O
VIRTUAL NA ESCOLA
19/5/2004
Por Patrícia Vasconcellos
Pires Ferreira
Temos que nos lembrar que educar é algo mais que
fixar conteúdos sem significados que logo serão esquecidos; educar é contribuir
para a formação de cidadãos felizes que consigam viver em harmonia, que saibam
trabalhar em equipe, que respeitem as diferenças, que ousem e criem.
Acho importante observarmos que a tecnologia, por
si só, não é boa nem má. Como qualquer outro instrumento construído
culturalmente, o que faz a diferença é a utilização que o ser humano faz dela. O
mesmo avião que transporta pessoas, unindo-as fisicamente, apesar das
distâncias, transporta bombas atômicas que matam essas pessoas.
Fazendo um recorte para o ambiente escolar,
encontramos realidades tecnológicas bem diversas. Em algumas escolas, o
computador já faz parte do cotidiano dos alunos, enquanto que em outras, ainda é
algo bem distante.
Percebo que o meu percurso profissional fez com
que eu nunca fizesse a pergunta "o computador vai substituir o professor?", tão
comum nos meios educacionais, pois sempre o vi como uma máquina cuja função é
processar informações e penso que a função do professor não é transmitir
informações acumuladas para alunos que as recebem e as acumulam passivamente.
Acredito que o papel do professor é o de "provocador", motivador, estimulador,
facilitador, mediador, para que cada aluno descubra e desenvolva o seu potencial
- racional, emocional, corporal, social e espiritual - e seja feliz.
Alguns educadores temem que o computador substitua
o livro.
Outros, temem ser substituídos por ele. Os
educadores de hoje, afinal, foram educados em uma sociedade não tão tecnológica
e na sua formação profissional não tiveram a oportunidade de vivenciarem
ambientes computacionais e refletirem sobre eles - nem mesmo nos cursos
universitários.
Então, o que se faz, na maioria das vezes, para
atender à demanda da sociedade, é adaptar o uso do computador na escola àquela
forma antiga de se trabalhar nela: transmissão e decoreba(3) . Assim, ocorre o
que Cysneiros(4) chama de "modernização conservadora".
O que o computador e outras tecnologias, como
televisão e vídeo, podem fazer nas escolas depende, essencialmente, da concepção
do educador sobre o processo ensino-aprendizagem e de como ele vivencia a sua
prática pedagógica. (5)Pode-se utilizar o computador como uma excelente máquina
de ensinar Skineriana ou como mais uma ferramenta pedagógica dentro de um
ambiente de aprendizagem que favoreça a construção do conhecimento pela criança.
Não podemos continuar reproduzindo nas escolas o
modelo industrial de produção em série e massificação das pessoas, como nos
mostra Chaplin, de uma forma poética, no seu lindo filme Tempos Modernos, onde
um operário de uma fábrica fica stressado com a mecanização do seu trabalho e
"enlouquece", saindo dos padrões determinados pelo vigilante chefe. Como vemos
essa mesma situação em nossas escolas, quando um aluno mais "inconformado" com a
padronização do ensino, rebela-se contra o chefe-professor e adota um
comportamento agressivo ou apresenta dificuldades de aprendizagem, ou seria
melhor dizendo, de memorização/reprodução da informação transmitida!!
Nossa sociedade, já mergulhada num oceano de
informações, não exige mais que se saiba, de cor, muita coisa. O importante é
que o profissional, saiba buscar, analisar, sintetizar as informações
disponíveis para que possa tomar a decisão adequada. Então, fica a questão: como
prepararmos nas escolas as crianças para essa nova realidade? Kannitz(6) nos
fornece uma pista: "O jovem de hoje deve concentrar-se em uma das competências
mais importantes para o mundo moderno: aprender a aprender e a tomar decisões."
Em algumas escolas, os alunos são proibidos pelos educadores de trazer tarefas
de casa "escritas" no computador, pois "não desenvolvem a caligrafia", e de
trazer pesquisa sobre determinado tema na Internet, pois "não analisam as
informações coletadas" - como se a pesquisa em enciclopédias organizadas em
inúmeros e pesados volumes de livros favorecesse uma postura crítica e reflexiva
dos alunos frente a essas informações!
Acho que é importante vermos a criança em todas as
suas dimensões, inclusive a corporal. É bom ter uma letra bonita. Mas não é
essencial. Não podemos penalizar a criança pela sua "caligrafia feia",
diminuindo sua auto-estima, quando o que queremos que ela desenvolva é o prazer
de produzir um texto escrito, com coerência e criatividade. Temos o teclado do
computador que pode facilitar esse trabalho, minimizando sua limitação de
"coordenação motora fina".
Procurando no dicionário a definição de VIRTUAL,
encontrei "que existe como faculdade, porém sem efeito atual; suscetível de
realizar-se; potencial; possível", ou ainda, "sendo na essência ou no efeito,
mas não de fato;".
Pensando nos textos "escritos virtualmente" no
Word(7) , encantei-me com a definição "que existe como possibilidade", pois é
exatamente assim que funciona a sua lógica: escrevemos, re-escrevemos, mas sem
que o texto possua as características de um texto escrito fora do mundo da
informática, ou seja, da informação em bits nos computadores. No mundo das
possibilidades, o mundo VIRTUAL, o erro é algo comum, que aponta para um
tateamento experimental(8) que pode ser refeito todas as vezes que se fizer
necessário.
No consultório trabalho com um software que tem
uma atividade de labirinto. É fantástico como as crianças tentam encontrar a
saída, fazendo e refazendo caminhos alternativos (errando) de uma forma natural,
leve, sem stress. A nova rota escolhida substitui a que "deu errado", graças à
virtualidade do recurso, e a criança analisa novas possibilidades de exploração
do caminho. Tive a oportunidade de imprimir um labirinto, trazendo-o para o
"não-virtual", para trabalhar com uma criança na escola e foi interessante notar
que a criança, ao entregar o labirinto com o caminho de saída marcado pela
caneta no papel, comentou que o outro caminho riscado era o que ela tinha
tentado primeiro e tinha errado. Nessa forma de trabalho com o labirinto o erro
estava ali, apontado, registrado.
Acho importante ressaltar que não se pode,
enquanto educador, adotar um postura superficial em relação aos erros das
crianças no seu processo de aprendizagem, pois ao se acreditar que o erro faz
parte desse processo é importante que se tenha não apenas o resultado final, mas
que o professor possa acompanhar qual foi a lógica que a criança seguiu para
achar a sua "saída" para o problema proposto. Um bom software educativo deve
permitir esse acompanhamento pelo professor.
Na escola, ao se trabalhar na construção de um
projeto sobre determinado tema, professores e alunos têm no computador uma
ferramenta preciosa. As enciclopédias em cd-rom, com recursos de multimídia,
permitem que o próprio aluno procure a informação desejada, fazendo conexões com
outros temas que lhe sejam interessantes. É muito mais fascinante para o aluno,
por exemplo, visualizar uma animação sobre o processo de respiração humana a
tentar compreender esse processo nos desenhos do professor no quadro com giz. A
Internet pode ser utilizada para pesquisar informações sobre o tema, para trocar
informações com especialistas nesse tema ou ainda com outras crianças que
estejam desenvolvendo o mesmo trabalho. Os editores de texto e os software de
apresentação ajudam a organizar as idéias e a apresentá-las para o público.
Discute-se muito que o computador isola as
crianças, pois ficam horas em frente à telinha, como que hipnotizados pelos
recursos da tal maquininha. Dimenstein(9) , lúcido e criativo jornalista, coloca
os devidos pontos nos "is".
"O que provoca o isolamento não é a tecnologia - as
máquinas apenas acentuam uma tendência nutrida dentro da sociedade.
O isolamento é fruto de uma visão individualista, cínica até, sem valores
comunitários, na ética e na ótica do "cada um por si e ninguém por todos".
Não se ensina a cooperar, mas apenas competir; o padrão do sucesso é aquele de
quem briga para ser mais rico e mais famoso.
Mergulhados em seus problemas e agendas lotadas, pais não conversam com os
filhos - e, depois, a culpa do isolamento é da tecnologia.
A sociedade vai ficando mais moderna, oferece oportunidades, e vamos,
paradoxalmente, ficando com menos tempo. Ganhamos visibilidade virtual e
invisibilidade real."
Apesar da virtualidade do mundo pós-moderno, sou uma ferrenha defensora do
contato cara a cara, pele com pele, gente com gente, sem intermediários. Há
algum tempo, a Rede Globo apresentou uma matéria no seu telejornal em que era
discutida a idéia de como seria a escola do futuro, trazendo duas situações bem
diferentes: uma, com crianças e adolescentes numa sala de realidade virtual,
sentados com seus óculos, assistindo uma apresentação de reprodução celular;
outra, com crianças plantando flores, cuidando de uma horta e animais. Qual
seria a melhor opção? Acho que aqui, mais uma vez, o equilíbrio é a melhor
alternativa.
Acredito que não podemos negar na escola o acesso a um instrumento que faz parte
da nossa cultura. É preciso que reflitamos com nossos alunos o uso do computador
no seu cotidiano de uma forma crítica. Porém, não podemos continuar nos
preocupando, na escola, apenas com o desenvolvimento da racionalidade das
crianças. Nicholas Negroponte, coordenador do MIT, em entrevista ao programa de
televisão Roda Viva, comentou que não nos lembramos do professor da nossa
infância que tinha a melhor metodologia de ensino; lembramo-nos daquele que
afagou a nossa cabeça quando estávamos tristes ou preocupados. Os professores,
assim como os pais, "nunca devem substituir o tempo que passam com as crianças
por um computador, pois a chave para uma boa educação ainda é a leitura e as
brincadeiras com as crianças(10)."
Temos que nos lembrar que educar é algo mais que
fixar conteúdos sem significados que logo serão esquecidos; educar é contribuir
para a formação de cidadãos felizes que consigam viver em harmonia, que saibam
trabalhar em equipe, que respeitem as diferenças, que ousem e criem.
Se no presente conseguirmos seguir o caminho
certo, talvez, no futuro tenhamos como real uma situação que hoje só acontece no
virtual:
"Estamos em 2069, num ambiente de estudo e pesquisa,
antigamente chamado de 'sala de aula'. Os aprendizes têm entre 12 e 16 anos e
conversam com o dinamizador da inteligência coletiva do grupo, uma figura que em
outras décadas já foi conhecida como 'professor'. Eles estão levantando e
confrontando dados sobre os Centros de Cultura e Saberes Humanos (ou, como
diziam antes, as 'escolas') ao longo dos tempos. Admirados, não conseguem
conceber como funcionava, no século passado, um ensino que reunia os jovens não
em função dos seus interesses ou temas de pesquisa, mas simplesmente por idades.
O orientador de estudos lhes fala da avaliação: ela classificava os alunos por
números ou notas segundo seu desempenho, e em função disso eles eram ou não
'aprovados' para o nível seguinte. Os aprendizes ficam cada vez mais surpresos.
Como determinar 'níveis de ensino'? Como catalogar 'fases de conhecimento'? O
que seriam 'etapas' escolares? Em que nó da rede curricular eles se baseavam
para fundamentar isso? A surpresa maior se dá quando descobrem que essas
avaliações ou 'provas' eram aplicadas a todos os estudantes do grupo. A MESMA
PROVA? - espantam-se todos. Não conseguem conceber uma situação em que todos
tivessem que saber exatamente os mesmos conteúdos, definidos por outra pessoa,
no mesmo dia e hora marcados. 'Eles não ficavam angustiados?' - comenta um
aprendiz com outro. Os jovens tentam se imaginar naquela época: recebendo um
conjunto de questões a resolver, de memória e sem consulta, isolados das equipes
de trabalho, sem partilha nem construção coletiva. Os problemas em geral não
eram da vida prática, e sim coisas que eles só iriam utilizar em determinadas
profissões, anos mais tarde. Imaginando a cena, os aprendizes começam a sentir
uma espécie de angústia, tensão, até mesmo medo do fracasso, pânico de ficar na
mesma 'série', de ser excluído da escola... 'Assim eu não ia querer estudar, diz
um deles, expressando o que todos já experimentam. Mas em seguida, envolvido
pelos outros temas da pesquisa, o grupo inicia uma nova discussão ainda mais
interessante, e todos afastam definitivamente da cabeça aquele estranho
pensamento(11)."
-
Participação em mesa redonda
no IV Seminário de Psicologia da UFPE (Maio/2000).
-
Bacharel em Ciência da
Computação e em Psicologia; especialista em Informática na Educação.
-
Gabriel, o Pensador, na sua
música Estudo Errado faz uma excelente crítica ao modelo de ensino ainda
vigente na maioria de nossas escolas.
-
Tive a oportunidade de
trabalhar com Paulo Gileno Cysneiros no Projeto Educom da UFPE, atuando em uma
escola pública da cidade do Recife/PE, na produção de um jornal escolar.
Continuamos trocando idéias no Núcleo de Informática na Educação da UFPE (NIE/UFPE).
-
Discuti o tema no artigo O
COMPUTADOR NA ESCOLA.
-
Stephen Kanitz, no artigo
Volta às Aulas, revista VEJA (16 de fevereiro de 2000).
-
Editor de Textos da
Microsoft.
-
Conceito de Freinet para as
explorações naturais dos alunos no processo de construção do conhecimento.
-
Gilberto Dimenstein, na sua
coluna dos domingos do jornal Folha de São Paulo, em 20 de fevereiro de 2000.
-
Adaptado da entrevista de Don
Tapscott, autor de best-seller Geração Digital, à revista VEJA - Vida Digital
(19 de abril de 2000)
-
RAMAL, Andréa Cecília.
Avaliar na Cibercultura in: Pátio (Fev/2000).