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Ponto de
vista: Lya Luft - Revista Veja, em 25/08/2004 Baleias não me emocionam "Não é que eu ache que sofrimento de animal não valha a pena, a solidariedade, o dinheiro. Mas eu preferia que tudo isso fosse gasto com eles depois de não haver mais crianças pedindo esmolas, adultos famintos, famílias morando embaixo de pontes e adolescentes morrendo drogados nas calçadas" Hoje quero falar de gente e bichos. De notícias que freqüentemente aparecem sobre baleias encalhadas e pingüins perdidos em alguma praia. Não sei se me aborrece ou me inquieta ver tantas pessoas acorrendo, torcendo, chorando, porque uma baleia morre encalhada. Mas certamente não me emociona. Sei que não vão me achar muito simpática, mas eu não sou sempre simpática. Aliás, se não gosto de grosseria nem de vulgaridade, também desconfio dos eternos bonzinhos, dos politicamente corretos, dos sempre sorridentes ou gentis. Prefiro o olho no olho, a clareza e a sinceridade – desde que não machuque só pelo prazer de magoar ou por ressentimento. Não gosto de ver bicho sofrendo: sempre curti animais, fui criada com eles. Na casa onde nasci e cresci, tive até uma coruja, chamada, sabe Deus por quê, Sebastião. Era branca, enorme, com aqueles olhos que reviravam. Fugiu da gaiola especialmente construída para ela, quase do tamanho de um pequeno quarto, e por muitos dias eu a procurei no topo das árvores, doída de saudade. Na ilha improvável que havia no mínimo lago do jardim que se estendia atrás da casa, viveu a certa altura da minha infância um casal de veadinhos, dos quais um também fugiu. O outro morreu pouco depois. Segundo o jardineiro, morreu de saudade do fujão – minha primeira visão infantil de um amor romeu-e-julieta. Tive uma gata chamada Adelaide, nome da personagem sofredora de uma novela de rádio que fazia suspirar minha avó, e que meu irmão pequeno matou (a gata), nunca entendi como – uma das primeiras tragédias de que tive conhecimento. De modo que animais fazem parte de minha história, com muitas aventuras, divertimento e alguma emoção. Mas voltemos às baleias encalhadas: pessoas torcem as mãos, chegam máquinas variadas para içar os bichos, aplicam-se lençóis molhados, abrem-se manchetes em jornais e as televisões mostram tudo em horário nobre. O público, presente ou em casa, acompanha como se fosse alguém da família e, quando o fim chega, é lamentado quase com pêsames e oração. Confesso que não consigo me comover da mesma forma: pouca sensibilidade, uma alma de gelos nórdicos, quem sabe? Mesmo os que não me apreciam, não creiam nisso. Não é que eu ache que sofrimento de animal não valha a pena, a solidariedade, o dinheiro. Mas eu preferia que tudo isso fosse gasto com eles depois de não haver mais crianças enfiando a cara no vidro de meu carro para pedir trocados, adultos famintos dormindo em bancos de praça, famílias morando embaixo de pontes ou adolescentes morrendo drogados nas calçadas. Tenho certeza de que um mendigo morto na beira da praia causaria menos comoção do que uma baleia. Nenhum Greenpeace defensor de seres humanos se moveria. Nenhuma manchete seria estampada. Uma ambulância talvez levasse horas para chegar, o corpo coberto por um jornal, quem sabe uma vela acesa. Curiosidade, rostos virados, um sentimentozinho de culpa, possivelmente irritação: cadê as autoridades, ninguém toma providência? Diante de um morto humano, ou de um candidato a morto na calçada, a gente se protege com uma armadura. De modo que (perdão) vejo sem entusiasmo as campanhas em favor dos animais – pelo menos enquanto se deletarem tão facilmente homens e mulheres. Lya Luft é escritora
Cartas publicadas sobre o artigo na edição de 01/09/2004 da Revista Veja Num tempo em que a hipocrisia e a mídia,
de mãos dadas, ditam nosso modo de agir e pensar, fico muito feliz ao ler
o último artigo de Lya Luft ("Baleias não me emocionam", Ponto
de vista, 25 de agosto). Nós nos sensibilizamos com aquilo que não nos
causa esforço. Como nos sensibilizar com um mendigo na calçada quando
poderíamos tê-lo auxiliado? Melhor pensar nas baleias, coitadinhas. Como
também são coitadinhos aqueles que passam fome na África, nunca os
famintos de nossas ruas. Passo, a partir de hoje, a ler seus textos com
outros olhos. A senhora ganhou meu respeito e minha admiração. Estou decepcionada com o Ponto de vista
escrito por Lya Luft. Não esperava um texto tão frio de uma escritora
que havia demonstrado tanta sensibilidade anteriormente. Sou defensora dos
animais e acredito que os seres humanos têm uma idéia terrivelmente
equivocada de que são prioridade na Terra. Somos apenas elementos que
compõem a vida no planeta. Acredito que a humanidade é responsável
pelas maiores tragédias do nosso planeta, desde baleias encalhadas até a
miséria brasileira de todos os dias. É interessante como certos
"intelectuais" brasileiros gastam seu tempo em criticar os
defensores de animais. E é sempre o mesmo argumento: a vida da espécie
humana é mais importante que a vida de qualquer outra espécie animal.
Esse tipo de pensamento Peter Singer definiu como "specisism".
Em vez de criticar os que fazem, da próxima vez que uma criança faminta
aparecer na janela do seu carrão com ar-condicionado, faça como os
protetores de animais: pegue esse ser e leve para sua casa, dê de comer e
trate-o com amor e carinho. Quando Lya Luft propõe que só voltemos
nossa atenção para os direitos animais depois que tivermos resolvido os
problemas humanos, ela propõe a negligência perpétua dos animais. Isso
porque nunca chegará o dia em que todos os problemas humanos estarão
resolvidos. Um estudo feito nos EUA mostra uma
relação entre crueldade com seres humanos e com animais – muitos
serial killers começaram matando animais. Os adolescentes responsáveis
pelos recentes tiroteios em colégios americanos têm em comum um passado
de violência contra animais. Outras opiniões de leitores sobre o artigo "Baleias não me emocionam" - exclusivo on line Há muito eu não lia um artigo tão
sóbrio sobre o tratamento do ser humano com os animais. Ao escrever sobre
a baleia encalhada no Rio, Lya Luft encontrou o ponto certo: não se trata
de desconsiderar os animais, mas apenas de priorizar o ser humano.
Parabéns, Lya Luft, pelo equilibrado artigo. Comungo com Lya Luft em sua opinião sobre
os animais. Compartilho respeito e amor por eles e abomino o trato de
gente que tantos bichos recebem enquanto seres humanos não recebem a
ínfima parte desse trato. Comovem-me, sim, notícias como a de seres
humanos queimados vivos por viverem nas ruas à falta de um teto.
Entristece-me, sim, saber que tantos passam frio, não têm o que comer, o
que vestir ou que não têm acesso a assistência médica. Quanta criança
privada de futuro por já nascer condenada, excluída da sociedade, sem
direito a um lar, alimentação, creche, escola, educação... As prisões
aí estão abarrotadas e, dentro delas, quantos artistas, médicos,
professores, mecânicos, comerciantes, empresários que não tiveram o
direito de "nascer" pela falta de mínimas oportunidades.
Enquanto isso, verdadeiras somas são direcionadas aos animais... O que é
isso? Que inversão é essa? Se a sociedade fosse realmente tão boa e
solidária quanto acredita ser, pelo que oferece de amor e dinheiro aos
animais, certamente colocaria as prioridades humanas num plano de maior
respeito. Conterrânea Lya, entre a angústia de um
indivíduo sensível sobre "a qual causa, dentre todas as que me
solicitam, devo doar minha contribuição?", e o erro filosófico de
hierarquizar sofrimentos, corre um oceano. Neste oceano, com uma angústia
apenas doméstica, podemos auxiliar a encalhar o trabalho de muitas
gerações para expandir a consciência sobre o meio ambiente e o valor da
vida em si - animal, vegetal, mineral. Para a questão sobre qual
sofrimento será mais urgente ou importante, temos que assumir um
distanciamento olímpico e suportar a ausência de respostas cabais.
Hierarquia de sofrimentos é um critério filosoficamente insustentável.
Sugiro chorar por todos os sofrimentos, sem pudores. Atualmente, centenas de profissionais bem
sucedidos, sobretudo jovens, trocam seus empregos estáveis em grandes
empresas pelo trabalho em ONGs que promovem a capacitação profissional
de adolescentes de favela, que levam saúde, educação e arte para
populações carentes. O voluntariado é um dos movimentos que mais
crescem no país. Há vinte anos, uma baleia encalhada não causaria
comoção alguma, como também seria considerada excêntrica uma pessoa
que optasse pelo Terceiro Setor. O aumento da solidariedade humana em
relação aos animais é proporcional ao aumento da solidariedade entre os
humanos. O que a escritora não compreendeu é que as pessoas que se
comoveram com o sofrimento da baleia encalhada são as mesmas que lutam,
na prática, de verdade, para acabar com o sofrimento dos humanos - ao
contrário dos que ficam em suas casas confortáveis, escrevendo pontos de
vista superficiais sobre assuntos que desconhecem. A espécie humana apresenta a
característica de defender os membros dos grupos a que pertencem, criados
em função de raça, credo, classe, nacionalidade e, por que não,
espécie. Estas diferenças vêm, ao longo dos séculos, justificando
agressões intermináveis entre e dentro dos grupos. Os homens dispõem de
diversos "Greenpeaces" ("Crianças Esperanças",
milhares de ONGs, governos, etc) para se defenderem de si próprios. As
outras formas de vida, no entanto, não conseguem se articular contra a
multiplicação descontrolada de uma espécie, que surgiu em um planeta
onde já existia vida há milhões de anos e a está depredando em poucas
centenas. Humanos se emocionarem com o sofrimento de um outro ser vivo,
capaz inclusive de sofrer e de expressar sentimentos, é um reconhecimento
de que todos fazemos parte do mesmo mundo, uns dependendo dos outros. Se
emocionar com as baleias é se emocionar com a vida, condição
indispensável para reduzir as diferenças entre os seres humanos. A escritora Lia Luft parece desconhecer e
não compreender, pelo menos, as diferenças (e interesses) políticas,
estratégicas, financeiras e históricas, sem comentar agora as de
imprensa e propaganda, envolvidas em questões ambientais e sanitárias
(uma baleia ou outro animal - sobretudo do tamanho de um grande cetáceo -
moribundo ou não, em área urbana pode ser causador ou vetor de zoonoses)
comparadas às de educação escolar e discrepância sócio-econômica,
entre outras, causadoras dos meninos de rua, mendigos, etc, nas palavras
da escritora. Encalhes da baleias vivas reportados são raros na costa
brasileira, sobretudo comparados ao numero de mendigos e meninos de rua
pedindo dinheiro na porta de seu carro (no Rio de Janeiro e em São Paulo,
e claro). Estes encalhes permitem obter muitos dados científicos aos
ainda raros pesquisadores desta área, apesar da enorme dificuldade
financeira e logística que estes enfrentam em sua batalha. Aliás,
deveríamos ter muito mais recursos humanos, logísticos e financeiros
para a pesquisa de cetáceos no país. Estes encalhes possibilitam também
ao grande publico conhecer um pouco de uma das nossas maiores riquezas,
nossa fauna silvestre, que invariavelmente, sobretudo no caso das baleias
jubarte e franca, foram exploradas até a beira da extinção. Acho
totalmente aceitável e correto as pessoas não se emocionarem com o
encalhe de um cetáceo pré adolescente (o caso daquela baleia no Rio de
Janeiro). Mas misturar isto com problemas resultantes de nossa já
conhecida e não combatida histórica e maquiavélica diferença
sócio-econômica é, no mínimo, falta de visão. Eu me considero privilegiada pela minha
capacidade de amar todos os seres vivos, de sentir compaixão, de me É de surpreender que a escritora, à essa
altura da própria vida, tenha cometido tamanho despropósito com esse
artigo. O eufemismo que pratica em seu texto não encobre por completo a
pequeneza de sua dispensável opinião: ventos nórdicos e almas não têm
ligação qualquer com tamanha falta de senso. O posicionamento da
escritora em nada contribui para se decodificar e solucionar problemas
como a violência humana e a preservação ambiental como um todo.
Lamentável colocar na mesma seara baleias e crianças, que, apesar de
mamíferos, não são a mesma coisa. A tentativa de conexão dos assuntos
- da maneira que foi proposta - é quase infantil. Talvez a escritora não
entenda nada de baleias, crianças, mendigos, imprensa, simpatia e bom
senso. A senhora Lya Luft sequer é original
quando picha a conservação da fauna marinha brasileira - Rachel de
Queiroz também abominava a natureza. Felizmente, os defensores da
natureza proliferam a olhos vistos. A exemplo de tantas outras espécies, as
baleias cada vez mais encalham nas praias de todos os lugares, mais por
conseqüências das ações dos homens do que por seus instintos ou mera
fatalidade. Nossos oceanos estão se tornando verdadeiras latas de lixo;
empresas e governos realizam testes submarinos cada vez mais intensivos
que desnorteiam baleias e outras espécies e a senhora acha que tentar
salvar as que encalham é coisa de quem não tem mais o que fazer. Ora,
que demagogia achar que devemos abandonar causas que protegem os animais
por achar que poderíamos agir mais a favor do ser humano. Um erro não
justifica outro. Não é porque há miseráveis e crianças abandonadas
que devemos deixar os animais à mercê de sua própria sorte. Toda vida
merece ser salva. O homem extermina a natureza e animais por ações
criminosas, mas aceitáveis na sociedade, tudo em nome do progresso humano
que, infelizmente resume-se aos interesses do poder econômico. Devemos
sim, cuidar dos nossos irmãos humanos, porém, jamais abandonar nossos
irmãos irracionais, não medindo esforços nem sacrifícios para servir
tanto a um quanto a outro, porque todo problema requer cuidados, seja ele
qual for. Os animais, como seres espirituais em evolução, são nossos
companheiros de jornada, merecendo ser respeitados e, sobretudo, amados. As emoções brotam nas pessoas por razões
diferentes. Há quem chore ao ver um quadro de Picasso e quem não liga a
mínima. Eu prefiro baleias a Picasso. Se uma baleia encalhasse na praia
onde moro eu ficaria torcendo por sua volta ao mar. Só vi duas até hoje,
mesmo assim ao longe. Sei que são enormes e que empurrá-las de volta ao
mar exige força, trabalho em equipe, decisão e compaixão. Se encalhasse
um ser desses por dia a rotina mataria a emoção e trataríamos baleias
como tratamos os velhos, os pobres, os loucos, os doentes... Torçamos
para que isso não aconteça. Há algum tempo um tubarão (ou seria um
golfinho?) foi morto a pauladas numa praia do Rio. Pergunto-me por que
alguém deu a primeira paulada. Não é de assustar? Por que o enjôo com
quem se dispõe a salvar, seja lá o que for? É doloroso saber da fome
das pessoas e é possível, ao mesmo tempo, se comover com baleias,
pessoas e até com corujas condenadas a ausência do par. Os sentimentos
não se excluem e envolvem muitos outros detalhes. Vamos torcer pelas
baleias e por quem as salva. Torcer pelos que nada têm e pelos que os
ajudam. Sobre a coruja de sua infância, prisão é prisão. Coruja quer
viver com coruja, solta na mata. Não admira que a comoção da escritora
Lya Luft seja difícil de ser alcançada, pois desde muito jovem conviveu
com o sofrimento de animais silvestres sem se atentar para isso. Corujas
em gaiolas e veados em ilhas de jardim são realmente uma grande
demonstração da crueldade com animais que presenciamos todos os dias.
Não só a crueldade com os animais precisa ser barrada em nossa sociedade
mas também os efeitos catastróficos da ação humana sobre os
ecossistemas. As baleias, assim como outras espécies que compõe estes
ecossistemas, estão sobre constante ameaça de desaparecerem do nosso
planeta. Ações como as da mobilização para o salvamento de uma baleia
são de extrema importância para que nossas crianças cresçam não só
com todo o amor e atenção que merecem mas também com uma visão do
mundo muito melhor do que a presenciada pela escritora. Campanhas em favor dos animais não têm
efeito apenas imediato e individual. Funcionam sobretudo a longo prazo,
para beneficiar e conscientizar também as futuras gerações. É
inegável a necessidade de se prestar mais assistência a seres humanos.
Mas é igualmente importante (e humano) salvar animais e despertar a
consciência ecológica na população. Uma coisa não exclui a outra. Sob
a bandeira da prioridade às pessoas acomodam-se aqueles que não fazem
nada, nem por gente nem por bichos. Em vez de pedir perdão seria mais
prudente abster-se de publicar opiniões inconseqüentes. Não basta a
indiferença ao sofrimento dos bichinhos em experiências científicas que
beneficiam apenas o homem? Num país com deficiência de cultura
ambiental como o nosso, qualquer coisa escrita neste sentido vale muito,
principalmente em veículos de comunicação tão importantes quanto a
revista VEJA. Será que nos falta conhecimento ou sensibilidade? A
primeira delas é mais fácil conseguir e espero que não seja lendo este
tipo de matéria, que mais me parece um discurso de imediatismo. Ora,
vamos morrer mesmo, para que deixar alguma coisa para os outros... e essas
baleias, com certeza, só servem mesmo para atrapalhar nosso banho de sol
quando atolam e morrem na praia. Elas vêm aqui para "atolar"
mesmo, não sei nem para que existem! Em um país onde o ambiente não é
prioridade, profanações descabidas como esta caem tão bem quanto uma
luva. Só espero que, a infinidade de leitores desta revista não acredite
que as baleias sejam a causa da desigualdade social neste país e, estas
palavras que tive o desprazer de ler, sirvam para aumentar a vontade da
população de segurar um pouco a biodiversidade deste planeta,
respeitando-o um pouco mais. A senhora Lya Luft talvez tenha se
esquecido que animais procriam por instinto, não sabem pedir socorro,
não têm o hábito de caçar homens para traficá-los, tirar suas peles e
fazer casacos, abrir-lhes as entranhas ainda vivos em laboratórios para
se produzir perfumes. Creia senhora Lya, baleias não encalham por estar
praticando algum esporte radical. Na minha opinião, estrume de gado tem
mais utilidade do que certos seres humanos que habitam este planeta; pode
adubar um jardim, por exemplo. |