4 de setembro de 1998

Obsessão faz de `Kenoma' o `Fitzcarraldo' brasileiro

Definição adequada é de Felice Laudadio, que selecionou para Veneza o filme que estréia hoje

LUIZ CARLOS MERTEN

Coordenador-geral do Festival de Veneza, Felice Laudadio ficou tão impressionado com Kenoma que não deixou por menos: disse que o filme de Eliana Caffé é o Fitzcarraldo do cinema brasileiro. Foi além: selecionou Kenoma para participar do festival iniciado ontem, embora não o tenha incluído entre os filmes concorrentes ao Leão de Ouro. Kenoma vai passar numa das sessões paralelas da mostra veneziana.
É um dos filmes brasileiros mais exigentes dos últimos tempos. Merece toda a atenção, embora, para falar a verdade, talvez lhe falte um grãozinho para ser admirado incondicionalmente pelo público. Eliana, curta-metragista de talento comprovado, baseou-se numa utopia científica que existe desde a Idade Média. Kenoma trata da máquina do movimento perpétuo. A diretora ambienta o mito do moto-contínuo no interior de Minas, no Vale do Jequitinhonha, uma região tão pobre, economicamente, quanto rica, culturalmente.
José Dumont faz o obcecado construtor da máquina, Lineu. Mas o personagem por intermédio do qual Eliana desenvolve sua trama é Jonas (Enrique Diaz). Quando o filme começa, ele chega a uma região meio selvagem e se sente imediatamente atraído pela personagem de Mariana Lima, casada com Lineu. Eliana escolheu o forasteiro como eixo da narrativa. A intenção é clara: Jonas serve de olho para o espectador. Por meio dele, a diretora descobre esse fim de mundo que sonha com o progresso. Kenoma, nome da cidade imaginária em que tudo se passa, tem conotação mítica. Vem do grego e designa o vazio potente que antecede o momento da criação.
Eliana escreveu o roteiro com Luiz Alberto de Abreu, autor de O Livro de Jó. Seu tema é a obsessão. Lineu sonha com a máquina que funciona sem energia como a cidade sonha com o progresso. O sonho termina por consumi-lo. É o que aproxima Kenoma de Fitzcarraldo, que também é o relato de uma obsessão. Lineu não é apenas um visionário - é também um fanático disposto a tudo, até a sacrificar a sua vida pessoal para provar a veracidade de suas idéias. Seu pólo contrário é Gerônimo, interpretado por Jonas Bloch. E, entre os dois, situa-se Pedro (Matheus Nachtergaele), que faz o elo entre a praticidade e o sonho.
Quando começou a interessar-se pelo projeto, Eliana pensava na máquina como um detalhe da trama. Terminou virando a própria razão de ser do filme. Nas suas pesquisas, ela descobriu que continuístas, que perseguiam a concretização do moto-contínuo, ficavam sempre a um passo de pôr seus inventos em ação. Foi o que terminou por arrebatá-la.
Há momentos em que Eliana adota um tom semidocumental, reatando com a vertente do Cinema Novo por sua disposição de transformar a busca da utopia em parábola sobre o Brasil. Mas, na maioria das vezes, prevalece um tom onírico, realçado pela cuidada fotografia de Hugo Kovensky. Eliana foi mais transgressora da linguagem em seus curtas, especialmente em Arabesco, premiado no Festival de Gramado. Mas sua trama refinada demonstra potencial. Mais um pouco, superados certos defeitos - diálogos fracos, interpretações desiguais, inconsistências dramáticas -, ela poderá inscrever seu nome entre as promessas consolidadas do cinema brasileiro.

Copyright 1998 - O Estado de S. Paulo - Todos os direitos reservados

DOS DEZ [Muito Prazer] [Trabalhos] [Projetos] [Notícias] [Fale Conosco

Hosted by www.Geocities.ws

1