Este texto foi retirado da revista Caros Amigos de outubro/2000.

Duas histórias de sucesso
Uma, a dos sem-terra; a outra, a dos sem-vergonha

As duas maiores histórias de sucesso no Brasil de hoje são a do Movimento dos Sem-Terra e a da – como chamá-la? – cultura da mão dupla (uma mão lava a outra, uma mão molha a outra, uma mão jura que não sabia o que a outra estava fazendo) que se desenvolveu à sombra da pseudo-social-democracia em flor no poder, e da qual só nos deixam ter vislumbres a cada investigação de escândalo abordada. Pode parecer cruel comparar os despossuídos do MST com os beneficiários de arranjos, conchavos e lobbies ao contrário de Brasília, mas o MST é, sim, um sucesso e, como os sem-vergonha, também deve seu sucesso a uma forma de pré-absolvição.

Nenhum outro movimento social se organizou e se mobilizou como o dos sem-terra no Brasil recente e, se alguma coisa foi feita em matéria de reforma agrária nestes últimos anos, foi devido à sua pressão. Com os sindicatos acuados pela crise e a oposição esmagada ou enrolada pela "base de sustentação" do governo, o MST conta com a determinação dos que não têm nada a perder e a evidente justiça da sua causa – cujo argumento mais óbvio e indiscutível é a simples existência de uma "causa" fundiária num país deste tamanho – e é hoje a única força de contestação conseqüente à situação. Fora um banho de sangue, que pegaria muito mal lá fora, o governo não tem muitas outras maneiras de lidar com o problema do que já faz, que é ceder aos poucos e protelar o que pode. Já que nem o problema nem o MST irão embora e uma reforma agrária mesmo, como a prometida, parece estar fora da questão.

O sucesso dos espertos impunes em Brasília se deve a uma decisão tácita de que este governo não pode ser perturbado por questões menores, como a ética, quando tantos interesses maiores dependem da sua absolvição, apesar das provas em contrário. Como a justiça da sua briga garante a razão dos sem-terra, a conveniência política da sua impunidade garante o sossego dos sem-vergonhas.

E, no fim, os dois sucessos derivam de dois fracassos. A falta de uma política agrícola e de uma política industrial no caso dos excluídos sublevados e a falta de uma mudança nos hábitos da República, apesar de toda a retórica reformista, no caso dos incluídos corruptos.

Luis Fernando Verissimo

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