Luís Alberto de Abreu finaliza seu novo texto
Dramaturgo dá cores brasileiras a `Camponês Jeppe', clássico
dinamarquês do século 18
JÚLIO GAMA
Para dar continuidade ao Projeto de Comédia Popular Brasileira, o dramaturgo Luís
Alberto de Abreu finaliza nos próximos dias a adaptação de O Camponês Jeppe
(leia-se Iep). O texto é um clássico do teatro dinamarquês, de autoria desconhecida,
montado repetidas vezes em palcos escandinavos desde o século 18. Se alguém perguntar
qual a relação entre um personagem do outro lado do mundo com a cultura popular
brasileira, encontrará a resposta no próprio Jeppe.
"Ele é um beberrão, glutão, tolo e ingênuo", conta Abreu. "É
universal." Nessa montagem, o dramaturgo (premiado pela Apetesp no ano passado pelo
conjunto da obra) busca correspondência na cultura brasileira de personagens populares de
todo o mundo. Jeppe seria o nosso Mazzaropi. "Vou tropicalizar o personagem, dar mais
agilidade e tirar o tom moralista que ele recebe na região de origem", adianta.
Tropicalizar, em bom português, significa tirar Jeppe da atmosfera cinzenta e fria da
Dinamarca e colocá-lo num cenário festivo, boa parte dentro de um bar.
Eis a história de Jeppe: Casado com uma lavadeira, feia e autoritária, ele não suporta
mais seus desmandos. Sai para comprar sabão para a mulher, pára num bar e começa a
beber. Gasta o dinheiro do sabão em cerveja e, com medo da mulher, decide não voltar
para casa. Passa a noite embriagado sobre montes de esterco.
Um barão que passava pelo local decide fazer uma traquinagem com Jeppe. Leva o
personagem, desacordado, para o palácio e o veste com as roupas de um nobre. Na manhã
seguinte, Jeppe é convencido de que é um barão e assume tal personalidade. O pacato
camponês transforma-se num tirano, manda decapitar quem desobedece suas ordens e não há
quem o convença de que tudo não passa de brincadeira. É embriagado outra vez e levado
para a estrebaria vestido novamente como camponês. A surra de vara que recebe da mulher o
traz à realidade.
Abreu conheceu a história de Jeppe em 1986, quando co-produziu o espetáculo E Morre a
Floresta com um autor dinamarquês, que lhe mandou a obra em inglês. O texto foi
traduzido por Abreu em 1987 e aguardou na gaveta a oportunidade de iniciar as pesquisas
dos tipos da comédia universal. "Os grandes atores escandinavos fazem o papel de
Jeppe", diz.
O espetáculo será montado em outubro, em São Paulo, pela Fraternal Cia. de Arte e
Malas-Artes. Não mais no Teatro de Arena Eugênio Kusnet porque o contrato de um ano
termina em abril. Com patrocínio da ADC-Siemens, Abreu montou no Eugênio Kusnet quatro
espetáculos por conta do Projeto de Comédia Popular Brasileira: O Anel de Magalão;
Burundanga, a Revolta do Baixo Ventre; Sagrada Folia e O Parturião,
ainda em cartaz.
Para o próximo ano, Abreu planeja ampliar o projeto de encenação de autos. Devem
ser quatro por ano: o Auto da Paixão e Páscoa, na Semana Santa; Auto Caipira, em julho;
Auto da Primavera, em setembro e o Auto de Natal. O Auto de Natal já foi montado pela
Fratenal Cia. de Arte e Malas-Artes no ano passado e deve ser repetido em dezembro.