Personagens:
A Visita
Anfitriã "A"
Anfitriã "B"
Cenário:
Um quarto, onde se vê duas velhas penteadeiras. Na direita está está sentada a
personagem "A" maquilando-se de costas para o público. No lado esquerdo.
também se maquilando e de costas para o público, está a personagem "B". Bem
próximo da penteadeira de "B", há uma cadeira de rodas e uma cortina indicando
uma saída para outro aposento. No centro do palco, uma mesa e do lado direito da mesa,
há uma cadeira. Completando o cenário, uma porta e uma janela no lado direito do palco.
Quando a luz acende, pode-se notar a decadência do lugar.
Som de vento forte, que vai diminuindo assim que a luz vai acendendo. Quando o palco
já está iluminado, o som de vento pára. "A"se levanta, vai até a janela, e
depois de abri-la, olha pela mesma. "A" volta para a sua penteadeira, e sem se
sentar, mexe nos próprios cabelos. Alguém bate nervosamente na porta. "A" vai
até a porta, antes de abri-la olha para "B". "B" passa para a cadeira
de rodas e fica de costas para a porta e de perfil para o público. "A" abre a
porta: Entra a visita assustada.
A VISITA - Por favor, preciso de ajuda, eu me perdi. Estou tentando achar o
caminho de volta para a casa nessa escuridão. De repente, alguém começou a me seguir e
eu não tinha para onde fugir. Estava tudo deserto, alguém começou a me seguir e eu não
tinha para onde fugir. Estava tudo deserto na noite, quando vi a luz acesa da janela lá
de baixo e ...
("A" interrompe a visita, fazendo um sinal para a visita calar-se)
(Depois fecha e tranca a porta)
"B" - (Que vai ficar de costas para a visita durante quase toda a
cena) Apague a luz.
(A luz muda de tonalidade)
A VISITA - Acendam alguma luz! Está tudo escuro! Parece que estou caindo
nessa escuridão!
(Volta a luz anterior)
"A" - Como consegui subir até aqui?
A VISITA - Eu não me lembro.
" A" - Como não se lembra?
A VISITA - Só sei que quando vi o topo dessa montanha iluminada por essa
janela, eu comecei a correr, a correr de um jeito que eu nem senti a minha perna... O que
eu queria era chegar perto da luz.
"A" - Não deveria ter subido até aqui. Não na escuridão.
"B" - Foi uma distância muito longa e perigosa que você
percorreu.
A VISITA - Mas lá debaixo, não me pareceu tão alto assim.
"A" - (Levando a visita até a janela) Por que não olha daqui?
A VISITA - (Mal chega a olhar, pois recua assustada) Mas isso é um
abismo! Não consigo ver o chão... Como subi até aqui?
"B" - Já imaginou uma queda?
"A" - Deveria ter pensado nisso antes de subir.
A VISITA - A única coisa que eu queria, era me livrar da pessoa que
estva me seguindo.
(Pausa)
"A" - Como era essa pessoa?
A VISITA - Estava muito escuro.
"B" - Não o bastante para nos dizer como ela era.
A VISITA - Me pareceu...
"A" - Familiar?
A VISITA - Familiar?
"B" - Apesar de estar com duas estranhas, você sabe o que é
uma pessoa familiar, não sabe?
A VISITA - Acho que sei!
"A" - Acha ou sabe?
A VISITA - Eu... eu... sei.
"A" - Então?
A VISITA - O que?
"A" - Era ou não era familiar?
A VISITA - Não sei! Ela nem olhou pra mim!
"A" - Como se você nem existisse...
A VISITA - Era como se eu não existisse.
"B" - São nessas horas que as pernas vacilam...
A VISITA - Eu estava com muito medo de cair.
"B" - E aqui em cima o teu medo desapareceu?
(Longa pausa)
A VISITA - Pelo menos, não estou mais no escuro.
"A" - Mas você não pretende passar a noite inteira aqui,
pretende?
A VISITA - Não. Só quero voltar pra casa... Assim que eu
descançar um pouco. (Olha para a cadeira que está do lado direito da mesa) Posso?
"B" - Essa cadeira, fica sempre reservada para as nossas
visitas.
A VISITA - Eu só estou querendo descançar um pouquinho.
"A" - Antes, seria bom que você soubesse quem são as nossas
visitas.
A VISITA - Por quê?
"A" - Quem se daria o trabalho de vir num lugar como esse?
"B" - Aqueles que já cavaram os seus próprios abismos.
"A" - São essas ... as nossas visitas.
(Breve pausa)
"B" - Esta noite esperamos por uma.
A VISITA - Uma visita?
"A" - Nós nunca fazemos nada com as nossas visitas...
"B" - E mesmo assim, elas acabam caindo.
(Pausa)
"A" - A nossa visita, quando era mais jovem, tinha a mania de ficar
em frente ao espelho...
A VISITA - Mas todo mundo fica.
"B" - Mas não fica brincando que era outra pessoa!
"A" - A nossa visita foi tão longe na brincadeira, que ela
acabou vendo outra pessoa no espelho... E ela não reconheceu aquela pessoa.
"B" - Não era familiar.
"A" - Naquela noite ela não olhou mais no espelho.
"B" - Era como se a imagem não existisse...
"A" - Mas o fato de não reconhecer uma imagem não quer dizer
que a imagem não existe.
"B" - E ao sair da frente do espelho e apagar a luz, ...
"A" - Ela deixou aquela pobre imagem sozinha...
"B" - E com muito medo, não tendo para onde ir...
"A" - A imagem procurou ajuda...
"B" - Mas ninguém apareceu...
"A" - E sozinha na escuridão... a imagem acabou caindo,
caindo, caindo.
(Pausa)
"A" - Agora que você sabe um pouco sobre a nossa visita, pode
sentar.
A VISITA - Não! Esta cadeira não me pertence!
"B" - Mas não queria descansar um pouco?
A VISITA - (Indo em direção a porta) Eu preciso voltar pra casa!
"A" - Não tinha alguém te seguindo?
A VISITA - Já deve ter me esquecido.
"B" - Eu não acharia isso...
(Quando a visita vai abrir a porta, suas pernas vacilam e ela começa a perder o
equilíbrio. Se apoia na lateral direita do palco)
A VISITA - O que está acontecendo comigo?
"B" - Esta imaginado a sua queda e não consegue ver o chão...
E você não para de cair.
A VISITA - Eu preciso de ajuda! Não tenho apoio!
"A" - A cadeira é toda sua.
A VISITA - Eu não quero esta cadeira! Eu não sou a visita!
"B" - Você está chegando perto da janela...
(Quando a visita percebe que está bem perto da janela, em desespero, quase
perdendo o equilíbrio, vai até a cadeira e consegue sentar)
A VISITA - (Olhando para o chão e falando consigo mesma) Eu não posso ser a
visita... não posso.
"B" - Agora que você está na cadeira que te pertence, não quero
ficar aqui para ver o resto.
("B" sai pela cortina que leva para outro aposento. A visita viu que
"B" saiu mas não pode ver o rosto dela)
A VISITA - Vocês estão me confundindo com outra pessoa?
"A" - Conhecemos bem as nossas visitas.
A VISITA - Por que eu vim parar aqui?
(Nesse instante, a cadeira de rodas que "B" usava é empurrada de volta
para o palco, vindo pela cortina que leva para outro aposento. A cadeira pára quase no
mesmo lugar que anteriormente estava. "B", continua fora de cena.)
"A" - (Olhando para a cadeira de rodas vazia) Pela minha
vontade e dela que não foi.
A VISITA - Então pela vontade de quem?!
"A" - Que importa? O que importa é que estamos eternamente
condenadas a receber visitas que nunca convidamos.
(Pausa)
A VISITA - (Aceitando a situação) Quem vai me jogar daqui?
(Som de alguém batendo na porta)
A VISITA - Já sei. ë a pessoa que estava me seguindo.
("A" pega a cadeira de rodas e vai até a porta. Ao abrir a porta",
é "B" quem aparece e senta-se novamente na cadeira de rodas. "B"
finalmente, fica de frente para a visita)
A VISITA - Era você que estava me seguindo! Mas... a cadeira de rodas... lá
fora...
"B" - Lá fora eu não preciso desta maldita cadeira! Olhe bem
para mim do mesmo modo como me olhou no espelho...Familiar?
A VISITA - Mas ...Era como se você não existisse.
"A" - Para mim e para ela, quem não vai existir mais é você.
A VISITA - Entendo... chegou a minha vez de cair.
"B" - Mas você já caiu. Não percebeu isso ainda.
"A" - Você está caindo a noite toda.
A VISITA - Eu tenho que parar de cair...
"B" - E você vai parar.
A VISITA - Quando?
"A" - Agora.
"B" - Você vai acordar.
A VISITA - Acordar?
"A" - É. Acordar.
"B" - Pode voltar para casa.
(Longa pausa)
(A visita se levanta, abre a porta e sai de cena).
(Assim que a visita sai, "A" fecha a porta. "B" pula para a sau
penteadeira. Agora, ambas estão sentadas em frente das suas respectivas penteadeiras e
começam a retirar a maquilagem)
"A" - Até que para ela acabou bem.
"B" - Vamos ver se acaba assim com a próxima.
"A" - Será que nunca vão parar de nos visitar?
"B" - Se não olhassemos mais no espelho...
"A" - Esse é o único jeito de descobrimos quem somos.
"B" - As vezes, em frente ao espelho, eu acho que estou quase
conseguindo. Mas... você sabe o que acontece?
"A" - Sei. Aparecem as nossas visitas no espelho.
"B" - E temos que nos arrumar para elas...
( Som de vento. "A" se levanta e fecha a janela. Som de vento vai
aumentado enquanto a luz diminui. "BLACKOUT". Som de vento forte)