A Reconstrução Social  e a Arte

 

Ana Mae Barbosa

 

 

 

 

 

O Movimento de Arte para a Recuperação Social vem demonstrando a necessidade da Arte para todos os seres humanos, por mais inumanas que tenham sido as condições que a vida impôs a alguém.

Basta que o cérebro funcione, basta não estar em estado de coma para ser possível estabelecer alguma ligação com a Arte ou através dela.

As ONGs, que trabalham com os excluídos, esquecidos ou  desprivilegiados da sociedade, todas elas que têm obtido sucesso, estão trabalhado com Arte e  até vêm ensinando às escolas formais a lição da Arte como caminho para recuperar o que há de  humano no ser humano.

            Entretanto um problema está se criando. As ONGs, sem compromisso com a camisa de força escolar representada pelo currículo, desenvolvem nas crianças e adolescentes  a capacidade de aprender levando-as a descobrir suas habilidades e a ter alegria com as descobertas, enfim,  recuperam as crianças para entregá-las a uma escola  cujo maior valor é hoje o currículo e os instrumentos de controle do Estado (ENEM, Provão, PCNs) e não o estímulo para aprender a aprender. As chances destas crianças serem rejeitadas pela escola e voltarem à rua, que é muito mais atraente, são muitas.

O desejo de aprender, de investigar, é análogo ao desejo ficcional. Através  da Arte o sujeito, "tanto nas relações com o inconsciente como nas relações com o outro, põe em jogo a ficção”. Sem a experiência do prazer da Arte, por parte de professores (ou mediadores) e alunos, nenhuma teoria de Arte/Educação será reconstrutora .

No modernismo, se falava em Arte na Educação para o desenvolvimento da sensibilidade mas poucos tentaram conceituar esta sensibilidade.

            Hoje não mais se pretende  desenvolver apenas uma vaga sensibilidade dos jovens através da Arte, mas, principalmente, se aspira influir positivamente no desenvolvimento cultural dos estudantes  através do ensino/ aprendizagem da Arte. Não podemos entender a Cultura de um país sem conhecer sua Arte.

            A Arte, como uma linguagem aguçadora dos sentidos transmite significados que não podem ser transmitidos através de nenhum outro tipo de linguagem, tais como a discursiva e a científica. Dentre as artes, as  visuais, tendo a imagem como matéria-prima, tornam possível a visualização de quem somos, onde estamos e como sentimos.

Relembrando Fanon, eu diria que a arte capacita um homem ou uma mulher a não ser um estranho em seu meio ambiente nem estrangeiro no seu próprio país. Ela supera o estado de despersonalização, inserindo o indivíduo no lugar ao qual pertence, reforçando e ampliando seus lugares no mundo

A Arte na Educação, como expressão pessoal e como cultura, é um importante instrumento para a identificação cultural e o desenvolvimento individual.

Através da Arte, é possível desenvolver a percepção e a imaginação, apreender a realidade do meio ambiente, desenvolver a capacidade crítica, permitindo analisar a realidade percebida e desenvolver a criatividade de maneira a mudar a realidade que foi analisada

 

O conceito de criatividade também se ampliou. Para a educação modernista, dentre os processos mentais envolvidos na criação a originalidade era o mais valorizado, daí o apego do modernismo à  idéia de vanguarda .

Nos dias de hoje, a flexibilidade e a elaboração são  os fatores da criatividade mais ambicionados pela educação.

Em New York, nos anos 80, uma pesquisa com delinqüentes juvenis chegou à conclusão de que eles tinham a capacidade de elaboração muito pouco desenvolvida. Era, dos fatores criadores, o  menos desenvolvido entre os menores em conflito com a lei.Tinham muita dificuldade em reelaborar o seu meio ambiente para melhor adaptá-lo aos seus desejos e necessidades. Esta incapacidade freqüentemente gerava violência. Envolvidos em projetos de Arte, a grande maioria deles foi capaz de sobrepujar suas limitações conjunturais e reconstruir suas vidas.

 Desconstruir para reconstruir, selecionar, reelaborar, partir do conhecido e      modificá-lo de acordo com o contexto e a necessidade, são processos criadores desenvolvidos pelo fazer e ver Arte, fundamentais para a sobrevivência no mundo cotidiano.

Inúmeros projetos com crianças e adolescentes no Brasil estão mostrando o poder da “ordem oculta da Arte".  Dentre eles, o mais famoso é, sem dúvida,  o Projeto Axé na Bahia, iniciado por um iluminado italiano, mas não menos importante é o trabalho de Roseana e Alemberque Quindim, no Ceará, criando um museu de mitos e Arqueologia da região, uma rádio, um grupo de música, uma editora e quase uma TV se não fosse a nefasta intervenção da Anatel que lacrou seu transmissor, impossibilitando a meninada da cidade de Nova Olinda, no Cariri, de  aprender a fazer TV .

Também o Projeto Travessia, em São Paulo, o Cria, em Salvador, o Majê Molê, o Nação Erê e o Arricirco, no Recife, são muito bem sucedidos na reconstrução social dos adolescentes. Falo apenas dos que conheço, mas há muito educador, herói anônimo neste país, se dedicando às suas comunidades.

Já o Projeto Sempre Viva  devolve a auto-estima das mulheres, fazendo-as ver seus corpos como suporte de desenvolvimento estético. O Projeto Cais do Parto de Recife, trabalhando também com mulheres, ensina, através das Artes, as parteiras do Nordeste a melhor conhecerem o corpo feminino e diminuiu a taxa de mortalidade infantil nas regiões onde opera.

Tudo isto vem confirmando que Arte não é apenas uma mercadoria como querem os capitalistas, nem quadro para pendurar na parede, como dizem com menosprezo os preconceituosos  que acham que  Arte é um luxo sem o qual  um país endividado como nosso pode passar muito bem. 

É a desculpa que o Governo do Estado está dando para retirar Arte do Ensino Médio no Estado de São Paulo nos planos educacionais de 2001. A idéia é colocar  Computação no lugar da Arte . Por que não, em vez disto, Arte através do computador?

Outra estratégia para burlar a LDB é deixar Arte para os professores de Literatura ensinarem com a manipulativa desculpa de que Literatura é Arte. Sim, é Arte mas não desenvolve as linguagens  visuais,  sonoras  e  gestuais.

Enfim, é por essas e outras que as ONGs, com muito menos dinheiro do que o MEC vem gastando em Educação, conseguem educar melhor e combater muito mais eficientemente a  exclusão e a violência.

O projeto de Roseana e Alembergue é incrivelmente barato. A ajuda maior tem vindo da clarividente Violeta Arraes, atual reitora da  Universidade do Cariri, um milagre no sertão, e de um empresário de origem oriental de São Paulo que por lá passou e se encantou com o trabalho cultural das crianças.      Elas produzem os programas de rádio que vão ao ar, desenham os livretos a serem impressos, coordenam as visitas guiadas ao museu por eles organizado, desde a  pesquisa feita na região, até  a disposição das peças no espaço e a produção das narrativas, textos e etiquetas.

Não há violência entre os jovens e adolescentes em Nova Olinda. Uma das razões é que não se trata de exploração do trabalho, mas de projeto comunitário mesmo. As crianças têm poder de decisão. Elas têm cargos de diretoria e compõem o conselho da  Casa de Cultura do Homem do Nordeste, nome dado por Quindim a seu projeto.

Ando muito ressabiada com trabalhos de artistas que apenas exploram os pobres, fazendo-os trabalharem de graça em projetos totalmente definidos e controlados pelos próprios artistas. Da defesa da absoluta autonomia da obra de Arte, feita pelo modernismo, afirmando-se que arte não tem nada que ver com o contexto, não é para se entender, não se ensina e não se aprende, muitos artistas passaram para o lado oposto e  provavelmente a pensar  que é útil ou chic trabalhar com pobres.

Muitas vezes, apesar das boas intenções,  porque não sabem lidar com comunidade ou com aprendizagem de Arte, acrescentam mais um nível de exploração aos já tão explorados. É necessário conhecer e analisar o processo de trabalho de artistas em comunidade para avaliar e julgar sua propriedade.

Lidar com os excluídos, levando-os a se verem como pessoas, apesar da exclusão, não é tarefa fácil. Qualquer deslize potencializa a exclusão.

A arte tem sido poderosa aliada na reconstrução social. Como li há poucos dias, não lembro onde, para o sujeito que não se tem a si mesmo a Arte se apresenta como lugar vazio organizador.

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