Luís Alberto de Abreu busca o teatro popular
Estréia hoje no Teatro Eugênio Kusnet `Burundanga, A Revolta do Baixo Ventre', a
nova peça do premiado autor de `O Livro de Jó' e `Bella Ciao', que defende a volta da
simplicidade ao palco
ANTONIO GONÇALVES FILHO
Odramaturgo Luís Alberto de Abreu, considerado pelos críticos a grande revelação dos
anos 80, atravessa os anos 90 ainda mais prestigiado - ele acaba de receber o prêmio da
Associação dos Produtores de Espetáculos Teatrais do Estado de São Paulo (Apetesp)
pelo conjunto da obra. Hoje, às 20h30, estréia no Teatro Eugênio Kusnet sua mais nova
peça, Burundanga, a Revolta do Baixo Ventre, sobre dois farsantes travestidos de
militares que fazem toda uma comunidade acreditar numa possível revolução em curso.
Burundanga dá início ao Projeto de Comédia Popular Brasileira patrocinado pela
ADC-Siemens. Desenvolvido pela Fraternal Companhia de Artes e Malas-Artes, o projeto vai
permitir a encenação, até o final do ano, de mais três peças do autor de Bella
Ciao. Essas peças (O Anel de Magalão, O Parturião e Sacra Folia) lidam com
personagens inspirados pela commedia dell'arte e pelo teatro de Ariano Suassuna. Mas Abreu
também experimentou outros gêneros, como O Livro de Jó, a peça mais premiada do
ano que passou. Abaixo, o dramaturgo Luís Alberto de Abreu fala de sua carreira em
entrevista ao Estado.
Estado - Gostaria que você falasse um pouco do projeto de reconstrução
moderna dos personagens da commedia dell'arte no qual se insere Burundanga, a
Revolta do Baixo Ventre.
Luís Alberto de Abreu - Esse projeto nasceu em Santo André há alguns anos,
quando comecei a estudar a commedia dell'arte e senti necessidade de trabalhar com
personagens fixos. Foi assim que João Teité, o principal personagem de Burundanga,
passou a ser Arlecchino e Matias Cão assumiu o posto de Brighella. Fui procurar nesses
arquétipos da commedia dell'arte os correspondentes na nossa cultura. Matias Cão, por
exemplo, pode ser visto como uma espécie de Pedro Malazartes.
Estado - Em que essa pesquisa se diferencia de outros textos seus que também são
reflexões sobre nossa história, como Bella Ciao?
Abreu - Todas essas peças fazem parte dessa busca pelo teatro popular, o que
justifica a aproximação com a commedia dell'arte e o teatro do Renascimento.
Estado - O que significa teatro popular no Brasil de hoje?
Abreu - Não entro nessa discussão ideológica e política sobre teatro popular (longa
pausa). Uma coisa que me move é a simplicidade, que praticamente inexiste neste final
de século. Nesse projeto, dividido entre as peças Burundanga, O Anel de
Magalão, O Parturião e Sacra Folia, Ariano Suassuna é uma influência
marcante. É um teatro onde o público vai para se divertir e sai com algum saldo. O
Livro de Jó, por exemplo, tem uma tentativa de elaboração formal, mas é popular,
porque o verso foi colocado como elemento básico de comunicação, não como pesquisa
estética.
Estado - Por que você faz uso freqüente do passado para refletir sobre o presente,
recorrendo a Dante para escrever peças como A Guerra Santa e Francesca?
Abreu - Porque acho muito complicado criar alguma coisa. O aprendizado
fundamental está em Dante, Boccaccio e Shakespeare, porque foram eles que deram forma à
língua, seja a italiana ou a inglesa. Os contemporâneos devem tudo aos antigos.
Estado - Mas por que retomar, por exemplo, a tragédia de Francesca da Rimini? Você
acha que Dante não esgotou o assunto em A Divina Comédia? E
o projeto de Boccaccio?
Abreu - A história de Francesca é fantástica, mas o que me chamou a
atenção, em primeiro lugar, foi sua relação de paixão. Francesca virou um
musical, que deve estrear no final do ano. Quanto ao livro com histórias curtas
que adotam Boccaccio como modelo, ele está quase pronto.
Estado - De Dante você passa para a ficção científica com o roteiro do filme Kenoma,
que também tem origem antiga, ou seja, na Idade Média. Como você pretende abordar o
tema do moto-perpétuo hoje?
Abreu - Na verdade, me interessa muito essa luta que existe entre o cérebro
cartesiano e nosso lado mais quixotesco, de ir além das possibilidades. Essa busca
medieval do moto-perpétuo não terminou, o que pode ser comprovado pelas recentes
pesquisas daqueles dois químicos americanos que tentaram a fusão a frio. O que eles
estavam buscando senão o moto-perpétuo, a energia a custo zero? Creio ser essa pulsão
mítica que nos empurra, que empurrava Ícaro e empurra o inventor perdido no sertão do
Brasil, o principal personagem de Kenoma (um homem cuja obsessão é realizar o
moto-perpétuo com uma engrenagem de moinho).
Estado - Sua geração viu nascer o teatro que contestava a hegemonia da palavra em
peças como O Terceiro Demônio. Como você se sente, 20 anos depois, como um
dramaturgo que defende o poder da palavra no palco?
Abreu - Eu defendo o uso da palavra porque é a única coisa que sei fazer. Foi
extremamente importante que diretores defendessem o império do espetáculo, baseado mais
nos sentidos do que na palavra, mas eu procurei investir na poesia porque minha geração
também foi muito ligada na musicalidade das palavras.
Estado - Essa geração também é marcada pelo uso excessivo da metáfora, que não
chegou a ser expurgada do palco como na pintura. A interpretação da realidade através
do mítico não lhe incomoda?
Abreu - A metaforização tem muito a ver com a poesia. Portanto, não me incomoda. É
difícil ver algum trabalho meu que não passe por esse caminho mítico, mais fácil para
estabelecer uma comunicação imediata.
Estado - Falar em mito e arquétipo é falar do Centro de Pesquisa Teatral dirigido por
Antunes Filho, com o qual você trabalhou em Xica da Silva. Como foi essa
experiência?
Abreu - Se eu não tivesse a trombada que eu tive com o Antunes, eu não teria
esse casamento com o Antônio Araújo em O Livro de Jó, porque nos conhecemos lá.
Mas a experiência do CPT foi fundamental, porque pela primeira vez trabalhei com um
diretor. Minha diferença com Antunes foi apenas de interpretação.
Estado - Como você vê indivíduos como Xica da Silva, Lima Barreto e o comediante
Francisco Correia Vasques, o "rei do riso"?
Abreu - Xica não foi devoradora, mas devorada. A integridade de Lima Barreto foi o
traço de sua personalidade que mais me atraiu. Finalmente, Vasques sempre foi uma
incógnita, porque não existe registro biográfico sobre o comediante. Tudo o que está
em O Rei do Riso foi inventado por mim. Só existe uma página sobre sua vida,
escrita por Arthur de Azevedo. Pesquisei a vida de atores que trabalharam com ele e
escrevi a peça apenas com esses poucos dados.
Estado - Vamos falar um pouco de política. Você escreveu há alguns anos uma peça
sobre migração interna, Cala Boca Já Morreu, que antecipava a tragédia dos
sem-terra no Brasil. O que você mudaria na peça se tivesse de reescrever o
texto?
Abreu - Esse é o problema mais sério que o governo e a sociedade vão ter de
solucionar. A reforma agrária tem de ser feita, porque a estrutura fundiária do Brasil
é feudal. Quanto à peça, creio que hoje não escreveria uma comédia. Não tenho mais
essa visão idílica, porque não existe mais o campo idílico, mas uma praça de guerra
mesmo. Nesse sentido, A Guerra Santa, que mostra esses personagens num
inferno dantesco, do qual não podem sair, é mais atual. O avô miserável, o pai
miserável e o filho miserável, todos esses condenados estão se revoltando.
Estado - Depois de política, vamos falar de religião. Por que você aceitou o desafio
de adaptar O Livro de Jó?
Abreu - Estava fazendo uma pesquisa sobre o uso do herói na dramaturgia quando o
Tó Araújo me convidou para escrever o texto. Queria desmistificar a figura de Jó como
um ser paciente. Ele é o herói que chega a se ombrear com a divindade, mas aceita as
circunstâncias e a submissão.
Estado - Você é religioso?
Abreu - Não. Fui seminarista, mas não sou religioso.
Estado - Sua infância numa família pobre e a experiência como office-boy teve
influência na escolha dos temas de suas peças?
Abreu - Acho que sim. Sou o décimo filho de um marceneiro, ouvi muitas histórias
como office-boy, fiquei quatro anos num seminário franciscano e comecei a fazer teatro
amador em 1970, trabalhando primeiro com ator em peças do Suassuna. Minha primeira peça
foi Guatá, Km 25, sobre grilagem de terras.
Estado - Em 1991 você fez uma incursão no mundo dos quadrinhos, escrevendo sobre um
soldado alemão na 2º Guerra, um idiota nazista chamado Hans Ribbentrop. Foi algo
episódico?
Abreu - Esse roteiro que escrevi para os desenhos de José Duval foi realmente
uma experiência episódica. Gosto muito de quadrinhos, uma leitura rápida que
pode ser profunda, mas é difícil trabalhar com isso no Brasil.
Estado - Você gostaria de fazer algo sofisticado, na linha do Dave McKean?
Abreu - Justamente. Criei um personagem de ficção, Iagar, que é um gênio em
informática, tem 16 anos e vive numa sociedade de bárbaros devastada pela peste.
Estado - Quais são suas principais referências teatrais?
Abreu - As peças de Nélson Rodrigues, Jorge Andrade, Plínio Marcos, Harold Pinter e
Sam Shepard.
Estado - Você escreveu uma peça sobre o mago Merlin, que também foi personagem de
Tankred Dorst. Que tipo de abordagem separa você de Dorst?
Abreu - Não conheço a peça de Tankred Dorst, mas a minha trata Merlin como Jó, ou
seja, mostra a luta de um sábio pelo conhecimento, um sábio que acaba dominado pela
paixão. De qualquer modo, quero retomar esse tema no futuro de uma forma menos
pretensiosa.
Estado - Quantas peças você escreveu e dessas quais são as inéditas?
Abreu - Escrevi 20 e 2 são inéditas, O Homem Imortal, uma ficção inédita
sobre a Revolução de 30, e Francesca.
Estado - Você tentou fazer um teatro mais intimista com Círculo de Cristal, mas
parece que a experiência, segundo críticos, não deu certo.
Abreu - É verdade, tenho dificuldade de trabalhar peças com apenas dois ou três
personagens, mas Francesca representa uma nova tentativa para entender a força da
psique feminina, um tema que me interessa muito.

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