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Arquivo do Estado guarda documentos sobre a atuação da Shindô-Renmei em Lucélia
Nossa Lucélia - 27.12.2006
Marcos Vazniac - O Arquivo do Estado de São Paulo guarda valiosos documentos sobre o passado do país. Muitos documentos do antigo Deops estão arquivados prontos para serem devorados pelos pesquisadores.
O livro Shindô-Renmei: terrorismo e repressão, escrito pelo historiador Rogério Dezen, enfoca a atuação da Shindô-Renmei no estado de São Paulo e no Brasil.
Por incrível que pareça a presença de membros desta milícia em Lucélia é maior do que se imaginava. Lucélia era a quinta cidade da região com mais militantes da Shindô-Renmei. Haviam cerca de 5.500 associados que contribuíam religiosamente com a milícia. Lucélia tinha menos associados que Marília (12.000), Pompéia (10.000), Tupã (8.500), Mirandópolis (5.700). Por incrível que pareça, Lucélia tinha mais associados que as cidades de Osvaldo Cruz e Bastos, onde a presença de imigrantes japoneses era grande.
Vale lembrar que a região da Alta Paulista concentrava 37,72% dos associados no estado de São Paulo, o que faz com que os números apresentados na pesquisa são relevantes. O livro traz nomes de japoneses membros da milícia presos pela polícia em Lucélia, e que tiveram sua expulsão do território nacional, decretada pelo governo.
Podemos citar:
Atsuji Tanaka, foi preso em abril de 1946, na cidade de Lucélia, suspeito de fazer parte da Shindo-Renmei. Foi encaminhado à Casa de Detenção de São Paulo e teve sua expulsão do território nacional decretada em dezembro de 1946.
Também Hirokimi Takahira, Jun Fujimori, Kaneichi Tanaka, Kioshi Kawashima, Kishissaburo Naito, Kyoshi Kawashima, Tsuji Yokoyama, tiveram suas detenções efetuadas pela polícia em Lucélia. Todos foram encaminhados à Casa de Detenção de São Paulo e também, tiveram suas expulsões do território nacional por decreto do presidente Getúlio Vargas. O decreto que expulsava do Brasil os adeptos da Shindô-Renmei foi revogado por outro decreto presidencial.
Também existe no Arquivo do Estado de São Paulo, sete pastas de números 12B- 453, de 1945 e 1947, que contém informações até então desconhecidas sobre a presença da Shindô-Renmei em Lucélia. Todo material acima citado, bem como, os processos das pessoas acima relacionadas, estão à disposição no Arquivo do Estado de São Paulo. O livro do Rogério Dezen é apenas uma catalogação de dados para dar subsídios para futuras pesquisas.
A presença da Shindô-Renmei na comunidade nipônica brasileira se deu após o fim da Segunda Guerra Mundial. A colônia japonesa no interior do estado ficou dividida em dois blocos antagônicos. Os chamados “vitoristas” (katigume ou kioko) que, devido à falta de fontes de informação e por a maioria viver quase que isolada no interior do Estado de São Paulo, acreditavam na vitória do Japão na guerra, e os “esclarecidos” ou “derrotistas” (makegumi ou háissen), grupo formado pelos que tinham acesso aos meios de comunicação em língua portuguesa, possibilitando assim a formação de uma consciência da verdade e que, por esses motivos, propagavam que o Japão havia perdido a guerra. A maioria dos imigrantes, aproximadamente 70%, acreditava que o Japão não havia perdido a guerra.
Por esse motivo, a Shindô-Renmei (liga do Caminho dos Súditos ou Dos que Seguem as Diretrizes Imperiais), que além de propagar a vitória do Japão e a volta à pátria, combatia os “derrotistas”, avaliados como traidores, e por este motivo perseguiam e até mesmo, matavam os esclarecidos.
A presença de membros desta milícia na região foi muito grande. Em Lucélia, cidade que acolheu de braços abertos, imigrantes germânicos, portugueses, italianos e eslavos, também acolheu os imigrantes japoneses, que aqui fizeram uma grande comunidade.
Como podemos ver, o passado de nossa querida Lucélia é muito grande. Resgatar parte do que é possível é de fundamental importância para esclarecer às novas gerações.
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