A Educação poderia ser o mais eficiente caminho para
estimular a consciência cultural do indivíduo, começando pelo reconhecimento e
apreciação da cultura local. Contudo, a educação formal no Terceiro Mundo
Ocidental foi completamente dominada pelos códigos culturais europeus e, mais
recentemente, pelo código cultural norte-americano branco A cultura indígena só
é tolerada na escola sob a forma de folclore, de curiosidade e esoterismo;
sempre como uma cultura de segunda categoria. Em contraste, foi a própria Europa
que, na construção do ideal modernista das artes, chamou a atenção para o alto
valor das outras culturas do leste e do oeste, através da apreciação das
gravuras japonesas e das esculturas africanas. Desta forma, os artistas
modernos europeus foram os primeiros a criar uma justificação a favor do
multiculturalismo, apesar de analisarem a “cultura” dos outros sob seus
próprios cânones de valores. Somente no século vinte, os movimentos de
descolonização e de liberação criaram a possibilidade política para que os
povos que tinham sido dominados reconhecessem sua própria cultura e seus
próprios valores.
A busca de identidade cultural passou a ser um dos
objetivos dos países recém-independentes”, cuja cultura tinha sido até então,
institucionalmente definida pelos poderes centrais e cuja história foi escrita
pelos colonizadores. Contudo, a identidade cultural não é uma forma fixa ou
congelada, mas um processo dinâmico, enriquecido através do diálogo e trocas
com outras culturas. Neste sentido, a identidade cultural também é um problema
para o mundo desenvolvido. Apesar disso, a preocupação com o estímulo cultural
através da educação tem sofrido uma diferente abordagem nos mundos
industrializados e em vias de desenvolvimento, revelando diversos significados
através de diferenças semânticas. Enquanto no Terceiro Mundo falamos sobre a
necessidade de busca pela identidade cultural, os países industrializados falam
sobre a leitura cultural e ecologia cultural. Assim, no mundo industrializado a
questão cultural é centrada no fornecimento de informações globais e
superficiais sobre diferentes campos de conhecimento (cultural literacy) e na
atenção equilibrada às diversas culturas de cada país (ecologia cultural). No Terceiro Mundo, no entanto, a identidade
cultural é o interesse central e significa necessidade de ser capaz de
reconhecer a si próprio, ou, finalmente, uma necessidade básica de
sobrevivência e de construção de sua própria realidade. Os três termos aos
quais nos referimos acima convergem em um
ponto comum: a noção de diversidade cultural. Sem a flexibilidade para
encarar a diversidade cultural existente em qualquer país não é possível tanto
uma identificação cultural como uma leitura cultural global ou, ainda, uma
cultura ecológica.
Diversidade cultural:
multiculturalismo, pluriculturalidade e
interculturalidade
Aqui, para definir a diversidade cultural, nós temos que
navegar novamente através de uma complexa rede de termos. Alguns falam sobre
multiculturalismo, outros sobre pluriculturalidade, e temos ainda o termo mais
apropriado - Interculturalidade. Enquanto os termos “Multicultural” e
“Pluricultural” significam a coexistência e mutuo entendimento de diferentes
culturas na mesma sociedade, o termo
“Intercultural” significa a interação entre as diferentes culturas. Isto
deveria ser o objetivo da educação interessada no desenvolvimento cultural.
Para alcançar tal objetivo, é necessário que a educação forneça um conhecimento
sobre a cultura local, a cultura de vários grupos que caracterizam a nação e a
cultura de outras nações.
No que diz respeito à cultura local, pode-se
constatar que apenas o nível erudito desta cultura é admitido na escola. As
culturas de classes sociais baixas continuam a ser ignoradas pelas instituições
educacionais, mesmo pelos que estão envolvidos na educação destas classes. Nós
aprendemos com Paulo Freire a rejeitar a segregação cultural na educação. As
décadas de luta para salvar os oprimidos da ignorância sobre eles próprios nos
ensinaram que uma educação libertária terá sucesso só quando os participantes
no processo educacional forem capazes
de identificar seu ego cultural e se orgulharem dele. Isto não significa a
defesa de guetos culturais ou negar às classes baixas o acesso à cultura
erudita. Todas as classes têm o direito de acesso aos códigos da cultura
erudita porque esses são os códigos dominantes - os códigos do poder. É
necessário conhecê-los, ser versado neles, mas tais códigos continuarão como um
conhecimento exterior a não ser que o indivíduo tenha dominado as referências
culturais da sua própria classe social, a porta de entrada para a assimilação
do “outro”. A mobilidade social depende da inter-relação entre os códigos
culturais das diferentes classes sociais .
A diversidade cultural presume o reconhecimento dos
diferentes códigos, classes, grupos étnicos, crenças e sexos na nação, assim
como o diálogo com os diversos códigos culturais das várias nações ou países,
que incluem até mesmo a cultura dos primeiros colonizadores. Os movimentos
nacionalistas radicais que pretenderam o fortalecimento da identidade cultural
de um país em isolamento, ignoram o fato de que o seu passado já havia sido
contaminado pelo contato com outras
culturas e sua história interpenetrada pela história dos colonizadores. Por
outro lado, os colonizadores não podem esquecer que, historicamente, eles foram
obrigados a incorporar os conceitos culturais que o oprimido produziu acerca
daqueles que os colonizaram.
Interculturalidade e cultura do Outro
A demanda para identificação, isto é “ser para um Outro”
- assegura a representação do sujeito,
diferenciado do “Outro” , em alteridade “Identidade é ser para si mesmo e para
o Outro; conseqüentemente, a
identidade é encontrada entre nossas diferenças” . A
função das artes na formação da imagem da identidade lhe confere um papel
característico dentre os complexos aspectos da cultura. Identificação é sempre
a produção de “uma imagem de identidade e transformação do sujeito ao assumir
ou rejeitar aquela imagem reconhecida pelo outro” .
O papel da arte no desenvolvimento cultural
Através das artes temos a representação simbólica
dos traços espirituais, materiais, intelectuais e emocionais que caracterizam a
sociedade ou o grupo social, seu modo de vida, seu sistema de valores, suas
tradições e crenças. A arte, como uma linguagem presentacional dos sentidos,
transmite significados que não podem ser transmitidos através de nenhum outro
tipo de linguagem, tais como as linguagens discursiva e científica. Não podemos
entender a cultura de um país sem conhecer sua arte. Sem conhecer as artes de
uma sociedade, só podemos ter conhecimento parcial de sua cultura. Aqueles que
estão engajados na tarefa vital de fundar a identificação cultural, não podem
alcançar um resultado significativo sem o conhecimento das artes. Através da
poesia, dos gestos, da imagem, as artes falam aquilo que a história, a sociologia,
a antropologia etc., não podem dizer porque elas usam um outro tipo de
linguagem, a discursiva, a científica, que sozinhas não são capazes de
decodificar nuances culturais. Dentre as artes, a arte visual, tendo a imagem
como matéria-prima, torna possível a visualização de quem somos, onde estamos e
como sentimos. A arte na educação como expressão pessoal e como cultura é um
importante instrumento para a identificação cultural e o desenvolvimento.
Através das artes é possível desenvolver a percepção e a imaginação, apreender
a realidade do meio ambiente, desenvolver a capacidade crítica, permitindo
analisar a realidade percebida e desenvolver a criatividade de maneira a mudar
a realidade que foi analisada. “Relembrando Fanon”, eu diria que a arte capacita
um homem ou uma mulher a não ser um estranho em seu meio ambiente nem
estrangeiro no seu próprio país. Ela supera o estado de despersonalização,
inserindo o indivíduo no lugar ao qual pertence.
Arte-Educação e a consciência de cidadania
Contudo, não é só incluindo arte no curriculum que a
mágica de favorecer o crescimento individual e o comportamento de cidadão como
construtor de sua própria nação acontece. Além de reservar um lugar para a arte
no curriculum, o que está longe de ser
realizado de fato, até mesmo pelos países desenvolvidos, é também necessário se
preocupar como a arte é concebida e ensinada.
Em minha experiência tenho visto as artes visuais sendo
ensinadas principalmente como desenho geométrico, ainda seguindo a tradição
positivista, ou a arte nas escolas sendo utilizada na comemoração de festas, na
produção de presentes estereotipados para os dias das mães ou dos pais e, na
melhor da hipóteses, apenas como livre expressão. A falta de preparação de pessoal para ensinar artes é um problema
crucial, nos levando a confundir improvisação com criatividade. A anemia
teórica domina a arte-educação que está fracassando na sua missão de favorecer
o conhecimento nas e sobre artes visuais, organizado de forma a relacionar
produção artística com apreciação estética e informação histórica. esta
integração corresponde à epistemologia da arte. O conhecimento das artes tem
lugar na interseção da experimentação, decodificação e informação. Nas artes
visuais, estar apto a produzir uma imagem e ser capaz de ler uma imagem são
duas habilidades interrelacionadas.
. Em nossa vida diária, estamos rodeados por imagens
impostas pela mídia, vendendo produtos, idéias, conceitos, comportamentos,
slogans políticos etc Como resultado de nossa incapacidade de ler essas
imagens, nós aprendemos por meio delas inconscientemente. A educação deveria
prestar atenção ao discurso visual. Ensinar a gramática visual e sua sintaxe
através da arte e tornar as crianças conscientes da produção humana de alta
qualidade é uma forma de prepará-las para compreender e avaliar todo o tipo de
imagem, conscientizando-as de que estão aprendendo com estas imagens. Um
currículo que integre atividades artísticas, história das artes e análise dos
trabalhos artísticos levaria à satisfação das necessidades e interesses das
crianças, respeitando ao mesmo tempo os conceitos da disciplina a ser
aprendida, seus valores, suas estruturas e sua específica contribuição à
cultura. Dessa forma, realizaríamos um equilíbrio entre as duas teorias curriculares
dominantes: aquela centrada na criança e a centrada na disciplina(matéria).
este equilíbrio curricular começou a ser defendido no reino Unido pelo Basic
Design Movement durante os anos 50, quando Harry Thubron, Victor Pasmore,
Richard Hamilton, Richard Smith, Joe Tilson e Eduardo Paolozzi desenvolveram
sua arte de ensinar a arte. Eles
associaram atividades artísticas com o ensino dos princípios do design e
informação científica sobre o ver, tudo isso com ajuda da tecnologia. Seus
alunos estudavam gramática visual, sua sintaxe e seu vocabulário, dominando
elementos formais, tais como: ponto, linha, espaços positivo e negativo,
divisão de áreas, cor, percepção e ilusão, signos e simulação, transformação e
projeção nas imagens produzidas pelos artistas e também pelos meios de
comunicação e publicidade. Eles foram acusados de racionalismo, mas hoje, após
quase setenta anos de arte-educação expressionista nas escolas do mundo
industrializado, chegamos à conclusão que expressão “espontânea” não é uma preparação
suficiente para o entendimento da arte.
Apreciar, educar os sentidos e avaliar a qualidade das
imagens produzidas pelos artistas é uma ampliação necessária à livre-expressão,
de maneira a possibilitar o desenvolvimento contínuo daqueles que, depois de
deixar a escola, não se tornarão produtores de arte. Através da apreciação e
decodificação de trabalhos artísticos, desenvolvemos fluência, flexibilidade,
elaboração e originalidade - os processos básicos da criatividade. Além disso,
a educação da apreciação é fundamental para o desenvolvimento cultural de um
país. Este desenvolvimento só acontece quando uma produção artística de alta
qualidade é associada a um alto grau de entendimento desta produção pelo
público.
Uma das funções da arte-educação é fazer a mediação
entre a arte e o público. Museus e centros culturais deveriam ser os líderes na
preparação do público para o entendimento do trabalho artístico. Entretanto,
poucos museus e centros culturais fazem esforço para facilitar a apreciação da
arte. As visitas guiadas são tão entendiantes que a viagem de ida e volta aos
museus é de longe mais significativa
para a criança. Mas, é importante enfatizar que os museus e centros culturais
são uma contribuição insubstituível para amenizar a idéia de inacessibilidade do trabalho artístico e
o sentimento de ignorância do visitante. Aqueles que não tem educação escolar
têm medo de entrar no museu. Eles não se sentem suficientes conhecedores para
penetrar nos “templos da cultura”. É hora dos museus abandonarem seu
comportamento sacralizado e assumirem sua parceria com escolas, porque somente
as escolas podem dar aos alunos de classe pobre a ocasião e auto-segurança para
entrar em um museu. Os museus são lugares para a educação concreta sobre a
herança cultural que deveria pertencer
a todos, não somente a uma classe econômica e social privilegiada. Os museus
são lugares ideais para o contato com padrões de avaliação da arte através da
sua história, que prepara um consumidor de arte crítico não só para a arte de ontem e de hoje, mas
também para as manifestações artísticas do futuro. O conhecimento da
relatividade dos padrões da avaliação
dos tempos torna o indivíduo flexível para criar padrões apropriados para o
julgamento daquilo que ele ainda não
conhece. Tal educação, capaz de desenvolver a auto-expressão, apreciação,
decodificação e avaliação dos trabalhos produzidos por outros, associados à
contextualização histórica, é necessária não só para o crescimento individual e
enriquecimento da nação, mas também é um instrumento para a profissionalização.
Um grande número de trabalhos e profissões estão direta
ou indiretamente relacionados à arte comercial e propaganda, out-doors, cinema,
vídeo, à publicação de livros e revistas, à produção de discos, fitas e Cds,
som e cenários para a televisão, e todos esses campos do design para a moda e
indústria têxtil, design gráfico, decoração etc. Não posso conceber um bom
designer gráfico que não possua algumas informações de História da Arte, como
por exemplo, o conhecimento sobre a Bauhaus. Não só designers gráficos mas
muitos outros profissionais similares poderiam ser mais eficientes se
conhecessem, fizessem arte e tivessem desenvolvido sua capacidade analítica
através da interpretação dos trabalhos artísticos em seu contexto histórico.
Tomei conhecimento de uma pesquisa que constatou que os camara men da televisão
são mais eficientes quando têm algum contato sistemático com apreciação da
arte. A interpretação de obras de arte e a informação histórica são
inseparáveis; sendo uma a abordagem diacrônica horizontal do objeto e a outra
sua projeção sincrônica vertical. A intercessão dessas duas linhas de
investigação produzirá um entendimento crítico de como os conceitos formais,
visuais e sociais aparecem na arte, como eles têm sido percebidos, redefinidos,
redesignados, distorcidos, descartados, reapropriados, reformulados, justificados
e criticados em seus processos construtivos. Essa abordagem de ensino ilumina a
prática da arte, mesmo quando esta prática é meramente catártica.
Aqueles que defendem a arte na escola meramente para libertar a emoção devem lembrar que podemos aprender muito pouco sobre nossas emoções se não formos capazes de refletir sobre elas. Na educação, o subjetivo, a vida interior e a vida emocional devem progredir, mas não ao acaso. Se a arte não é tratada como um conhecimento, mas somente como um “grito da alma”, não estamos oferecendo nem educação cognitiva, nem educação emocional. Foi Wordsworth que, apesar de seu romantismo, disse: “A arte tem que ver com emoção, mas não tão profundamente para nos reduzirmos a lágrimas”.