Roberto
Pompeu de Toledo
Um elenco das questões que, no
pós-guerra, se imporão para
reerguer a potência guerreira
E a
reconstrução dos Estados Unidos? Fala-se com insistência na reconstrução do Iraque,
quando terminar a guerra, mas há outra, muito mais importante, por se fazer – a
da atual potência guerreira. Por mais vitoriosa nas armas, ela sairá em
frangalhos da atual empreitada. Isso exigirá esforços de reconstrução em
diferentes áreas, a saber:
Reconstrução
econômica – Nos primeiros dias Wall Street reagiu com euforia, de olho nos
supostos bons negócios do pós-guerra, uma vez cumprida a etapa de meter
a mão nos poços de petróleo do Iraque. Logo, caiu na realidade. Na semana
passada, o presidente George W. Bush apresentou ao Congresso uma conta de 75
bilhões de dólares, para financiar a guerra. Esse total, explicou o governo, é
para cobrir trinta dias de conflito. Se durar mais, vai custar mais. Ao mesmo
tempo, o governo prossegue em seu programa, a esta altura com ares suicidas, de
cortar 500 bilhões de dólares em impostos. Um
editorial do The New
York Times identificou nesse programa potencial "para conduzir o país
a uma década de desastre orçamentário".
Reconstrução
social – O corte de 500 bilhões de dólares em impostos vai beneficiar o 1%
de americanos mais ricos em prejuízo de programas que vão da assistência médica
e da educação aos "food stamps",
ou selos de comida – o Fome Zero americano. Governos
republicanos, tradicionalmente, não acreditam em programas sociais. Este, menos
ainda. Até a ajuda aos veteranos de guerra – num tempo de guerra – será
cortada. A esse desprezo pelas funções sociais do governo, junta-se
um possível acirramento das tensões raciais. As sondagens de opinião detectam
amplo apoio da opinião pública à guerra de Bush, mas há nelas um detalhe
revelador. A última pesquisa New York Times/CBS
mostrou que, enquanto esse apoio é de 78% entre os brancos, cai para 37% entre
os negros.
Reconstrução
política – Os Estados Unidos, tal como tantos países árabes, estão precisando
de uma oposição. O governo Clinton sofreu marcação implacável de seus
oponentes, quase sempre insuflada pela direita cristã hoje no poder – tão
implacável quanto, no Brasil, a do PT contra o governo Fernando Henrique. Já o
governo Bush goza de inexplicável complacência. O fato de ter sido eleito de
forma fraudulenta, e isso ter ficado por isso mesmo, é espantoso. A guerra veio
piorar a situação. A oposição se recolheu, por medo de ser chamada de
impatriótica.
Reconstrução diplomática – Passemos por cima da complicação que será
retomar a ONU, a Otan, as relações com a Europa. Fiquemos em nossos domínios.
Hoje parece um pouco menos absurdo o temor de que as negociações para a Alca possam desenvolver-se num clima de choque e pasmo.
Reconstrução
da credibilidade – Onde foi parar o admirável profissionalismo da imprensa
americana? Onde a lição do Vietnã? Onde o espírito de Watergate?
A destruição do equívoco e da mentira que embalaram a intervenção no Vietnã foi
obra da imprensa. Isso representou como que uma revolução libertadora. Nunca
mais a imprensa se deixaria envolver no engodo tingido de patriotismo das
fontes governamentais, durante as guerras, como historicamente foi o caso. No
entanto... Lá estão a televisão e os jornais populares dos Estados Unidos
cobrindo a guerra de maneira tão infantil quanto na I Guerra Mundial, tão
engajada como na guerra de 1898 contra a Espanha, que resultou na independência
de Cuba e na anexação das Filipinas e de Porto Rico, repórteres e comentaristas
torcendo para os "nossos rapazes", segurando
a flama dos "nossos valores" a ser ofertados, como dádiva, a povos
menos aquinhoados.
Reconstrução
da tolerância – Porque a cantora do Dixie Chicks, um grupo de música country, ousou posicionar-se
contra a guerra, seus discos passaram a ser boicotados
pelas rádios. Na Louisiana, organizou-se um evento em que um trator passou por
cima de um amontoado de CDs e fitas do grupo. Duros tempos, estes, para quem
pensa diferente, nos Estados Unidos.
Reconstrução
da decência administrativa – A empresa Halliburton,
em que trabalhou o vice-presidente Dick Cheney, foi contratada para apagar incêndios nos poços de
petróleo do Iraque. A simbiose entre política e negócios, especialmente os
negócios dos amigos, é uma marca do governo Bush. Um amigo do Texas, Tom Hicks, associado à família Bush em passados investimentos,
é hoje o vice-presidente de uma rede de 1.200 emissoras de rádio que se tem
revelado a campeã na promoção de manifestações a favor da guerra.
Reconstrução moral – A moralidade, naturalmente, tem a ver
com todos os itens anteriores. Fiquemos aqui com um seu único aspecto: o
respeito, ou desrespeito, à vida. A pirotecnia das bombas caindo sobre uma
cidade não tem mais graça. Até que tinha na primeira Guerra do Golfo, quando a
tecnologia causava admiração, a causa era justa e ainda se acreditava que
bombardeios podiam ser "cirúrgicos". Hoje, sabe-se que o único papel
daquele fogaréu é integrar o festim da morte.