A História Geral da Arte no Brasil

 

Introdução

 

A história do ensino da arte no Brasil está marcada pela dependência cultural.

O primeiro produto cultural brasileiro de origem erudita foi o Barroco. Trazido de Portugal recebeu  através da criação popular  características que podem ser consideradas de cunho nacional. Os artistas e artesãos brasileiros  criaram um barroco com distinções formais em relação ao Barroco europeu. O ensino da arte barroca tinha lugar nas oficinas através do fazer sob  a orientação do mestre. A atividade de Manoel Dias de Oliveira (1764-1837), como professor da aula régia de desenho e figura em 1800, já introduzindo ao código neoclássico aprendido por ele na Europa, não chegou a interferir, nem de longe a abalar a corrente barroco-rococó dominante nas oficinas da Bahia, Minas Gerais e Pernambuco.

Estas oficinas eram a única de educação popular na época. A primeira institucionalização sistemática do ensino de arte foi a Missão Francesa, e o um dos poucos modelos com atualidade no país de origem no momento de sua importação para o Brasil. Quase sempre os modelos estrangeiros foram tomados de empréstimo numa forma já enfraquecida e desgastada.

 

 

 

Atualidade da Missão Francesa

 

 

Os integrantes da Missão Francesa que aqui chegaram em 1816 eram membros do Instituto de França que havia sido aberto em 1795 para substituir as velhas academias de arte suprimidas pela Revolução Francesa.

Sob a supervisão e a influência de David (1748-1825), o mestre do Neoclássico, o Instituto de França logo alcançou reputação superior à École des Beaux-Arts. Influenciou as escolas de toda a Europa por ser  metodologicamente a instituição mais moderna de seu tempo.

Por outro lado, o neoclássico, através do qual se expressavam os artistas da Missão Francesa quando para cá vieram organizar a nossa primeira escola de arte, era o estilo de vanguarda naquele tempo na Europa.

Todavia, os planos apresentados por Le Breton (1760-1819), chefe da Missão Francesa, para a Escola de Ciências. Artes e Ofícios, criada por decreto de D. João VI em 1816, eram de cunho mais popular que a orientação seguida no Instituto de França onde ele ensinava.

O projeto repetia os mais atuais modelos de ensino de atividades artísticas ligadas a ofícios mecânicos empregados na França por Bachelier em sua École Royale Gratuite de Dessin,  que existe até hoje com o nome de École Nationale des Arts Décoratifs.

Bachelier, que era mestre de decoração em porcelana da fábrica de Sèvres, conseguiu combinar e conciliar em sua escola (1767) métodos e objetivos de ensino de arte comuns às corporações  e às academias. Ele contornou a tradicional luta entre artistas e artesões, conseguindo apoio das academias para o seu trabalho pedagógico, exigindo, por exemplo, que os mestres de desenho de sua escola tivessem obtido prêmios da academia.

A experiência de Bachelier, muito comentada e aplaudida na Europa, levou países como a Alemanha e a Áustria a introduzirem o desenho criativo no treinamento das escolas para trabalhadores manuais e as escolas de Belas Artes a considerarem importante o ensino da geometria.

Era este casamento feliz entre as Belas Artes e as indústrias que Le Breton pretendia repetir no Brasil.

Pelos planos de Le Breton nossa escola de arte seria uma entidade que não perderia de vista o equilíbrio entre educação popular e educação da burguesia.

Entretanto, quando aquela escola começou a funcionar em 1826 sob o nome de Escola Imperial das Belas Artes, não só o nome havia sido trocado mas principalmente sua perspectiva de atuação educacional, tornando-se o lugar de convergência de uma elite cultural que se formava no país para movimentar a corte, dificultando, assim, o acesso das camadas populares à produção artística. A Escola Imperial das Belas-Artes inaugurou a ambigüidade na qual até hoje se debate a educação brasileira – isto é, o dilema entre educação de elite e educação popular. Na área específica de educação artística incorporou o dilema já instaurado na Europa entre arte como criação e técnica.

Em 1855, Araújo Porto Alegre (1806-79), baseado no ideário romântico, pretendeu revigorar a educação elitista que vinha tendo lugar na Academia Imperial das Belas-Artes através do contato com o povo. Pretendia sua reforma conjugar no mesmo estabelecimento escolar duas classes de alunos, o artesão e o artista, freqüentando juntos as mesmas disciplinas básicas. A formação do artista era alargada com outras disciplinas de caráter teórico, especializando-se o artífice nas aplicações do desenho e na prática mecânica.

A permanência dos velhos métodos e de uma linguagem sofisticada fez com que a procura popular por esses cursos fosse quase nula, assim como foi quase nula também a matrícula nos cursos noturnos para a formação de artesão criados em 1860 na academia. Nestes últimos, a simplificação curricular era quase pejorativa. Em ambos os casos a inclusão da formação do artífice naquela instituição era uma espécie de concessão da elite à classe obreira e por isso destinada ao fracasso.

Já o Liceu de Artes e Ofícios de Bethencourt da Silva ( 1831-1928), criado em 1856 no Rio de Janeiro, mereceu de pronto um alto grau de confiança das classes menos favorecidas, como atestou o grande número de matrículas já no primeiro ano de funcionamento. Couberam aos liceus de artes e ofícios, criados na maioria dos Estados, com pequenas variáveis do modelo do Liceu de Bethencourt da Silva, a  tarefa de formar não só o artífice mas os artistas que provinham das classes operárias.

Até 1870 pouco se contestou o modelo de ensino da arte da Academia Imperial das Belas-Artes, que foi em parte utilizado pela escola secundária.

Nas escolas secundárias particulares para meninos e meninas, imperava a cópia de retratos de pessoas importantes e santos e a cópia de estampas, em geral européias, representando paisagens desconhecidas aos nossos olhos acostumados ao meio ambiente tropical.

Estas paisagens levavam os alunos a valorar esteticamente a natureza européia e depreciar a nossa pela rudeza contrastante.

É interessante notar que no século XIX poucos países do Novo  Mundo instituíram o ensino da arte para meninos nas escolas de elite. O mais comum é que a arte tivesse lugar apenas nas escolas de meninas de alta classe.

No Brasil isto ocorreu porque a elite brasileira esteve no período colonial mais ligada aos modelos aristocráticos do que aos modelos burgueses como nos outros países americanos.

Segundo o modelo aristocrático, arte era indispensável na formação dos príncipes. D. João VI deu o exemplo quanto contratou Pallière (1823-87) para ensinar desenho aos príncipes.

Seguindo este padrão, a arte foi incluída em 1811 no currículo do colégio do padre Felisberto Antônio Figueiredo de Moura, uma escola para rapazes no Rio de Janeiro que determinou o modelo de educação para meninos de alta classe na época.

O conteúdo e a função da arte nestas escolas foi sugerido por Raul Pompéia no seu livro O ateneu.

A apresentação da exposição anual era o objetivo das aulas de arte e se constituía numa espécie de símbolo de distinção para a  escola. Raul Pompéia, que foi desenhista e romancista, nos comunica através de sua linguagem sensível o clima de uma exposição escolar no século XIX, numa escola de meninos de classe alta.

Para a exposição dos desenhos foram retiradas as carteiras da sala de estudos forradas de metim escuro, paredes e os grandes armários. Sobre este fundo, alfinetaram-se as folhas de Carson, manchadas a lápis pelo sombreado das figuras, das paisagens, pregaram-se nas molduras de friso de ouro, os trabalhos reputados dignos desta mobilização.

Eu fizera o meu sucessinho no desenho, e a garatuja evoluíra no meu traço, de modo a merecer econômicos. A princípio, o bosqueiro simples, linear experiência da mão; depois, os esbatimentos de tons que consegui logo com um matiz de nuvem; depois, as vistas de campo, folhagem rendilhada em bicos, pardieiros em demolição pitoresca da escola francesa, como ruínas de pau pobre, armadas para os artistas. Depois de muito moinho velho, muita vivenda de palha, muito casarão deslombado, mostrando misérias como um mendigo, muita pirâmide de torre aldeã esboçada nos últimos planos, muita figurinha vaga de camponesa, lenço em triângulo pelas costas, rotundas ancas, saias grossas em pregas, sapatões em curva, passei ao desenho das grandes cópias, pedaços de rosto humano, cabeças completas, cabeças de corcel; cheguei a ousadia de copiar com toda a magnificência das sedas, toda a graça forte do movimento, uma cabra de Tibete !

Depois da distinção do curso primário, foi esta cabra o meu maior orgulho. Retocada pelo professor, que tinha o bom gosto de fazer no desenho tudo quanto não faziam os discípulos, a cabra tibetana, meio metro de altura, era aproximadamente obra-prima. Ufanava-me do trabalho. Não quis a sorte que me alegrasse por muito. Negaram-me a bela cabra a moldura dos bons trabalhos; ainda em cima – considerem o desespero ! exatamente no dia da exposição, de manhã, fui encontrá-la borrada por uma cruz de tinta, larga, de alto a baixo, que a mão benigna de um desconhecido traçara. Sem pensar mais nada, arranquei à parede o desgraçado papel e  desfiz em pedaços o esforço de tantos dias de perseverança e carinho.

Quando os visitantes invadiram a sala, notaram na linha dos trabalhos suspensas duas enigmáticas pontas de papel rasgado. Estranhavam, ignorando que ali estava, interessante, em último capítulo, a história de uma cabra, de uma obra-prima que fora.

As exposições artísticas eram dois em dois anos, alternadamente com as festas dos prêmios. Conseguia-se assim uma quantidade fabulosa de papel riscado para maior riqueza das galerias. Cobria-se o metim desde o assoalho até o teto. Havia de tudo, não só desenhos. Alguns quadros a óleo, do Altino, risonhas aquarelas acidentando a monotonia cinzenta do Faber, do Conte, do fusain. Os futuros engenheiros aplicavam-se à aguadas de arquitetura, aos desenhos coloridos de máquinas.

Entre as cabeças a crayon  retinto, crinas de gineto, felpas de onagro lanzudo, inclinando o funil das orelhas, cerdosas frontes hirsutas de javali, que arreganhavam presas, perfis de audácia em colarinhos de renda, abdas atrevidas de feltro, plumas revoltadas, fisionomias de marujo, selvagens, arrepiadas, num sopro de borrasca, barbas incultas, carapuça esmurrada sobre a testa, cachimbo aos dentes; entre todas estas caras, avultava uma coleção notável de retratos do diretor.

O melindroso assunto fora inventado pela gentileza de um antigo mestre. Preparou-se modelo; um aluno copiou com êxito; e depois, não houve mais desenhista amável que não entendesse dever ensaiar-se na respeitável verônica. Santo Deus ! que ventas arranjavam ao pobre Aristarco ! Era até m esforço ! Que olhos de blefarite ! que bocas de beiços pretos ! que calúnia de bigodes ! que invenção de expressões aparvalhadas para o digno rosto do nobre educador !

Não obstante, Aristarco sentia-se lisonjeado pela invenção. Parecia-lhe ter na face a cocegazinha sutil do crayon passando, brincando na ruga mole da pálpebra, dos pés-de-galinha, contornando a concha da orelha, calcando a comissura dos lápis, entrevista na franja dos fios brancos, definindo a severa mandíbula barbeada, subindo pelas dobras oblíquas da pele ao nariz, varejando a pituitária, extorquindo um espirro agradável a desopilante.

Por isso eram acatados os desenhistas de verônica.

Os retratos todos, bons ou maus, eram alojados indistintamente nas molduras de recomendação. Passada a festa, Aristarco tomava ao quadro o desenho e levava para casa. Tinha-os já às resmas. Às vezes, em momentos de spleen, profundo spleen de grandes homens, desarrumava a pilha; forrava de retratos, mesas, cadeiras, pavimento. E vinha-lhe um êxtase de vaidade. Quantas gerações de discípulos lhe havia  passado pela cara ! Quantos afagos de bajulação a efígie de um homem eminente ! Cada papel daqueles era um pedaço de  ovação, um naco apoteose.

E todas aquelas coisas feitas animavam-se e olhavam brilhantemente. “Vê, Aristarco, diziam em coro, vê, nós aqui somos tu, e nós to aplaudimos!” E Aristarco, como ninguém na terra, gozava a delícia inaudita, ele incomparável, único capaz de bem se compreender e de bem se admirar – de ver-se aplaudido em chusma por alter-egos, glorificado por uma multidão de si-mesmos. Primus inter pares.

Todos, ele próprio, todos aclamando-o. 1

Contrários ao uso da arte na escola como adorno cultural, alguns liberais a partir de 1870, e principalmente na década de 1880, defenderam a idéias de que uma educação popular para o trabalho deveria ser o principal objetivo da arte na escola e iniciaram uma campanha para tornar o desenho obrigatório no ensino primário e secundário.

Entretanto, se propunha dar um conhecimento técnico de desenho a todos os indivíduos de maneira que, libertados da ignorância, fossem capazes de produzir suas invenções.

Educar o ‘instituto da execução’ para evitar que ele se tornasse um impedimento à objetivação da invenção era o princípio básico, isto é, primeiro aprender como trabalhar, depois aplicar as habilidades técnicas solucionando os problemas e dando forma concreta às criações individuais.

 

 

 

Os liberais e o ensino de arte anti-elitista

 

 

Em torno de 1870, um surto de desenvolvimento econômico propiciou alguma abertura na organização social e expansão de algumas idéias contestadoras. A criação do partido republicano naquele ano abriu uma fase de severas e sistemáticas críticas contra muitos aspectos da organização do império, incluindo a situação educacional.

Ao mesmo tempo, eram freqüentes os discursos feitos pelos abolicionistas acerca da necessidade de se estabelecer uma educação para o povo e para os escravos, demonstrando a preocupação com os seu futuro depois de libertos.

Os principais temas educacionais discutidos eram a alfabetização e a preparação para o trabalho.

A necessidade de um ensino da arte apropriado era referida como um importante aspecto da preparação para o trabalho industrial.

Na busca de um modelo que estabelecesse a união entre criação e técnica, isto é, entre arte e sua aplicação a indústria, os intelectuais e políticos (especialmente os liberais) brasileiros se comprometeram profundamente com os modelos da Walter Smith para o ensino da arte nos Estados Unidos que passaram a divulgar no Brasil.

Os principais divulgadores de Walter Smith no Brasil foram o jornal O Novo Mundo; Rui Barbosa, nos seus Pareceres sobre a reforma do ensino primário e secundário,  e Abílio César Pereira Borges através de seu livro Geometria popular.

A popularização do ensino da arte, concebido como ensino do desenho, era o objetivo da orientação que o inglês Walter Smith imprimia aos seus escritos e suas atividades como organizador do ensino da arte em Massachusetts (EUA). Influenciado pelas idéias de Redgrave e Dyce, de quem foi aluno na South Kensington School of Industrial  Drawing and Crafts em Londres, da qual só resta hoje o Victoria and Albert Museum.  Smith chegou a se demitir do cargo de professor da Leeds School of Art quando a instituição (1868) começou a  subverter os objetivos para os quais havia sido criada, ou seja, vincular a arte à educação popular, para enveredar pelo caminho do ensino da arte como verniz cultural obedecendo aos caprichosos desejos da classe média.

O Novo Mundo destacou em várias notícias e artigos o aspecto de democratização da arte que caracteriza a ação de Walter Smith em Massachusetts, para onde ele era contratado com carta branca para organizar o ensino da arte.

Tinha O Novo Mundo grande importância cultural no Brasil daquela época. Trata-se de um jornal publicado por José Carlos Rodrigues, em Nova York (1872-1889) e escrito em Português.

Muitos dos mais importantes escritores brasileiros trabalharam neste periódico, como Machado de Assis e Sousândrade, que era também secretário do jornal.

O principal objetivo do jornal era vender produtos americanos e o  american way of life no Brasil, apresentando as instituições sociais americanas como modelos para a sociedade brasileira.

A mais elogiada instituição americana era a educação. No campo da educação, foi dado especial relevo à divulgação da educação feminina e da arte-educação.

Impregnado da moral protestante, apresentava a arte e o trabalho como veículo de educação e valorizava a educação para as artes industriais ao extremo.

André Rebouças escreveu para O Novo Mundo longos artigos defendendo a necessidade de se tornar compulsório, como Smith havia conseguido em Massachusetts, o ensino do desenho geométrico com aplicações à indústria.

Um número especial de O Novo Mundo foi publicado acerca da Centennial Exhibition de 1876 em Filadélfia, onde se destacavam os trabalhos apresentados pela Escola Normal de Artes, criada e dirigida por Smith, assim como os trabalhos de 24 cidades de Massachusetts, todas elas orientadas em seu ensino de arte por Smith.

O Novo Mundo em geral destacava a importância dada por Smith aos exercícios geométricos progressivos no ensino do desenho, sua idéia de que todo mundo tinha capacidade para desenhar e sua crença no ensino do desenho como veículo de popularização da arte através da adaptação a fins industriais, colaborando para a qualidade e prosperidade da produção industrial.

Rui Barbosa subscreveu as idéias de Smith nos Pareceres sobre a reforma da educação primária e secundária. Chegou mesmo a traduzir um longo texto do seu livro Art education: scholastic and industrial 4 que incluiu nos Pareceres como justificativa teórica para a supremacia que confere ao desenho em relação às outras disciplinas do currículo.

É ainda em Walter Smith que se baseou para traçar as recomendações metodológicas para o ensino do desenho.

Inspirado nas idéias defendidas por Rui Barbosa, o educador Abílio César Pereira Borges publicou uma Geometria popular que é uma espécie de sumário do Teacher’s manual for free hand drawing5 de Walter Smith.

O estudo propunha que o desenho começasse por linhas verticais, horizontais, oblíquas, paralelas, enfim, pelo que Smith, citado por Borges, chamava de alfabeto do desenho.

Seguia-se o estudo dos ângulos, triângulos, retângulos, numa gradação idêntica à proposta por Smith, acompanhando o traçado com definições geométricas como o próprio Smith recomendava. Seguiam-se ditados e exercícios de memória idênticos aos do livro de Smith.

Depois de estudar quadrados e polígonos, ele introduzia ornamentos e análises de folhas em superfície plana. Os exemplos botânicos eram organizados em forma de diagramas exatamente como o livro de Smith.

Ele ainda propunha o traçado de gregas, rosáceas, repetições verticais, repetições horizontais, formas entrelaçadas, seguindo mais uma vez Smith.

Alguns objetos simples (vasos de água, bacias etc.) tendo formas geométricas como Walter prescrevia, eram propostos para desenhar.

Finalmente, eram apresentados ornamentos e elementos arquitetônicos em diagrama (portais, arcos, colunas) de diferentes períodos, principalmente barrocos e neoclássicos. Os ornamentos como motivos para o trabalho em ferro eram também usados por Smith. Os elementos arquitetônicos não eram apresentados no seu manual mas foram recomendados por ele no livro Art education: scholastic and industrial.

O livro de Abílio César Pereira Borges teve, no mínimo, 41 edições e foi usado em escolas pelo menos até 1959. O objetivo do livro, explicitado por ele próprio, era propagar o ensino do desenho geométrico e educar a nação para o trabalho industrial.

Já os positivistas, atrelados ao evolucionismo, defendiam a idéia de que a capacidade imaginativa deveria ser desenvolvida na escola através do estudo e cópia dos ornatos, pois estes representavam a força imaginativa do homem em sua evolução a partir das idades primitivas.

No ensino do desenho, portanto, dominava o traçado de observação de modelos de ornatos em gesso. Recomendavam que se devia começar pelos baixos-relevos compostos por linhas retas, porque esta composição de ornatos era a mais sumária e correspondia à expressão ornamental dos povos primitivos da Oceania e África, para depois passar para os modelos em curvas e linhas caprichosas encontráveis na decoração de povos mais evoluídos, como os índios peruanos e mexicanos, e só então introduzir o alto-relevo representando figuras da fauna e da flora, expressão mais complexa, características dos gregos no início de sua história.

Como os liberais haviam ganho a corrente positivista durante as lutas pela Reforma Republicana na Escola Nacional de Belas-Artes (1890), também eles conseguiram impor sua diretriz ao ensino do desenho na escola secundária através da reforma educacional de 1901, consubstanciada no Código Epitácio Pessoa.

Esta lei transcreve sucintamente as propostas de Rui Barbosa para o ensino do desenho, usando muitas vezes as mesmas palavras dos Pareceres.

Ë portanto o modelo de Walter Smith, cujos conteúdos já haviam entrado no circuito da educação brasileira através de Abílio César Pereira Borges, que a partir de então teríamos imperado nos ginásios brasileiros.

São conteúdos que permaneceram quase imutáveis até 1958, atravessando várias reformas educacionais e ainda há resquícios deles nas aulas de arte Os exercícios foram preservados através dos livros  didáticos de educação artística..

Em quase todos os livros de educação artística para o 1º grau, editados (décadas de 70, 80 e mesmo 90 ), ainda encontramos gregas, rosáceas, frisas decorativas etc., um remanescente das propostas de Walter Smith consagradas pelo Código Epitácio Pessoa.

É curioso a aprendizagem destes elementos decorativos,  tinha sentido no início do século, já que se pretendia através do desenho preparar para o trabalho e a arquitetura era generosa na utilização de ornatos sobrepostos para cuja criação e execução as rosáceas seriam exercício preparatório. Por outro lado, as paredes internas das casas ostentavam complicadas faixas decorativas em suas pinturas. Ainda mais, estes motivos eram também fartamente usados nas artes gráficas.  Hoje pouco se  justifica sua permanência como exercício escolar. Alguns voltariam a ter sentido no contexto da Pós Modernidade se os autores destes livros tivessem consciência da recuperação atual de alguns modelos visuais do início do século.

 

O Modernismo

 

A Semana de 22 ,que introduziu o Brasil estrondosamente no Modernismo,não repercutiu de imediato no Ensino da Arte.

Quando a partir de 1927, o ensino da arte volta a ser objeto de discussões isto se deveu principalmente a modernização educacional.

Com a crise político-social contestatória da oligarquia e a tentativa de instauração de um regime mais democrático, uma reflexão sobre o papel social da educação aflora novamente.

Desta vez é a educação primária e a escola que se tornam o centro das atenções reformistas através do movimento que ficou conhecido pelo nome de ‘escola nova’.

Defendeu-se, então, o mesmo princípio liberal de arte integrada no currículo, ou melhor, de arte na escola para todos. Entretanto, enquanto os liberais tinham como objetivo o ensino dos aspectos técnicos do desenho para preparar para o trabalho, a ‘escola nova’ defendia a idéia da arte como instrumento mobilizador da capacidade de criar ligando imaginação e inteligência.

Os pressupostos teóricos para  a valorização da arte na ‘escola nova’ foram principalmente inspirados em John Dewey e defendidos por seu ex aluno Anísio Teixeira  e incorporados às Reformas Educacionais do Distrito Federal de Fernando Azevedo e pelas de Atílio Vivacqua no Espírito Santo, de Carneiro Leão em Pernambuco e Francisco Campos em Minas Gerais

As interpretações diversificadas de suas idéias conduziram a caminhos distintos no ensino da arte no ensino da arte no Brasil: a observação naturalista, a arte como expressão de aula como introjeção da apreciação dos elementos do desenho (deturpada na prática do desenho pedagógico).

Algumas experiências como as de Mário de Andrade , criando atelieres para crianças nas bibliotecas infantis, quando exerceu a função  equivalente a  Secretario de Cultura de São Paulo , as classes de Arte de Anita Malfatti na Escola Americana , hoje Makenzie e a criação de Escolas de Arte para crianças bem dotadas em Arte pelo Jornal A Tarde  em São Paulo foram significativas mudanças cuja dissiminação  foi interrompida pelo golpe de Estado que instituiu a ditadura do Estado Novo.

Com a Ditadura muitos educadores foram perseguidos e uns poucos ex reformadores se aliaram a ditadura para defender outros interesses, não os da criança

 

 

Influência de John Dewey

 

 

Os primeiro escritos de Dewey sobre arte e ensino da arte podem ser classificados como naturalistas, e foram exatamente estes escritos que maior influência exerceram sobre a arte-educação no Brasil. O divulgador desta fase do pensamento estético de Dewey foi Nereo Sampaio, um  professor de desenho da Escola Normal do Rio de Jaineiro. Em 1929, Nereo Sampaio defendeu sua tese de cátedra, intitulada Desenho espontâneo das crianças: considerações sobre sua metodologia, onde enunciava  o chamado método espontâneo-reflexivo para o ensino da arte, apontando como pressuposto teórico as idéais de  Dewey expressas em The school and society6 (1900). Neste livro, Dewey recomenda a estimulação dos impulsos naturais da criança para o desenho através dos processos mentais de reconhecimento e  reflexão. Nereo Sampaio declarava que seu método consistia em deixar a criança se expressar livremente, desenhando de memória e depois faze-la analisar visualmente o objeto desenhado pra, em seguida, executar um segundo desenho integrado, neste último, elementos observados do objeto real. O autor tenta resumir em sua tese as idéias de Dewey que embasavam seu método.

John Dewey foi quem, realmente, compreendeu o alto valor educativo da linguagem gráfica das crinaças. No seu livro A escola e a sociedade, no capítulo sobre “a escola e a vida da criança”, referindo-se aos vários interesses ou instintos da criança, abordou a questão do desenho com tal clareza, que o caminho pedagógico ficou nitidamente traçado. Depois das palavras de Dewey o problema somente exigia as experiências necessárias à formação de sua metodologia. Vejamos em resumo o pensamento de Dewey e a orientação que indicou. Diz ele: “é comum vermos nas crianças o desejo de se expressarem pelo desenho e pela cor. Se nos limitarmos a condescender com esse instinto, deixando que atue indefinidamente, não há procedimento mais acidental. É necessário, mediante a crítica, as sugestões e as perguntas, excitar a consciência do que fez e do que deve fazer, porque o resultado será satisfatório. Por exemplo, o desenho das árvores é convencional: uma linha vertical e os ramos em retas inclinadas sobre a vertical de um e outro lado. Levemos a criança a observar as árvores para compará-las com os desenhos feitos e, assim, examinarem concisamente as condições de representação do seu trabalho. Então, desenhará árvores observadas e não convencionais, porque a observação obriga ao trabalho combinado da memória e imaginação, produzindo expressões gráficas de árvores reais7.

 

Nereo Sampaio fez algumas pesquisas, para validar sua metodologia com crianças de escolas primárias no Rio de Janeiro, conseguindo convencer acerca da eficiência de seu método para desenvolver a qualidade da expressão.

A Reforma Educacional de Fernando de Azevedo, no Distrito Federal (1929), recebeu direta influência do trabalho e idéias de Nereo Sampaio e cristalizou, através da recomendação metodológica explícita, o desenho espontâneo, seguido de apreciação naturalista, que vem sendo praticado em nossas escolas até hoje. Como sabemos, a Reforma Fernando de Azevedo teve larga influência em  todo o Brasil através do trabalho divulgador da ABE (Associação Brasileira de Educação) e  do livro escrito pelo próprio Fernando de Azevedo: A cultura no Brasil.

Outra iniciativa que muito influenciou a arte-educação brasileira foi a Reforma Francisco Campos (1927-19290 EM Minas Gerais. Esta reforma divulgou outra linha de interpretação do pensamento deDewey sobre ensino da arte, marcadamente a idéia de apreciação como processo de integração de experiência. Não foi propriamente o texto geral desta reforma que divulgou esta abordagem, mas principalmente as atividades desenvolvidas para sua implementação por um grupo de professores especialmente contratados da Bélgica e de Genebra (Instituto-Jecques Rosseau). É curioso que entro os sete professores estrangeiros contratados dois eram professores de arte – Jeanne Milde e Artus Perrelet -, o que demonstrava a importância dada à arte na escola pela reforma mineira.

Artus Perrelet tinha uma orientação metodológica para o ensino da arte basicamente influenciada pelas idéias de John Dewey, expressas em Democracia e educação 8 e Affective thought9. Sua concepção de desenho como integração de corpo e mente, experiência e raciocínio, gesto e visão, vida e símbolo, indivíduo e meio ambiente, sujeito e  objeto, era centrada na idéia de integração orgânica da experiência. Esta integração era proposta por Perrelet em seu livro O desenho a serviço da educação10 (traduzido no Brasil em 1930), e, segundo seu método, se dará através da apreciação dos elementos do desnho em movimento. A autora propunha, por exemplo, que se levasse a criança a perceber a função da linha curva em seu próprio movimento, ao apanhar um flor no chão ou carregar um saco pesado, para depois desenhar o corpo em flexão procurando revelar a expressão da linha sem preocupações de detalhes. Podemos dizer que ela foi precursora de  algumas idéias de Arnheim quando afirmava que o importante na representação gráfica não é a descrição  de detalhes realísticos mas a expressão da linha. O seu livro está repleto de desenhos expressivos, porém muito esquemáticos, porque era exatamente à libertação da camisa-de-força da representação realística que ela procurava levar suas crianças.

Sua influência no Brasil se deu a partir dos resultados dos trabalhos das crianças que ela apresenta e não de suas idéias. Como o resultado dos trabalhos sob sua orientação era esquemático, começou-se a ensinar às crianças a desenhar esquematicamente, e surgiu nas escolas o desenho pedagógico que consistia em levar os alunos a copiarem da lousa esquemas de figuras feitos pelo professor.

A proposta metodológica de Perrelet para o ensino do desenho era fundamentalmente a percepção e introjeção apreciativa da função e expressão dos elementos do desenho. O traçado de uma forma era secundário e fase final de um longo processo de sensibilização, reflexão e ação, algo semelhante ao que hoje é feito nos projetos que procuram relacionar artes visuais e expressão corporal, artes visuais e som etc.

No seu livro há o exemplo de um trabalho com ritmo que é feito ainda hoje em nossas escolas.

 

 

“Trata-se, pois, de conseguir a atenção das crianças para os ritmos que as rodeiam; ritmos infinitamente variados, para cuja pesquisa, em si só, altamente as diverte. O primeiro estudo consistirá numa explicação do professor que deverá expor aos alunos o objeto que se lhes propõe a perspicácia. Há em torno deles, no decurso do dia, um número considerável de coisa, de movimentos, de sons, que se repetem de maneira regular. Registremos metodicamente esses fatos e veremos se não é possível exprimi-los pelo desenho. Assim, sem que seja preciso sair desta sala, as crianças poderão notar os golpes regulares de um batedor de tapetes, além, por sobre o telhado vizinho, o ruído de pessoas na rua, o tique-taque de um relógio e o movimento regular da respiração. Pouco importa que essas repetições se apresentem, no começo, com elementos iguais, será melhor que não  se chame para eles a atenção do aluno, dando-se por muito o conseguirem distinguir as três coisas que se repetem regularmente, das mil outras coisas que se sucedem sem nenhum caráter rítmico.

Para a aula seguinte trarão uma coleção de lembranças. Um deles terá visto o pistão de uma locomotiva, que crescia e sumia alternativamente; outro terá ouvido o taque-taque de uma gota de chuva, a vassoura de um limpador de rua, passando e repassando; tal outro, o ruído de uma serra ou as marteladas de um caldereiro. Descobrem assim mui variados exemplos. Tenho diante dos olhos observações que me foram trazidas por meus alunozinhos, entre elas, encontro: o movimento regular de uma máquina de impressão (ritmo visual), o de um pêndulo, o de uma roda, o de um ceifador, o reluzir periódico do farol de Genebra, o ruído de um motor, passos numa escada, o som de um sino, e inúmeros outros que atestam o interesse que as crianças põem nesta investigação e o esforço que a ela dedicam.

Agora que temos em mãos copioso material, vamos empregá-los em nossos desenhos e composições. Pediremos a cada aluno que imite as repetições que notou, ou que as explique, se forem de sentidos outros que não a audição. Não raro o aluno escreve as suas impressões. Tenho ainda em minha coleção as seguintes frases, em letras grandes, apresentadas em aula, e que contém onomatopéias de uma encantadora justeza de evocação:

-          “O lenhador faz: uf, pan. É um rítmo em dois tempos. O serrador faz: zif, zif... É um ritmo em dois tempos. Ouvi um homem que raspava os saibros do jardim, quando trabalhava: fazia assim: cre, cre, cre, um, um, dois.

-          Estou patinando:ui,ui. Finco pregos: tap, tap.

O relófio bate: r, r, dzing.

Quando ando, ouço: um dois, um dois. Quando respiro: um dois, um dois. O gongo faz: dong, dong, dong, um, dois, três. Ouvi um cavalo que trotava: trótró-tró, trótró-tró.

Começaremos por dar aos petizes algumas fichas de papel de várias cores, pedindo-lhes que as disponham em frisa, repetindo os diversos ritmos em voz alta. Destarte é preferível que utilizem, a princípio, os ritmos auditivos, os quais exigem menor raciocínio que os outros, além de mais sedutores. As crianças imaginam por si mesmas a maneira de ilustrar os ritmos. Gruparão naturalmente, espontaneamente, as figuras, as fichas etc., da mesma maneira por que estão grupados os sons ouvidos, deixando espaços em branco, correspondentes aos intervalos de silêncio.

Enquanto tratam só de repetições monótonas, ou não dão atenção aos tempos fortes, a única coisa que lhes cumpre fazer é reunir no espaço as fichas móveis, conforme imaginam que se sucedem os sons no tempo; e não devemos supor seja isto uma abstração fora do alcance dos pequerruchos. Muito pelo contrário, estes possuem uma profunda intuição do ritmo, e não existem, em seu espírito, empecilhos entre estas diversas manifestações. Ritmos visuais e ritmos auditivos são uma única coisa para eles, e nunca tive dificuldade em conseguir que representassem uns pelos outros. Não me lembra Ter encontrado um único que hesitasse exprimir um grupo de três sons por outro de três fichas, ou vice-versa; e, assim que completam a frisa, as crianças reproduzem, vocalmente, o ritmo, acompanhando o desenho com os olhos, como se estivessem diante de uma parte de música, e do mesmo modo, aliás, por que haviam cantado para sua elaboração.

Mas no momento em que as crianças descobrirem a presença de tempos fortes no ritmo, ou lhes chamarmos a atenção para eles, compreenderão que é necessário destacar esses tempos fortes. A engenhosidade toma então livre curso e cumpre deixar suas impressões manifestarem-se livremente.

Deste modo, longe de levarmos os alunos à doação de uma como representação simbólica convencional e cotidiana, de que resultaria uma espécie de registro automático de sinais visíveis fixos, correspondentes a cada sensação visual – o que traria resultados pedagógicos nefastos e o inconveniente de determinar uma monotonia deplorável de execução -, será bom que se peça aos alunos que exprimam os ritmos conforme entenderam. Obter-se-ão, assim, motivos variados, cada qual com um encanto especial de originalidade. Uns diferenciam os tempos fortes pela forma; outros pela cor; outros pelo tamanho; outros ainda pela posição; outras tantas soluções a que recorrerão os pequenos decoradores, principalmente se cogitarmos da representação da melodia, que, por muitas vezes, se prende ao ritmo e que pode entrar na disposição de nossos motivos.

É de absoluta necessidade apelarmos para o sentimento das crianças. Cada uma das observações que elas nos trazem apresenta ou pode apresentar um caráter impressionante que não devemos desprezar. Consegue-se, por perguntas, a manifestação dessas impressões infantis; e elas serão um guia na escola  das cores, das formas, dos sinais e sobre elas se baseará toda e qualquer execução – nossa composição terá, assim, uma nota própria, uma tonalidade geral e evocadora”.

 

Através de uma deturpação do trabalho desenvolvido por Perrelet, o desenho pedagógico tiranizou a capacidade de criação de nossas crianças durante pelo menos duas décadas.

Outra vertente da influência de Dewey na arte-educação veio de sua idéia de arte como experiência consumatória. Identificou-se este conceito com a idéia de experiência final, conclusiva, não só no Brasil, mas também nos Estados Unidos, nas Progressive Schools supostamente inspiradas em Dewey.

A consolidação desta idéias veio da Reforma Carneiro Leão, em Pernambuco, mas foi extrema, e ainda hoje largamente difundida no Brasil. No livro de José Scaramelli, Escola nova brasileira: esboço de um sistema,11 onde ele dá os pressupostos teóricos da Reforma Carneiro Leão e muitos exemplos práticos de aulas, a função da arte está precisamente delineada invocando de arte como “experiência consumatória” de Dewey.

De acordo com as descrições de Scaramelli, a arte era usada para ajudar a criança a organizar e fixar noções apreendidas em outras áreas de estudo.

A expressão através do desenho e dos trabalhos manuais era a última etapa de uma experiência para completar a exploração de um determinado assunto.

A idéia fundamental era dar, por exemplo, uma aula sobre peixes explorando o assunto em vários aspectos e terminando pelo convite aos alunos para desenharem peixes e fazerem trabalhos manuais com escamas, ou ainda dar uma aula sobre horticultura e jardinagem e  levar as crianças a desenharem um jardim ou uma horta. Esta linha de trabalho foi também muito explorada na Escola Regional de Merity, um dos modelos da ‘escola nova’.

A prática de colocar arte (desenho, colagem, modelagem etc.) no final de uma experiência, ligando-se a ela através de conteúdo, vem sendo utilizada ainda hoje na escola do 1º grau no Brasil, e está baseada na idéia de que a arte pode ajudar a compreensão dos conceitos porque há elementos efetivos na cognição que são por ela mobilizados.

 

Arte para crianças e adolescentes como atividade extracurricular

 

É no início da década de 1930 que temos as primeiras tentativas de escolas especializadas em arte para crianças e adolescentes, inaugurando o fenômeno da arte como atividade extracurricular. Em São Paulo, foi criada a Escola Brasileira de Arte dirigida por Theodoro Braga, onde crianças de 8 a 14 anos podiam gratuitamente estudar música, desenho e pintura. A orientação era vinculada à estilização da flora e fauna brasileiras.

Uma orientação baseada na livre expressão e no espontaneísmo só  se iniciaria nas aulas para crianças que Anita Malfatti (1860 – 1964) em 1930 mantinha em seu atelier e com o curso para crianças, criado na Biblioteca Infantil Municipal pelo Departamento de Cultura de São Paulo quando Mário de Andrade era seu diretor (1936-38).

A contribuição de Mário de Andrade foi muito importante para que se começasse a encarar a produção pictórica da criança com critérios mais científicos e à luz da filosofia da arte.

O estudo comparado do espontaneísmo e da normatividade do desenho infantil e da arte primitiva era o ponto de partida de seu curso de filosofia e de história da arte na Universidade do Distrito Federal.

Por outro lado dirigiu uma pesquisa preliminar sobre a influência dos livros e do cinema na expressão gráfica livre de crianças de 4 a 16 anos de classe operária e de classe média, alunos dos parques infantis e da Biblioteca Infantil de São Paulo.

Seus artigos de jornal muito contribuíram para a valorização da atividade artística da criança como linguagem complementar, como arte desinteressada e como exemplo de espontaneísmo expressionista a ser cultivado pelo artista. As atividades das escolas ao ar livre do México parecem ter influenciado grandemente sua interpretação do desenho infantil.

De 1937 a 1945 o estado político ditatorial implantado no Brasil, afastando das cúpulas diretivas educadores de ação renovadora, entravou o desenvolvimento da arte-educação e solidificou alguns procedimentos, como o desenho geométrico na escola secundária e na escola primária, o desenho pedagógico e a cópia de estampas usadas para as aulas de composição em língua portuguesa.

É o início da pedagogização da arte na escola. Não veremos, a partir daí, uma reflexão acerca da arte-educação vinculada à especificidade da arte como fizera Mário de Andrade, mas uma utilização instrumental da arte na escola para treinar o olho e a visão ou para liberação emocional.

 

Arte para liberação emocional

 

É precisamente o argumento de que a arte é uma forma de liberação emocional que permeou o movimento de valorização da arte da criança no período que se seguiu ao Estado Novo. A partir de 1947, começaram a aparecer atelieres para crianças em várias cidades do Brasil, em geral orientados por artistas que tinham como objetivo liberar a expressão da criança fazendo com que ela se manifestasse livremente sem interferência do adulto.

Trata-se de uma espécie de neo-expressionismo que dominou a Europa e os Estados Unidos do pós-guerrra e se revelou com muita pujança no Brasil que acabava de sair do sufoco ditatorial.

Deste atelieres, os dirigidos por Guido Viaro (Curitiba)e  por Lula Cardoso Aires (Recife), são exemplos  significativos. O primeiro existe até hoje , mantido pela Prefeitura e até os inícios de 90, última vez que o visitei, fazia um ótimo trabalho. A escola de Lula Cardoso Ayres , criada em 1947, teve curta existência e sua proposta básica era dar lápis, papel e tinta à criança e deixar que ela se expressasse livremente. Seguindo o mesmo princípio, outro pernambucano, Augusto Rodrigues , criou em 1948 a  Escolinha de Arte do Brasil que começou a funcionar nas dependências de uma biblioteca infantil no Rio de Janeiro. Aliás Lula Cardoso Ayres em entrevista me disse que Augusto Rodrigues, antes de criar a Escolinha  de Arte do Brasil havia visitado sua Escolinha e se encantado, mas nunca mencionou sua existência previa.

A iniciativa de Augusto Rodrigues a qual estiveram ligados Alcides da Rocha Miranda e Clóvis Graciano logo recebeu a aprovação e o incentivo de educadores envolvidos no movimento de redemocratização da educação como Helena Antipoff e

Anísio Teixeira que retornara da Amazonia onde se refugiara e chegara a conseguir ser um próspero empresário, Depois que iniciou seus cursos de formação de professores, a  Escolinha de Arte do Brasil teve uma enorme influência multiplicadora. Professores, ex-alunos da escolinha criaram escolinhas de arte por todo o Brasil, chegando a haver 32 Escolinhas  no país. Usando principalmente argumentos psicológicos as escolinhas começaram a tentar convence a escola comum da necessidade de deixar a criança se expressar livremente usando lápis, pincel, tinta, argila etc.

Naquele momento parecia  um discurso de convencimento no vazio, uma vez que os programas editados pelas secretarias de educação e Ministério de Educação,  deveriam ser seguidos pelas escolas e tolhiam a autonomia do professor.

Houve, na época, uma grande preocupação com a renovação destes programas. Lúcio Costa (autor do plano urbanístico de Brasília) foi chamado para elaborar o programa de desenho da escola secundária (1948). Seu programa revela uma certa influência da Bauhaus, principalmente na preocupação de articular o desenvolvimento da criação e da técnica e desarticular a identificação de arte e natureza, direcionando a experiência para o artefato.

Este programa nunca foi oficializado pelo Ministério de Educação e só começou a influenciar o ensino da arte a partir de 1958.

Neste ano, uma lei federal permitiu e regulamentou a criação de classes experimentais.

As experiências escolares surgidas nesta época visavam sobretudo investigar alternativas experimentando variáveis para os currículos e programas determinados como norma geral pelo Ministério de Educação.

A presença da arte nos currículos experimentais foi a tônica geral.

Merecem registro as experiências em arte-educação das seguintes escolas: Colégio Andrews ( Rio de Janeiro), Colégios de Aplicação (anexos às faculdades de Educação do Rio de Janeiro, Pernambuco, Paraná etc.), Colégio Nova Friburgo (Rio de Janeiro), Escolas Parque (Salvador e posteriormente Brasília), Centro Educacional Carneiro Ribeiro (Bahia), Escola Guatemala (Rio de Janeiro), SESI (especialmente de Pernambuco), Ginásios Vocacionais (São Paulo), Colégio Souza Leão (Rio de Janeiro), Escola Ulysses Pernambucano (Recife), Grupo Escolar Regueira Costa (Recife), Grupo Escolar Manuel Borba (Recife), Ginásios Estaduais Pluricurriculares Experimentais (São Paulo), Escola de Demonstração dos Centros Regionais de Pesquisas Educacionais, Instituto Capibaribe(Recife), etc

Estas escolas continuaram a aplicar alguns métodos de ensino introduzidos na década de 1930, como o método naturalista de observação e o método de arte como expressão de aula, agora sob a designação de arte integrada no currículo, isto é, relacionada com outros projetos que incluíam várias disciplinas.

Algumas experiências foram feitas, aproveitando idéias lançadas por Lúcio Costa em seu programa de desenho para a escola secundária de 1948. Entretanto, a prática que dominou o ensino da arte nas classes experimentais foi a exploração de uma variedade de técnicas, de pintura, desenho, impressão etc. O importante é que no fim do ano o aluno tivesse tido contato com uma larga série de materiais e empregado um seqüência de técnicas estabelecidas pelo professor.

Para determinar este seqüência, os professores se referiam à necessidade de se respeitar as etapas de evolução gráfica das crianças. O livro de Victor Lowenfeld, traduzido em espanhol, Desarollo de la capacidad creadora, que estabelece estas etapas, tornou-se então uma espécie de bíblia dos arte-educadores de vanguarda. Herbert Read era também freqüentemente citado, mas pela análise dos programas vemos que foi raramente utilizado como embasamento teórico.

Noêmia Varela , criadora da Escolinha de Arte do Recife e posteriormente  diretora técnica da Escolinha de Arte do Brasil ,através dos Cursos Intensivos de Arte Educação que organizava no Rio  foi a grande influenciadora do Ensino da Arte em direção ao desenvolvimento da Criatividade , que caracterizou o Modernismo em Arte Educação . Três mulheres fizeram das Escolinhas a grande escola modernista do ensino da Arte no Brasil: Margaret Spencer, uma americana que criou a primeira Escolinha com AugustoRodrigues ,  que conhecia as Progressive Schools e o movimento de Arte Educação já bem desenvolvido nos nos Estados Unidos ,segundo depoimento de Lúcia Valentim , A segunda destas mulheres que fizeram a Escolinha foi a própria Lucia Valentim , que assumiu a direção da Escolinha de Arte do Brasil durante uma prolongada viagem de Augusto Rodrigues ao exterior . Influenciada por ??????????????   de quem foi aluna ,imprimiu uma orientação mais sistematizada à Escolinha e se desentendeu com Augusto quando este retornou ao comando. Entrou em cena ,então , Noêmia Varela que depois da morte do pai, Augusto Rodrigues conseguiu convenceu a deixar o Recife , uma cadeira na Universidade Federal de Pernambuco, a própria Escolinha de Arte do Recife e rumar para o Rio de Janeiro . Ela passou a ser a orientadora teórica e prática da Escolinha com total responsabilidade pela programação na qual se incluía o já citado Curso Intensivo em Arte Educação que formou toda uma geração de Arte Educadores no Brasil e muitos na América Latina Espanhola  .

A visibilidade de Augusto Rodrigues foi muito maior que a destas três mulheres . Aliás de Margaret Spencer nada mais se soube, ela foi apagada da história da arte educação no Brasil . Augusto foi um excelente relações públicas de sua Escolinha , comandada na prática e orientada teoricamente  por essas três mulheres , das quais Noêmia Varela foi a que mais tempo permaneceu, administrando teoria e prática na Escolinha de Arte do Brasil por  mais de vinte anos.

Augusto Rodrigues era  uma personalidade carismática,  seduzindo pela eloquência e pela iconoclastia. Frequentemente usava sua expulsão da Escola como exemplo da ineficácia do sistema escolar pois fora bem sucedido na sociedade  apesar da Escola  fazendo as jovens professoras desiludidas do sistema delirarem.  Por outro lado, suas boas relações com a burguesia ou classe alta protegeu a Escolinha de suspeitas durante a Ditadura Militar no Brasil ( 1964 –1982)

Alguns livros sobre artes plásticas na escola, escritos por brasileiros, foram publicados nas década de 60 e inícios de 70 . Eram entretanto redutores ,  todos eles traziam como núcleo central a descrição de técnicas e me parece que a origem desta sistematização de técnicas foram apostilas distribuídas pela Escolinha de Arte do Brasil nos anos 50. As técnicas mais utilizadas eram lápis de cera e anilina, lápis cera e varsol, desenho de olhos fechados, impressão, pintura de dedo, mosaico de papel, recorte e colagem coletiva sobre papel preto, carimbo de batata, bordado criador, desenho raspado, desenho de giz molhado etc.

Vejamos como era descrita uma destas técnicas na apostila da Escolinha.

 

Desenho com água sanitária

 

Material papel de cor escura ou branco – anilina – água – sanitária – palitos de fósforo – pincéis

 

Processo Em folha de papel colorida, ou pintada com uma ou várias cores de anilina, desenha-se com um palito ou caneta molhados em água sanitária. Depois do desenho seco, o local onde passou a água sanitária fica descolorido, aparecendo então a linha branca sobre o fundo de cor.

Objetivos Visa provocar experiência nova através do desenho, aguçar a curiosidade para a pesquisa dos materiais e obtenção de um desenho bem integrado na superfície.

 

 

A Lei de Diretrizes e Bases (1961), eliminando a uniformização dos programas escolares, permitiu a continuidade de muitas experiências iniciadas em 1958, mas a idéias de introduzir arte na escola comum de maneira mais extensiva não frutificou.

 

 

Outra Ditadura : O golpe militar de 1964

 

A Ditadura de 64  perseguiu professores e Escolas Experimentais foram aos poucos desmontadas sem muito esforço .Era só normatizar e esteriotipar seus currículos. Até escolas de Educação Infantil foram fechadas . A partir daí  a prática de arte nas escolas públicas primárias foi dominada em geral pela sugestão de tema e por desenhos alusivos a comemorações cívicas, religiosas e  outras festas.

Entretanto por volta de 1969 a arte fazia parte do currículo de todas as escolas particulares de prestígio seguindo a linha metodológica de variação de técnicas empregadas nas classes experimentais; Eram entretanto raras as escolas públicas  que desenvolviam um trabalho de arte..

Na escola secundária pública comum, continuou imbatível o desenho geométrico com conteúdo quase idêntico ao do Código Epitácio Pessoa em 1901.

Nos fins da década de1960 e início de 1970 (1968 a 1972), em escolas especializadas em ensino de arte, começaram a ter lugar algumas experiências no sentido de relacionar os projetos de arte de classes de crianças e adolescentes com o desenvolvimento dos processos mentais envolvidos na criatividade, ou com uma teoria fenomenológica da percepção ou ainda com o desenvolvimento da capacidade crítica ou da abstração e talvez mesmo com a análise dos elementos do desenho.

Também um certo contextualismo social começou a orientar o ensino da arte especializada, podendo-se detectar influências de Paulo Freire.

A Escola de Arte Brasil (São Paulo), Escolinha de Arte do Brasil (Rio de Janeiro), e Escolinha de Arte de São Paulo, Centro Educação e Arte (São Paulo), o NAC – Núcleo de Arte e Cultura (Rio de Janeiro) – foram algumas escolas especializadas que tiveram ação multiplicadora nos fins da década de 1960, influenciando professores que iriam atuar ativamente nas escolas a partir de 1971, quando a educação artística se tornou disciplina obrigatória nos currículos de 1º e 2º graus.

A Reforma Educacional de 1971 estabeleceu um novo conceito de ensino de arte: a prática da polivalência.

Segundo esta reforma, as artes plásticas, a música e as artes cênicas(teatro e dança) devem ser ensinadas conjuntamente por um mesmo professor da 1ª à 8ª séries do 1ª grau.

Em 1973, foram criados os cursos de licenciatura em educação artística com duração de dois anos (licenciatura curta) para preparar estes professores polivalente. Após este curso, o professor poderia continuar seus estudos em direção à licenciatura plena, com habilitação específica em artes plásticas, desenho, artes cênicas ou música . Educação Artística foi a nomenclatura que passou a designar o ensino polivalente de artes plásticas, música e teatro. O Ministério de Educação, no mesmo ano (1971), organizou em convênio com a Escolinha de Arte do Brasil, um curso para preparar o pessoal das Secretarias de Educação a fim de orientar a implantação da nova disciplina. Deste curso fez parte um representante de cada secretaria estadual de educação, o qual ficou encarregado de elaborar o guia curricular de educação artística do Estado.

Entretanto, poucos Estados desenvolveram um trabalho de preparação de professores para aplicar e estender as normas gerais e as atividades sugeridas nos guias curriculares. Por outro lado, a maioria dos guias apresenta um defeito fundamental: a dissociação entre objetivos e métodos que dificulta o fluxo de entendimento introjetado na ação.

As secretarias de Estado (educação e/ou cultura) que desenvolveram um trabalho mais efetivo de reciclagem e atendimento de professores de educação artística, foram as do Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Minas Gerais. Não é, portanto, por acaso que tenham sido possíveis, na década de 1970, experiências como a da Escola de Artes Visuais e do Centro Educacional de Niterói, no Rio de Janeiro, e em Minas Gerais a do CEAT (Centro de Arte da Prefeitura Municipal de Belo Horizonte) e a Escola Guignard.

Em 1977, o MEC, diante do estado de indigência do ensino da arte, criou o PRODIARTE – Programa de Desenvolvimento Integrado de Arte Educação. Dirigido por Lúcia Valentim, seu objetivo era  integrar a cultura da comunidade com a escola, estabelecendo convênios com órgãos estaduais e universidades. Nos inícios de 1979, 17 unidades da Federação tinham iniciado a execução de projetos ligados ao PRODIARTE. Os programas de maior consistência foram os levados a efeito entre 1978 nos Estados da Paraíba (convênio com a Universidade Federal da Paraíba e Secretaria de Educação), Rio Grande do Sul (convênio com DAC-SEC) e Rio de Janeiro (convênio com Escolinha de Arte do Brasil e SEC-RJ).

Os objetivos de todos os programas do PRODIARTE podem ser resumidos no enunciado do projeto de Pernambuco, o melhor definido teoricamente:

“ Objetivo Geral:

concorrer para a expansão e a melhoria da educação artística na escola de 1º grau.

Objetivos específicos:

Enriquecer a experiência criadora de professores e alunos.

Promover o encontro entre o artesão e o aluno.

Valorizar o artesão e a produção artística junto à comunidade”.

 

Estas propostas tinham sido explicitadas no 1º Encontro de Especialistas de Arte e Educação em Brasília pelo MEC e UNB em 1973, organizado por Terezinha  ?????Outros encontros de arte-educação se sucederam, girando sempre em torno dos mesmos assuntos já debatidos naquele de 1973, com a vantagem de alargar o número de debatedores.

Um exemplo de sucesso quantitativo, onde se estendeu a um  maior número de professores/as  perplexidades antes discutidas por um pequeno grupo, foi o 1º Encontro Latino Americano de Arte Educação que reuniu cerca de 4 mil professores no Rio de Janeiro(76/77). Neste encontro, ficou demonstrada a ausência e a carência de pesquisas sobre o ensino da arte. As poucas pesquisas existentes eram de caráter histórico financiadas pela Fundação Ford e FAPESP, ou se resumiam a mero recolhimento de depoimentos (IDART – São Paulo). A FUNARTE e o INEP chegaram a colaborar  com uma percentagem mínima de verba para registro, documentação ou descrição sistematizada de algumas experiências intuitivas em arte-educação.

Apesar do grande número de professores , este Encontro evitou a reflexão política pois tinha como organizadora a mulher de um político extremamente comprometido com a Ditadura

Só em 1980 um outro Encontro enfrentaria as questões políticas da Arte/Educação. Trata-se da Semana de Arte e Ensino que reuniu no campus da universidade de São Paulo mais de 3.000 professores e resultou no organização do Núcleo Pro Associação de Arte Educadores de São Paulo.

Estava São Paulo sob o domínio de um político de direita , Paulo Maluf que por tocar piano  manipulava os Arte/Educadores sugerindo que passassem o ano treinando seus alunos a cantar algumas músicas para serem apresentadas em um coral de 10.000 crianças ,por ele acompanhadas ao piano , no Natal  num estádio de Futebol.Como premio os professores que preparassem suas crianças teriam 5 pontos de acesso a carreira docente , quando um mestrado valia 10 pontos .

Os arte/educadores se revoltaram mas a única associação de classe existente na época era a Sobrearte(1970) considerada filial da International Society of Education through Art (1951) não ajudou os professores paulistas pois além de  circunscrever sua ação principalmente ao Rio de Janeiro era manipulada pela mulher de político da ditadura a qual já me referi.

A única solução foi criar a Associação de Arte Educadores de São Paulo que aliada à Associação de Corais foi vitoriosa  na sua primeira luta conseguindo anular a promessa de maior salário para os professores que participassem do Coral do Maluf no Estádio do Pacaembú. A festa aconteceu mais ninguém saiu ganhando, dada a campanha crítica .

Este Congresso fortificou politicamente os Arte/Educadores e já em 82/83 foi  criada na Pós Graduação em Artes  a linha de pesquisa em Arte Educação na Universidade de São Paulo constando de Doutorado, Mestrado e Especialização., com a orientação de Ana Mae Barbosa . Em breve duas brilhantes ex alunas, Maria Heloisa Toledo Ferraz e Regina Machado integraram a equipe ,tendo a última assumido também o Curso de Especialização. Outra linha de pesquisa em Arte/ Educação foi criada na Pós Graduação da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul nos anos 90 liderada por Analice Dutra Pillar .Para atender aos egressos das 132 licenciaturas em Artes Plásticas e/ou Educação Artística  o número de vagas nas Pós Graduações é insuficiente, criando-se um funil na formação dos arte/educadores  mas o desenvolvimento do Ensino da Arte no Brasil muito  deve à pesquisa gerada nas pós graduações . Outros fatores que influem positivamente na qualidade são a ação política desencadeada por vários Congressos e Festivais assim como a atuação de Associações Regionais e Estaduais reunidas na Federação de Arte Educadores do Brasil. Para dar um exemplo direi que 80 pesquisas foram produzidas para mestrados e doutorados no Brasil entre 1981 e 1993.

Muitas destas pesquisas analisam problemas interrelacionados com a Triangular

 

Somente em 1997 o Governo Federal , por pressões externas, estabeleceu os Parâmetros Curriculares Nacionais de Arte. Foi desconsiderado todo o trabalho de revolução curricular  que Paulo Freire desenvolveu quando Secretário Municipal de Educação(89/90) com vasta equipe de consultores e avaliação permanente. Os PCNs brasileiros dirigidos por um educador espanhol, desiistorizam nossa experiência educacional  para se apresentarem como novidade e receita para a salvação.

 

 

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