“A luta das mulheres é chamada de ‘a luta mais longa’, porque a dominação que sofrem indubitavelmente é a mais antiga”
Maria Caneiro da Cunha.
Em 1910, o XII Congresso Internacional da Mulher, realizado em Copenhagen
(Dinamarca) definiu o 8 de março como o Dia Internacional das Mulheres.
Foi uma forma de lembrar a memória de 129 operárias de Nova
Iorque (EUA), assassinadas em 1857, quando lutavam por melhores condições
de trabalho.
Também no Brasil, a história oficial sempre foi pródiga em exaltar o papel dos homens, tidos como heróis e guardiões da pátria, verdadeiros e únicos condutores dos destinos do país. Porém, há um silêncio acerca da participação das mulheres no cenário político, principalmente no seio das lutas populares travadas ao longo desses últimos 500 anos.
A participação feminina nas lutas sociais não foi registrada nos compêndios oficiais, e esse envolvimento precisa ser resgatado e divulgado para que o passado seja melhor compreendido. A história das mulheres nem sempre coincide com a dos homens, pois elas sempre ocuparam posições e exerceram atividades diferentes nas sociedades.
No entanto, os homens registraram e documentaram a sua visão de mundo, aquilo que julgaram importante pois a historiografia foi escrita por eles, os detentores do poder, como se a história tivesse ocorrido apenas com a presença masculina. Hoje, investigando o passado com outros olhos, sabemos que as mulheres sempre trabalharam arduamente para o funcionamento da sociedade em que viviam e, mais do que isso, lutaram por seus direitos, revoltando-se contra a submissão, sofrendo, por isso, severas penalizações.
Inúmeros são os exemplos de mulheres que lutaram por direitos iguais. Vale lembrar as figuras de Bárbara Alencar e Ana Lins, na Confederação do Equador (PE/CE, 1824); ou de Zeferina, comandando o levante do Quilombo do Urubu (BA); e Gêge Mahim, que se destacou na Revolta dos Malês (BA); ou ainda o exemplo da negra Tereza, que por mais de 20 anos liderou o Quilombo de Quaritetê (MT). Uma das personagens mais conhecidas é a baiana Maria Quitéria, que se destacou na independência do Brasil, lutando ao lado dos soldados contra os colonizadores portugueses. Apesar de secundária, houve a participação das mulheres brancas no movimento contra a escravidão, como a das pernambucanas Maria Amélia de Queiroz, que proferiu diversas palestras públicas sobre a abolição em 1887, e Leonor Porto, única mulher a participar do semi-clandestino Clube do Cupim, numa época em que nem os abolicionistas norte-americanos aceitavam mulheres em suas organizações. Um nome também importante para ser lembrado é o da compositora Chiquinha Gonzaga, um mulher que quebrou os padrões conservadores e machistas da época em que vivia.
Outro fato importante da luta feminina foi a publicação de inúmeros jornais sob a liderança de mulheres intelectuais no século passado. Estes jornais serviram como instrumento de denúncia da situação feminina daquele período, em que as mulheres estavam restritas ao espaço doméstico e eram tratadas como propriedade do homem. O direito à educação foi a grande bandeira levantada por feministas daquela época e por toda a imprensa feminina. Outro episódio pouco conhecido é o movimento conduzido por corajosas feministas pelo direito ao voto no Brasil, que só seria conquistado em 1932. No seio desse movimento, surgiram várias organizações pela defesa dos direitos da mulher. Destacam-se ao longo de todo este processo, lideranças como Berta Lutz, Maria Lacerda de Moura, Francisca Diniz e Josefina Álvares.
Apesar das mulheres brancas sempre estarem em situação melhor do que as negras, índias e mestiças, a condição feminina, por toda a história, foi de inferioridade em relação aos homens. No entanto, fato curioso é que as mais ricas não usufruíam da liberdade das mulheres mais pobres. Estas, muitas vezes abandonadas pelos maridos, eram obrigadas a buscar sustento próprio para criar seus filhos. Não eram poucas as que cultivavam hortas, e criavam animais vendendo seus produtos nas feiras; ou as que, nas cidades, comandavam padarias e pequenos negócios..
Importante também tem sido a participação das mulheres nas lutas operárias. Apesar de suportarem uma dupla jornada, trabalhando na rua e em casa, o que restringia seu tempo para a política, muitos sindicatos femininos foram fundados, muitas mulheres lideraram greves (Mariana Falgariez, Eulina de Oliveira e Eunice Longo, em São Paulo, na “Greve dos 300 mil” em março de 1953), escreveram panfletos e artigos, discursaram em congressos operários, bem como realizaram lutas específicas como a de 1901 em São Paulo, quando 700 trabalhadoras de uma fábrica de tecidos fizeram greve contra o rebaixamento de salário e a violência sexual.
Foi no interior dos movimentos anarquistas e socialistas que as mulheres procuraram demarcar um território para suas lutas. Desde os anos 50, diferentes categorias de mulheres trabalhadoras têm realizado encontros, sendo alguns considerados importantes como o I Encontro Nacional da Mulher Trabalhadora (1963), o I Congresso Nacional da Mulher Trabalhadora (1986), em SP, e o I Congresso Nacional de Mulheres Trabalhadoras Rurais, em Brasília. Por vivermos numa sociedade dominada pelos homens, todos os direitos da mulher, ainda que insuficientes, foram conquistados através das lutas femininas. As conquistas inseridas na nova constituição como licença maternidade de 120 dias, tempo para a amamentação, assim como a criação de delegacias de proteção as mulheres, foram resultados do movimento de mulheres em todo o país nos últimos 20 anos.
O caminho tem sido difícil e tortuoso, porém a resistência
e a coragem das mulheres têm mitigado a sua exclusão social
e dignificado a presença feminina nas diversas esferas da sociedade.
A MEMÓRIA POPULAR EM MARÇO
PC do B (25.03.1922) - É fundado o Partido Comunista do Brasil, fruto da elevação do grau de organização e consciência da classe operária, e que desde então tem travado lutas pelas liberdades democráticas e pelo socialismo.
Demócrito de Souza Filho, PE (05.03.1945) - Na campanha política pelo fim da ditadura do Estado Novo, um comício em Recife pró-candidatura presidencial do Brigadeiro Eduardo Gomes é dissolvido a bala pela polícia. Morre no conflito o estudante Demócrito de Souza Filho, 1º Secretário da União dos Estudantes Pernambucanos.
Revolta de Porecatu, PR (15.03.1951) - A partir da segunda metade do século XX, os conflitos de terra se intensificaram no norte do Paraná, com os latifundiários da região encontrando a firme resistência dos posseiros levando o conflito se generalizar na Revolta de Porecatu.
Greve dos 300 mil, SP (março de 1953) - Com a duração de 21 dias, ocorre em São Paulo a famosa "Greve dos 300 mil", que contou com a participação de têxteis, metalúrgicos, marceneiros, vidreiros e gráficos.
Comício na Central do Brasil, RJ (13.03.1964) - Uma multidão de 200 mil pessoas, convocada pelos sindicatos, participa de Comício na Central do Brasil em defesa das reformas de base do governo João Goulart, que foi o último orador da manifestação.
Jefferson Cardim, RS (26.03.1965) - O coronel Jefferson Cardim Osório, à frente de 30 homens, toma a cidade de Três Passos (RS), iniciando a primeira reação armada organizada contra a ditadura militar pós-64. Não obtendo apoio popular necessário, o movimento foi derrotado, três dias depois. Os seus líderes foram presos.
Edson Luís, RJ (28.03.1968) - Um grupo de estudantes realiza em frente ao restaurante do Calabouço (RJ) um protesto contra a péssima qualidade da alimentação ali servida. A tropa de choque da PM reprime a manifestação com tiros e bombas de gás, matando o estudante Edson Luís Souto. Este episódio provocou uma grande onda de protestos em todo o país, culminando com a célebre passeata dos 100 mil.
Alexandre Vannuchi, SP (16.03.1973) - É preso o estudante da USP, Alexandre Vannuchi Leme. Sua mãe, Egle Leme, em carta ao Papa Paulo VI, na Sexta Feira Santa de 1973, declara: "Alexandre foi sumariamente assassinado pelos órgãos de repressão do governo, justamente por lutar pela vigência dos Direitos Humanos no Brasil".
Movimento Contra a Carestia (12.03.1978) - Reunidos em São Paulo, sete mil operários, donas de casa, bancários, funcionários públicos e estudantes lançam a campanha de recolhimento de assinaturas para um abaixo assinado, no qual protestam contra a alta os preços e exigem o congelamento dos preços dos gêneros de primeira necessidade, abono salarial imediato e aumento de salário acima do custo de vida. Em 27 de agosto, o movimento entrega ao governo o documento com 1,3 milhão de assinaturas.
13.03.1979 - 180 mil operários entram em greve em São
Bernardo do Campo.
Congresso da Mulher Paulista (08.03.1980) - Organizado por 53 entidades,
realiza-se em São Paulo o II Congresso da Mulher Paulista, que reuniu
4 mil mulheres no maior encontro político feminista da história
do país. Como tema central, a discriminação da mulher
na sociedade brasileira.
Greve da PM, BA (Março/1981) - Mais de 10 mil oficiais e soldados da Polícia Militar da Bahia entram em greve geral, exigindo equiparação salarial com o Exército. Em um dos momentos mais tensos do movimento, os fuzileiros navais atiram num piquete matando o tenente Valmir Alcântara. Houve grande desgaste do Governo ACM, que foi responsabilizado pela violenta repressão.
26.03.1983 - Realiza-se em Brasília o I Encontro Nacional dos Servidores Públicos Federais, com 300 representantes de 13 estados. Inicia-se então uma nova fase na organização dos servidores públicos, que conta inclusive com uma paralisação nacional, em 18 de maio do mesmo ano que atingiu 200 mil servidores em 14 estados e se prolongou até o dia 21 de junho. Esse movimento propiciou mais tarde a criação de sindicatos gerais de servidores púbicos federais em todo o país, dentre tantos o SINTSEF - BA, fundado em agosto /89.
Txucarramãe (22.03.1984) - Os índios Txucarramãe, sob a liderança do Cacique Raoni, interditam por 43 dias a BR-080, mantendo 12 funcionários da FUNAI como reféns, com uma reivindicação vitoriosa de ampliação e demarcação de terra ao longo do rio Xingu.
Bancários (23.03.1987) - 750 mil bancários do país realizam a maior greve de funcionários de banco de toda a história do Brasil.
Aliança Nacional Libertadora - ANL (30.03.1935) - Em 1935, sindicalistas,
políticos independentes, tenentes e o Partido Comunista, fundam
a ANL, uma frente popular presidida por Luís Carlos Prestes. Defendendo
um programa nacionalista e anti-latifundiário, a ANL liderou o levante
de novembro de 1935 em Natal, Recife e Rio de Janeiro, reprimido pelo governo,
que promoveu prisões, torturas e assassinatos políticos.