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A visita

de Fernando Castioni

Personagens:

A Visita

Anfitriã "A"

Anfitriã "B"

Cenário:

Um quarto, onde se vê duas velhas penteadeiras. Na direita está está sentada a personagem "A" maquilando-se de costas para o público. No lado esquerdo. também se maquilando e de costas para o público, está a personagem "B". Bem próximo da penteadeira de "B", há uma cadeira de rodas e uma cortina indicando uma saída para outro aposento. No centro do palco, uma mesa e do lado direito da mesa, há uma cadeira. Completando o cenário, uma porta e uma janela no lado direito do palco. Quando a luz acende, pode-se notar a decadência do lugar.

Som de vento forte, que vai diminuindo assim que a luz vai acendendo. Quando o palco já está iluminado, o som de vento pára. "A"se levanta, vai até a janela, e depois de abri-la, olha pela mesma. "A" volta para a sua penteadeira, e sem se sentar, mexe nos próprios cabelos. Alguém bate nervosamente na porta. "A" vai até a porta, antes de abri-la olha para "B". "B" passa para a cadeira de rodas e fica de costas para a porta e de perfil para o público. "A" abre a porta: Entra a visita assustada.

A VISITA - Por favor, preciso de ajuda, eu me perdi. Estou tentando achar o caminho de volta para a casa nessa escuridão. De repente, alguém começou a me seguir e eu não tinha para onde fugir. Estava tudo deserto, alguém começou a me seguir e eu não tinha para onde fugir. Estava tudo deserto na noite, quando vi a luz acesa da janela lá de baixo e ...

("A" interrompe a visita, fazendo um sinal para a visita calar-se)

(Depois fecha e tranca a porta)

"B" - (Que vai ficar de costas para a visita durante quase toda a cena) Apague a luz.

(A luz muda de tonalidade)

A VISITA - Acendam alguma luz! Está tudo escuro! Parece que estou caindo nessa escuridão!

(Volta a luz anterior)

"A" - Como consegui subir até aqui?

A VISITA - Eu não me lembro.

" A" - Como não se lembra?

A VISITA - Só sei que quando vi o topo dessa montanha iluminada por essa janela, eu comecei a correr, a correr de um jeito que eu nem senti a minha perna... O que eu queria era chegar perto da luz.

"A" - Não deveria ter subido até aqui. Não na escuridão.

"B" - Foi uma distância muito longa e perigosa que você percorreu.

A VISITA - Mas lá debaixo, não me pareceu tão alto assim.

"A" - (Levando a visita até a janela) Por que não olha daqui?

A VISITA - (Mal chega a olhar, pois recua assustada) Mas isso é um abismo! Não consigo ver o chão... Como subi até aqui?

"B" - Já imaginou uma queda?

"A" - Deveria ter pensado nisso antes de subir.

A VISITA - A única coisa que eu queria, era me livrar da pessoa que estva me seguindo.

(Pausa)

"A" - Como era essa pessoa?

A VISITA - Estava muito escuro.

"B" - Não o bastante para nos dizer como ela era.

A VISITA - Me pareceu...

"A" - Familiar?

A VISITA - Familiar?

"B" - Apesar de estar com duas estranhas, você sabe o que é uma pessoa familiar, não sabe?

A VISITA - Acho que sei!

"A" - Acha ou sabe?

A VISITA - Eu... eu... sei.

"A" - Então?

A VISITA - O que?

"A" - Era ou não era familiar?

A VISITA - Não sei! Ela nem olhou pra mim!

"A" - Como se você nem existisse...

A VISITA - Era como se eu não existisse.

"B" - São nessas horas que as pernas vacilam...

A VISITA - Eu estava com muito medo de cair.

"B" - E aqui em cima o teu medo desapareceu?

(Longa pausa)

A VISITA - Pelo menos, não estou mais no escuro.

"A" - Mas você não pretende passar a noite inteira aqui, pretende?

A VISITA - Não. Só quero voltar pra casa... Assim que eu descançar um pouco. (Olha para a cadeira que está do lado direito da mesa) Posso?

"B" - Essa cadeira, fica sempre reservada para as nossas visitas.

A VISITA - Eu só estou querendo descançar um pouquinho.

"A" - Antes, seria bom que você soubesse quem são as nossas visitas.

A VISITA - Por quê?

"A" - Quem se daria o trabalho de vir num lugar como esse?

"B" - Aqueles que já cavaram os seus próprios abismos.

"A" - São essas ... as nossas visitas.

(Breve pausa)

"B" - Esta noite esperamos por uma.

A VISITA - Uma visita?

"A" - Nós nunca fazemos nada com as nossas visitas...

"B" - E mesmo assim, elas acabam caindo.

(Pausa)

"A" - A nossa visita, quando era mais jovem, tinha a mania de ficar em frente ao espelho...

A VISITA - Mas todo mundo fica.

"B" - Mas não fica brincando que era outra pessoa!

"A" - A nossa visita foi tão longe na brincadeira, que ela acabou vendo outra pessoa no espelho... E ela não reconheceu aquela pessoa.

"B" - Não era familiar.

"A" - Naquela noite ela não olhou mais no espelho.

"B" - Era como se a imagem não existisse...

"A" - Mas o fato de não reconhecer uma imagem não quer dizer que a imagem não existe.

"B" - E ao sair da frente do espelho e apagar a luz, ...

"A" - Ela deixou aquela pobre imagem sozinha...

"B" - E com muito medo, não tendo para onde ir...

"A" - A imagem procurou ajuda...

"B" - Mas ninguém apareceu...

"A" - E sozinha na escuridão... a imagem acabou caindo, caindo, caindo.

(Pausa)

"A" - Agora que você sabe um pouco sobre a nossa visita, pode sentar.

A VISITA - Não! Esta cadeira não me pertence!

"B" - Mas não queria descansar um pouco?

A VISITA - (Indo em direção a porta) Eu preciso voltar pra casa!

"A" - Não tinha alguém te seguindo?

A VISITA - Já deve ter me esquecido.

"B" - Eu não acharia isso...

(Quando a visita vai abrir a porta, suas pernas vacilam e ela começa a perder o equilíbrio. Se apoia na lateral direita do palco)

A VISITA - O que está acontecendo comigo?

"B" - Esta imaginado a sua queda e não consegue ver o chão... E você não para de cair.

A VISITA - Eu preciso de ajuda! Não tenho apoio!

"A" - A cadeira é toda sua.

A VISITA - Eu não quero esta cadeira! Eu não sou a visita!

"B" - Você está chegando perto da janela...

(Quando a visita percebe que está bem perto da janela, em desespero, quase perdendo o equilíbrio, vai até a cadeira e consegue sentar)

A VISITA - (Olhando para o chão e falando consigo mesma) Eu não posso ser a visita... não posso.

"B" - Agora que você está na cadeira que te pertence, não quero ficar aqui para ver o resto.

("B" sai pela cortina que leva para outro aposento. A visita viu que "B" saiu mas não pode ver o rosto dela)

A VISITA - Vocês estão me confundindo com outra pessoa?

"A" - Conhecemos bem as nossas visitas.

A VISITA - Por que eu vim parar aqui?

(Nesse instante, a cadeira de rodas que "B" usava é empurrada de volta para o palco, vindo pela cortina que leva para outro aposento. A cadeira pára quase no mesmo lugar que anteriormente estava. "B", continua fora de cena.)

"A" - (Olhando para a cadeira de rodas vazia) Pela minha vontade e dela que não foi.

A VISITA - Então pela vontade de quem?!

"A" - Que importa? O que importa é que estamos eternamente condenadas a receber visitas que nunca convidamos.

(Pausa)

A VISITA - (Aceitando a situação) Quem vai me jogar daqui?

(Som de alguém batendo na porta)

A VISITA - Já sei. ë a pessoa que estava me seguindo.

("A" pega a cadeira de rodas e vai até a porta. Ao abrir a porta", é "B" quem aparece e senta-se novamente na cadeira de rodas. "B" finalmente, fica de frente para a visita)

A VISITA - Era você que estava me seguindo! Mas... a cadeira de rodas... lá fora...

"B" - Lá fora eu não preciso desta maldita cadeira! Olhe bem para mim do mesmo modo como me olhou no espelho...Familiar?

A VISITA - Mas ...Era como se você não existisse.

"A" - Para mim e para ela, quem não vai existir mais é você.

A VISITA - Entendo... chegou a minha vez de cair.

"B" - Mas você já caiu. Não percebeu isso ainda.

"A" - Você está caindo a noite toda.

A VISITA - Eu tenho que parar de cair...

"B" - E você vai parar.

A VISITA - Quando?

"A" - Agora.

"B" - Você vai acordar.

A VISITA - Acordar?

"A" - É. Acordar.

"B" - Pode voltar para casa.

(Longa pausa)

(A visita se levanta, abre a porta e sai de cena).

(Assim que a visita sai, "A" fecha a porta. "B" pula para a sau penteadeira. Agora, ambas estão sentadas em frente das suas respectivas penteadeiras e começam a retirar a maquilagem)

"A" - Até que para ela acabou bem.

"B" - Vamos ver se acaba assim com a próxima.

"A" - Será que nunca vão parar de nos visitar?

"B" - Se não olhassemos mais no espelho...

"A" - Esse é o único jeito de descobrimos quem somos.

"B" - As vezes, em frente ao espelho, eu acho que estou quase conseguindo. Mas... você sabe o que acontece?

"A" - Sei. Aparecem as nossas visitas no espelho.

"B" - E temos que nos arrumar para elas...

( Som de vento. "A" se levanta e fecha a janela. Som de vento vai aumentado enquanto a luz diminui. "BLACKOUT". Som de vento forte)

 

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