Mulher e Historiografia

"Mais do que qualquer outro, o olhar sobre as mulheres é mediatizado; é preciso decifrar  a natureza desta mediação."
Michelle Perrot

Desde que o século XIX a história firmou-se como uma disciplina científica, ela tem dado à mulher um espaço cuidadosamente demarcado pelas representações e idéias masculinas dos historiadores que, até bem pouco tempo, a produziam com exclusividade. A primeira mirada sobre as mulheres, se bem que oblíqua e moralista, vem de Michelet, em 1859, no seu livro " La Femme". O conhecido historiador francês compreendia o movimento da história como uma resultante da relação dos sexos, modulado pelo conflito latente entre a mulher/natureza e o homem/cultura. A mulher, ressalva Michelet, só teria papel benefício neste processo se dentro do casamento e enquanto cumprindo o papel de mãe. Ao fugir da benfazeja esfera da vida privada ou, ao usurpar o poder político como faziam as adúlteras e as feiticeiras, elas tornavam-se um mal.
Na segunda metade do século XIX, o sexo individual, masculino ou feminino, tem importância relativa para os historiadores, mas a questão do matriarcado absorve o debate antropológico. Engels então discutia Morgan e Bachofen e escrevia "A origem da família...",subordinado a liberação da mulher a uma revolução da propriedade privada. Sucedeu-o o positivismo de Seignobos que rejeitava a história dos sexos e do cotidiano, elegendo o povo e o Estado como objetos por excelência.
Nos anos 1930, os Annalies de Marc Bloch e Lucien Fébvre inauguram o predomínio do econômico e do social, através dos estudos de conjuntura, mas não levam em conta a dimensão sexual. Em estudos sobre a família, mas esmagada sob o rigorismo de Le Play, ela é sufocada. Dos anos 20 aos 40, a história da mulher é confundida com  feminismo e origina algumas obras como os de Jules Puech e Leon Abensour, muito voltadas para a sociologia.
Neste interim, o campo então inovador da demografia histórica da mulher elucidava sobre as mulheres, consideradas tão-somente uma variável de reprodução. Não levando em conta as mulheres sós, apenas os casais, a demografia histórica ainda reafirmava o caráter patrilinear da História  ao utilizar unicamente os patronímicos masculinos para a reconstituirão de famílias.
 Foi sem dúvida  a partir de 1970, com a "Nouvelle Histoire" favorecendo a expansão da Antropologia Histórica, que se colocou em debate o papel da família e da sexualidade, e com a história das mentalidades, voltada para pesquisas sobre o popular, que se inaugurou uma conjuntura mais aberta para se ouvir falar a mulher. Duas preocupações marcavam a produção que ora se iniciava:
1) Fazer emergir a mulher no cenário de uma história pouco preocupada com as diferenças sexuais;
2) Demonstrar a exploração, a opressão e a dominação que vitimavam as mulheres.
Trabalhos fortemente marcados por estas características acabaram levando a história da mulher a um isolamento intelectual, e a estudos circulares sem maior influência na disciplina histórica. Nestes últimos dez anos muito se aprendeu com os avanços historiográficos, e vale incorporar algumas lições ao nosso fazer a história da mulher no Brasil. A dialética, sempre utilizada, da dominação masculina versus opressão feminina, deve ser evitada por sua circularidade, e substituída pela análise das mediações, no tempo e no espaço, através das quais qualquer dominação se exerce. Deve-se fugir da história que faz da mulher uma vítima, ou o seu inverso. As zonas de análise mais produtivas para a história da mulher s]ao as nebulosas, onde encontramos as mulheres anônimas, ou com diria Duby, “os murmúrios femininos que se perdem num coro tonitruante de homens que os sufocam”.
Melhor do que tentar responder se as mulheres tinham poder, é tentar decodificar que poderes informais e estratégias elas detinham por trás da ficção do poder masculino, e como se articulavam a sua subordinação e resistência . O estudo dos discursos normativos sobre a mulher deve ser estimulado quando levar em conta as práticas sociais, do contrário, tendo no homem o sujeito das falas, e a mulher seu objeto, corre-se o risco de fazer um retrato fora de foco do segmento feminino.
 Vale dizer, finalmente, que o território do feminino na história não é um lugar sereno, onde a mulher se locomove sem riscos, e onde o confronto e o conflito não imprimem suas marcas. A história da mulher é, antes de tudo, uma história de complementaridades sexuais, onde se interpenetram práticas sociais, discursos e representações do universo feminino como uma trama, intriga e teia.
 A história da mulher, que tornou visível o que estava esquecido ou mesmo desapercebido, tem no Brasil suas pioneiras. Míriam Moreira Leite, Maria Opila Silva Dias e Maria Beatriz Pizza da Silva marcaram a produção historiográfica com trabalhos notáveis e o ineditismo das fontes com que lidaram. A iconografia e a fotografia, os relatos de viajantes estrangeiros, os processos civis e criminais, a tradição oral, a documentação eclesiástica foram por estas brilhantes autoras diagnosticados e interpretados, introduzindo-nos no mundo feminino da casa, do trabalho, do casamento e da família ao longo do século XIX.
 Para contribuir com estes esforços precursores, gostaríamos de retroceder ao período colonial, desconhecido momento de gênese de papéis femininos muito difundidos em nossa sociedade. A maternidade, a piedade e a sexualidade, domesticada ou não, constituíram-se em atitudes e hábitos de assimilação ou resistência à implantação do sistema colonial, que convém analisar nas prática do personagem feminino mais representativo então: a branca pobre, a mulata e a negra forra enquanto mãe, devota e infratora. Confrontar tais mulheres com o discurso erudito que se lhes é oferecido como padrão de comportamento, parece-nos o primeiro passo a ser dado.
 

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