Até 1948 Paulo Afonso era apenas uma das belezas naturais do nordeste; a grande cachoeira no fim das corredeiras do São Francisco, famosa pelos versos de Castro Alves.
  A 15 de março de 1948 teve início a construção da usina. Para o nordeste é esta uma data histórica, pois assinala o imperativo da industrialização, e em certo sentido a entrada da região no mundo contemporâneo.
  A construção da usina foi acometida pela Companhia Hidroelétrica do São Francisco, CHESF. Como apoio às obras a CHESF construiu o chamado acampamento, na realidade uma cidade de sua propriedade, cercada, ajardinada, com residências luminosas para seus funcionários e instalações assistenciais modernas, escolas, hospitais, clubes. O contraste entre o acampamento da CHESF e o miserável povoado de Barra de Paulo Afonso, e num sentido mais largo, entre a poderosa empresa representante do poder político e econômico e a multidão deserdada dos migrantes, haveria mais tarde de levar a Igreja a questionar-se de que lado se colocava-nos inevitáveis confrontos político-sociais. Mas isto aconteceria mais tarde, avançada a década de sessenta. Nos primeiros anos vivia-se ainda a lua de mel do desenvolvimentismo.
  Religiosamente, Paulo Afonso era uma capela da paróquia de Glória, no momento — durante longas décadas — atendida pelo vigário de Jeremoabo, Mons. Magalhães. Com duas paróquias tão extensas no sertão podemos deduzir as possibilidades de atendimento.
  Mas a CHESF cuidava também religiosa mente de Paulo Afonso. No acampamento iniciou-se logo a construção de uma igreja dedicada a São Francisco de Assis. Em pedra, num romântico moderno, é realmente uma igreja cheia de graça a harmonia. Inaugurada a 17 de fevereiro de 1950 custou à empresa 657.142,40.
  Assim, quando neste mesmo ano, no dia 6 de agosto, o presidente Dutra acompanhado do governador da Bahia, e de uma numerosa comitiva, visitou Paulo Afonso, D. Helder Câmara pôde deixar escrito no livro de visita: “Em nome do S. E. o Senhor Cardeal D. Jaime Câmara, tive a alegria de celebrar a Santa Missa em Paulo Afonso onde encontrei um apóstolo destes sertões, o Rev. Mons. Magalhães que há 30 anos moureja nestas caatingas. Aqui lhe deixo meu apelo fraternal a que escreva a história desta cristandade que surge no Livro de Tombo, que conte para os pósteros um pouco do muito que se fez, e faz e se fará aqui por N. S. Jesus Cristo”.
  Mons. Magalhães deixou sua resposta no Livro de Tombo prometendo responder a este apelo, mas de fato quem deixou consignadas as lembranças de sua ação no Livro de Tombo foi o padre João Evangelista de Carvalho.
  Ordenado em 1952, no mês de novembro desse mesmo ano, recebeu do bispo a provisão de cura de almas em Paulo Afonso. Durante dez anos haveria de desempenhar esta função, sendo mais tarde o primeiro vigário da paróquia de Paulo Afonso.
  O padre João Evangelista trabalhou em perfeito entendimento com a diretoria da CHESF. Na realidade ele morava no acampamento, “acolhido bondosamente pela Companhia” e recebia co mo capelão uma “ajuda de custo relativamente pequena para a desvalorização da moeda”. A empresa prestava também seu apoio para os empreendimentos maiores.
  Assim foi com a construção da Igreja de Nossa Senhora de Fátima. O terreno fora cedido pela prefeitura de Glória, respondendo a um pedido de Maria Leonino de Souza Alcântara de um terreno de setenta palmos de frente para a construção de uma igreja no povoado de Barra de Paulo Afonso (15/12/52).
  Mas a construção correu toda por conta de uma comissão formada entre altos funcionários da empresa e com uma decisiva ajuda da mesma. O padre João Evangelista deixou escrito no Livro de Tombo que o Dr. Antônio Alves de Souza, presidente da Companhia, era o verdadeiro construtor da Igreja: “A Companhia gastou nela mais de 400.000, embora conste num documento que ela doou a Diocese e que tinha sido o povo que a construiu”.
  A Igreja, em meados de 1954, foi inaugurada a 16 de janeiro de 1955, um dia após a inauguração das usinas com uma benção do bispo José Alves Trindade.
  A primeiro de abril o presidente da Companhia escrevia uma carta ao vigário, padre Magalhães, fazendo-lhe entrega da chave da Igreja e declarando o sentido da obra: “Senhor vigário, tenho o prazer de lhe entregar a chave da igreja de Nossa Senhora de Fátima construída nesta localidade com o auxílio de numerosas pessoas de boa vontade, por uma comissão assim constituída: Eng.° Esmani Wood, Eng. Roberto Montenegro, Dr. José Gomes Barbosa, Eng. Reginaldo Sarcinelli, Sr. Álvaro Car valho, Srta. Isaura Pacheco, Sr. Severino Cavalcante, Sr. José Aprígio de Carvalho. Essa comissão resolveu construir a Igreja de Nossa Senhora de Fátima para deixar aqui plantado um monumento de ação de graças a Deus pelo amparo que dispensou a todos quantos trabalharam e trabalham nas obras de Paulo Afonso. E sabiam que assim agindo iríamos também satisfazer um velho desejo de nosso vigário que há longos anos desejava eregir neste local que representa a pedra fundamental de uma nova era para a vida deste sertão e do nordeste, um templo dedicado a Nossa Senhora de Fátima...”
  Em novembro de 1957 o padre José Mendes foi nomeado vigário de Glória, e passou a residir também em Paulo Afonso, “porque — em Glória — não há quase movimento, visto que o povo está todo congregado em Paulo Afonso pelo movimento comercial em busca de emprego”.
  O padre Mendes ficou só um ano, sendo depois transferido para Queimadas, sua terra natal. O fato é aqui mencionado porque ao sair deixou consignado no livro um resumo de sua ação pastoral, que vale como amostra das dificuldades físicas dos vigários do interior: “Em Rodelas, apesar das 21 léguas de distância daqui, de Paulo Afonso, lá estive por 3 ou 4 vezes, de onde saí satisfeito do movimento espiritual. Riacho estive por 3 vezes ut supra. Juá, Brejo do Burgo, Salgado do Melão, Barraca Freitas, Saco, Malhada Grande, São Domingos, São José, Tapera de Boa Esperança, Penedo, Olhos de Água, Salgadinho e Tigre, e em outras fazendas todas as vezes que celebrei...”
  Este mesmo ano de 1958, com o crescimento da população que já chegava a 18.000 habitantes, Paulo Afonso foi elevado a município. No ano seguinte, a 4 de abril de 1959, o bispo criava a paróquia de São Francisco de Assis de Paulo Afonso, tendo como limites os mesmos do município e como igreja matriz à capela de São Francisco no acampamento da CHESF.
  Esta determinação do decreto de ereção mostra bem o clima de perfeito entendimento entre a diocese e a direção da Companhia, mas por outra parte, não deixava de ter seu lado anômalo, pois a paróquia passava a ter como sede uma igreja que não lhe pertencia.
  O próprio padre João Evangelista reconhecia, mais tarde, ser esta uma situação “melindrosa”, pois o vigário morava numa casa da CHESF, no acampamento, e tinha como sede paroquial uma igreja que não lhe pertencia, por ser propriedade da Companhia.
  O padre João Evangelista foi o primeiro vigário, e haveria de continuar na paróquia até 1963. Devemos constatar, através das anotações do Livro de Tombo, que a pastoral continuava fundamentalmente a linha tradicional: associações (apostolado, vicentinos, legião de Maria), visitas pastorais (em 60 e 65) e missões.
  Neste aspecto Paulo Afonso pode parecer privilegiado, pois foram pregadas três grandes missões em sete anos: em 1955, 1957, e 1962. As duas últimas pregadas pelo padre Damião com concurso de muitos outros padres, passando na última de vinte cinco mil as comunhões.
  Mas ao mesmo tempo, o padre João Evangelista dava início a uma forma de apostolado social, que haveria de ser uma das características da ação da Igreja em Paulo Afonso.
  A fluência descontrolada de imigrantes amontoados nas favelas da vila Poti — chamada assim pela marca dos sacos de cimento usados na construção da usina de que eram feitos os barracos — aprofundava cada dia mais o contraste entre esta massa desordenada e suja e o acampamento, jardim das esperanças e da providência assistencial moderna. Em 1955 houve um motivo a mais: as crianças da vila ficaram proibidas de freqüentar as escolas do acampamento, como faziam até então. Isto deu lugar para que o padre João lançasse no Natal uma campanha de assistência a estes meninos. Criou-se a Liga Social Católica, para construir e manter escolas para as crianças pobres. Foi então construída a Casa da Criança 1,a qual haveriam de seguir-se, anos depois, a Casa da Criança 2, 3 e 4.
  Na década seguinte, as tensões políticas e sociais foram cada vez em aumento, como crescimento rapidíssimo da cidade. Os 18.000 habitantes de 58 tinham subido a 28.000 em 1968 e 38.000 em 1970.
Este crescimento acelerado exigia a constituição de uma nova diocese.