Teologia é Ciência
Cientistas são homens de fé. Digo isso porque todo cientista
precisa escolher pontos de referência antes de começar
a desenvolver suas teorias, ainda que essas escolhas nem sempre sejam
tão científicas quanto os próprios cientistas gostariam
que fossem.
.
Comecemos então a partir do seguinte ponto: a Teologia é
uma ciência da religião.
Essa é uma afirmação bastante polêmica e
eu não pretendo (nem poderia) responder o por quê da minha
escolha. No entanto, antes que alguém comece a me acusar de fanatismo,
vou logo reforçando minha posição através
de alguns comentários feitos pelo professor da Universidade Metodista
de São Paulo, Antonio Gouvêa Mendonça.
Antes de mais nada, é preciso falar sobre a relação
entre Teologia e ciência.
A cientificidade da Teologia está baseada nos argumentos de Wilhelm
Dilthey (1833-1911) e Ernst Troeltsch (1865-1923). Mendonça explica
que, segundo esses autores, a Teologia se encontra entre as chamadas
"ciências do espírito".
Contudo, no caso da Teologia, trata-se de uma ciência peculiar.
Apesar de sustentar uma "dimensão crítica" como
toda ciência, a Teologia não pode jamais negar "a
sua natureza revelada, mediada exclusivamente pela fé".
Em outras palavras, existe um lado subjetivo da Teologia que pode colocá-la
"a serviço da Igreja como racionalização do
poder nas mãos desta". E isso leva à dogmática
que, "embora seja um saber organizado e, como tal, tem direito
ao título de ciência especial, não deve ser incluída
no rol das ciências da religião por causa da sua relação
com a autoridade institucional que é a Igreja".
O que confere o caráter científico à Teologia é
justamente o seu lado crítico, que visa "uma construção
de pensamento desinteressada e descompromissada". Ou seja, a Teologia
deve ser "exercida independentemente da dogmática e da autoridade
religiosa". Dessa forma, a Teologia "não se subordina
a nenhuma autoridade e apresenta uma segunda mediação,
representada pela pressão social". A Teologia como ciência
tem, portanto, um "semblante revolucionário".
Mendonça afirma que uma Teologia assim traria benefícios
diretos para a Igreja, uma vez que "a igreja sempre se reformaria
e renovaria". Nas suas palavras:
A reflexão teológica com rigor acadêmico, embora
seja quase sempre feita no interior da academia, parte necessariamente
da igreja. O teólogo, enquanto tal, não existe sem a igreja.
É necessário, portanto, que esta o acolha e o respeite
ao mesmo tempo que submete seu pensamento à crítica. Daí
o moto: Ecclesia reformata semper reformanda est.
Todavia, a reforma da igreja não é um fim em si mesmo.
É preciso que os benefícios experimentados pela comunidade
dos crentes alcancem a sociedade como um todo. Caso contrário,
a própria Igreja acabará se fragilizando em meio à
sociedade. É interesante observar a comparação
que Mendonça faz – em termos sociais – entre o "tímido"
protestantismo brasileiro e o catolicismo da Teologia da Libertação
nos anos 60 e 70. Ele lembra que "é necessário também
que o pensamento teológico protestante, seja tradicional ou autóctone,
ao mesmo tempo que renove as igrejas avance para o interior da sociedade
brasileira". E isso como uma questão de sobrevivência
do próprio protestantismo.
A conclusão extraída a partir do pressuposto adotado neste
trabalho é: a Teologia como ciência da religião,
devido à peculiaridade de sua natureza, tem condições
de promover a reforma e a renovação das igrejas protestantes
brasileiras, o que resultaria em benefícios para as próprias
igrejas e, conseqüentemente, para toda a sociedade.
Minha esperança com este trabalho é simples: que a Teologia
como ciência da religião possa dar a sua contribuição
para o surgimento de uma sociedade mais justa.
Quem é e quem deve ser o teologo?
O bacharel em Teologia deverá ser um sujeito aberto à
realidade, com seus desafios estruturais e conjunturais, comprometido
com a construção de uma sociedade justa, plural e inclusiva,
com espírito ecumênico e capaz de interpretar com profundidade
e equilíbrio os textos referenciais e as convicções
fundamentais do Cristianismo. Deverá, ainda, estar consciente
da necessidade de formação permanente, preparado para
inserir-se em trabalhos pastorais, disposto e capacitado para acolher
e dialogar com a cultura e as práticas religiosas populares,
comprometido com a emancipação da pessoa humana, solidário
com as causas populares e capacitado ao diálogo transdisciplinar
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