Sexta-feira,
4 de setembro de 1998 |
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Obsessão faz de `Kenoma' o
`Fitzcarraldo' brasileiro
Definição adequada é de Felice Laudadio, que selecionou para
Veneza o filme que estréia hoje
LUIZ CARLOS MERTEN
- Coordenador-geral do Festival de Veneza, Felice Laudadio ficou tão impressionado com
Kenoma que não deixou por menos: disse que o filme de Eliana Caffé é o Fitzcarraldo do
cinema brasileiro. Foi além: selecionou Kenoma para participar do festival iniciado
ontem, embora não o tenha incluído entre os filmes concorrentes ao Leão de Ouro. Kenoma
vai passar numa das sessões paralelas da mostra veneziana.
- É um dos filmes brasileiros mais exigentes dos últimos tempos. Merece toda a
atenção, embora, para falar a verdade, talvez lhe falte um grãozinho para ser admirado
incondicionalmente pelo público. Eliana, curta-metragista de talento comprovado,
baseou-se numa utopia científica que existe desde a Idade Média. Kenoma trata da
máquina do movimento perpétuo. A diretora ambienta o mito do moto-contínuo no interior
de Minas, no Vale do Jequitinhonha, uma região tão pobre, economicamente, quanto rica,
culturalmente.
- José Dumont faz o obcecado construtor da máquina, Lineu. Mas o personagem por
intermédio do qual Eliana desenvolve sua trama é Jonas (Enrique Diaz). Quando o filme
começa, ele chega a uma região meio selvagem e se sente imediatamente atraído pela
personagem de Mariana Lima, casada com Lineu. Eliana escolheu o forasteiro como eixo da
narrativa. A intenção é clara: Jonas serve de olho para o espectador. Por meio dele, a
diretora descobre esse fim de mundo que sonha com o progresso. Kenoma, nome da cidade
imaginária em que tudo se passa, tem conotação mítica. Vem do grego e designa o vazio
potente que antecede o momento da criação.
- Eliana escreveu o roteiro com Luiz Alberto de Abreu, autor de O Livro de Jó. Seu tema
é a obsessão. Lineu sonha com a máquina que funciona sem energia como a cidade sonha
com o progresso. O sonho termina por consumi-lo. É o que aproxima Kenoma de Fitzcarraldo,
que também é o relato de uma obsessão. Lineu não é apenas um visionário - é também
um fanático disposto a tudo, até a sacrificar a sua vida pessoal para provar a
veracidade de suas idéias. Seu pólo contrário é Gerônimo, interpretado por Jonas
Bloch. E, entre os dois, situa-se Pedro (Matheus Nachtergaele), que faz o elo entre a
praticidade e o sonho.
- Quando começou a interessar-se pelo projeto, Eliana pensava na máquina como um detalhe
da trama. Terminou virando a própria razão de ser do filme. Nas suas pesquisas, ela
descobriu que continuístas, que perseguiam a concretização do moto-contínuo, ficavam
sempre a um passo de pôr seus inventos em ação. Foi o que terminou por arrebatá-la.
- Há momentos em que Eliana adota um tom semidocumental, reatando com a vertente do
Cinema Novo por sua disposição de transformar a busca da utopia em parábola sobre o
Brasil. Mas, na maioria das vezes, prevalece um tom onírico, realçado pela cuidada
fotografia de Hugo Kovensky. Eliana foi mais transgressora da linguagem em seus curtas,
especialmente em Arabesco, premiado no Festival de Gramado. Mas sua trama refinada
demonstra potencial. Mais um pouco, superados certos defeitos - diálogos fracos,
interpretações desiguais, inconsistências dramáticas -, ela poderá inscrever seu nome
entre as promessas consolidadas do cinema brasileiro.

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