As Contradi��es do
Corpo
Meu
corpo n�o � meu corpo,
� ilus�o de outro ser.
Sabe a arte de esconder-me
e � de tal modo sagaz
que a mim de mim ele oculta.
Meu
corpo, n�o meu agente,
meu envelope selado,
meu rev�lver de assustar,
tornou-se meu carcereiro,
me sabe mais que me sei.
Meu
corpo apaga a lembran�a
que eu tinha de minha mente.
Inocula-me seu patos,
me ataca, fere e condena
por crimes n�o cometidos.
O
seu ardil mais diab�lico
est� em fazer-se doente.
Joga-me o peso dos males
que ele tece a cada instante
e me passa em revuls�o.
Meu
corpo inventou a dor
a fim de torn�-la interna,
integrante do meu Id,
ofuscadora da luz
que a� tentava espalhar-se.
Outras
vezes se diverte
sem que eu saiba ou que deseje,
e nesse prazer maligno,
que suas c�lulas impregna,
do meu mutismo escarnece.
Meu corpo ordena que eu saia
em busca do que n�o quero,
e me nega, ao se afirmar
como senhor do meu Eu
convertido em c�o servil.
Meu
prazer mais refinado,
n�o sou eu quem vai senti-lo.
� ele por mim, rapace,
e d� mastigados restos
� minha fome absoluta.
Se
tento dele afastar-me,
por abstra��o ignor�-lo,
volta a mim, com todo o peso
de sua carne polu�da,
seu t�dio, seu desconforto.
Quero
romper com meu corpo,
quero enfrent�-lo, acus�-lo,
por abolir minha ess�ncia,
mas ele sequer me escuta
e vai pelo rumo oposto.
J�
premido por seu pulso
de inquebrant�vel rigor,
n�o sou mais quem dantes era:
com vol�pia dirigida,
saio a bailar com meu corpo.
Carlos Drummond de
Andrade
Corpo, RJ, Record,1984.