O Museu da Solidariedade Salvador Allende
Ana Mae Barbosa
O Museu da Solidariedade do Chile surgiu como
movimento e conceito em 1971, mas só , em setembro de 1999 teve inaugurada a
sua sede. Todas as 1500 obras que constituem atualmente seu acervo foram doadas
pelos próprios artistas.
Tudo teve início com J. Maria Galvan e com o
brasileiro Mário Pedrosa que exilado no Chile começou a trabalhar febrilmente
para criar um museu internacional de arte contemporânea. Como vice-presidente
da Associação Internacional de Críticos de Arte presidiu o Comitê de Solidariedade Artística, destinado a criar
o Museu, entusiasticamente aprovado
pelo Presidente Allende que, em
sua “Mensagem aos artistas do mundo”, os conclamou a colaborarem com o processo
de transformação social do Chile mobilizando meios de “acelerar o desenvolvimento material e espiritual de suas
gentes”.
Em 1973 quando Allende foi assassinado, muitas das
384 obras que já haviam sido doadas estavam sendo expostas no Edifício
Gabriela Mistral e em um Museu de Arte
Contemporânea que já existia mas com um acervo pobre e principalmente nacional.
Aqueles que estavam envolvidos com o Museu da Solidariedade se exilaram e falou-se na imprensa que as obras haviam desaparecido . Entretanto estiveram todos estes anos na reserva técnica do Museu de Arte Contemporânea que foi fechado pela ditadura e reaberto posteriormente, em outro local. Uma tela de Frank Stella de grandes dimensões passou 27anos enrolada e escondida entre as obras do Museu de Arte Contemporânea. É, sem dúvida a mais importante obra de Stella em acervos abertos ao público da América Latina.
Enquanto esperavam no exílio em Paris que a
democracia voltasse ao Chile os criadores do museu constituíram um secretariado
composto por Miguel Rojas Mix, Pedro Miras, José Balmes, Miria Contreras ,
Mário Pedrosa e outros e continuaram
sua campanha de arrecadação de obras para o Museu da Solidariedade. Conseguiram
em torno de 700 obras.
Artistas como : Miro, Antônio Saura, César Baldaccini, Lígia Clark(um dos Bichos
),Sérgio Camargo, Cuevas, Calder, Chilida, Conagar, Cruz Diez,Figari,
Gamarra,Kitaj, Wilfred Lam, Julio Le Parc,Felipe Noé, Zoran Music,Oteiza, Claes
Oldenburg, Arthur Luis Pizza,Antonio Segui,Jesus Rafael Soto, Siqueiros,
Portocarrero, Soulages, Tapies,Torres Garcia , Vasarely e Vostell além do já
citado Frank Stella foram especialmente generosos(ou suas famílias) doando
obras significativas de suas respectivas
iconografias.
De artistas brasileiros, além dos já
mencionados, há obras também significativas de Sérvulo Esmeraldo, Franz
Krajcberg, Maurício Nogueira Lima, Flávio Shiró, Claudio Tozzi, etc
Nenhum artista caiu no pecado de alguns artistas
brasileiros de doar algo sem importância ao Museu só para atender um pedido ou
algo não significativo , por exemplo, obra criada para ser efêmera mas
oferecida ao museu para ver se dura mais um tempo ou ainda oferecida por ser de
grande formato e o artista não ter onde guardar.
As obras que os artistas do Museu da Solidariedade
Salvador Allende doaram são de alta qualidade e os representam
significativamente no acervo.
A mostra Espanhola ,que ocupa duas salas é quase
completa, representando muito bem as três
décadas 50,60 e 70 às quais o museu é dedicado. Os principais grupos de
vanguarda da Espanha estão representados de modo a serem claramente definíveis
através das obras que doaram. Os Grupos, Dau al Set de Barcelona, El Paso de
Madrid e Crónica de Valência exaltam abstração magicista, abstracionismo
escultórico geométrico e pop político na coleção. Aliás ,são muitas as obras
que fazem referência a problemas político-sociais, principalmente entre os anos
65 e 80
O Museu da Solidariedade pertence à Fundação Salvador
Allende dirigida pela filha do ex. presidente, Isabel Allende ( a novelista é a sua prima)
O edifício de quase 120 anos em que está
definitivamente instalado o Museu pertence à Prefeitura de Santiago e fica na
Calle Herrera,360. Foi restaurado por governos espanhóis municipais e lá
funcionou no passado uma Escola Normal . A antiga capela é um espaço destinado
à instalações e foi inaugurado pelo
trabalho Ex It de Yoko Ono que consta de 100 ataúdes de adultos e crianças ,
sem identificação, dos quais emerge uma árvore. Escuta-se cantos de pássaros
numa obvia alegoria ao ciclo da vida que no contexto específico pode ser
literalmente interpretada como alusão a matança dos anos 70 e ao renascimento
de hoje. Esta instalação está muito longe da qualidade das obras do acervo mas
funciona quase como exorcismo para o público.
Carmem Waugh é a diretora do museu . Nos anos de
exílio trabalhou na Nicarágua ,com o Ministro da Cultura Ernesto Cardenal,
formando um museu para o país.
Mário Pedrosa estaria muito feliz com a casa
definitiva do Museu da Solidariedade, o qual continua sem medo de pensamento político nas Artes e
continua engajado na educação do “Homem(/Mulher) Povo do Chile” como queria
Allende.
O trabalho de Educação começou mesmo antes do Museu
ter a sua sede
Já há algum tempo em um ônibus que cruza
constantemente o país ,chegando às regiões mais pobres, o Museu vem levando
obras e professores para mostrar Arte e
preparar o público para seu entendimento.
Ana Mae Barbosa