II - Ideias soltas


1. Para a mulher no sexo deve haver continuidade (uma história com um antes e um depois). A mulher gosta de ser desejada e de agradar de um modo continuo, o homem gosta de desligar-se. 

2. Para o homem o imaginário sexual é essencialmente descontinuo. O ideal será um episódio rápido, desligado de um passado ou de futuro e sem grande envolvimento sentimental: conheceram-se, tiveram sexo, separaram-se. A mulher deve ser desinibida, sem compromissos, sedenta de sexo e que não resiste a ver um pénis erecto. É por isso que pagar para ter sexo continua a agradar à maioria dos homens, embora seja repugnante para quase todas as mulheres. 

3. No homem o erotismo é essencialmente visual enquanto na mulher ele é sentimental e holistico, abrangendo muitos mais aspectos que apenas o físico. O homem essencialmente voyeurista, espampanante; gosta de encher os olhos e calar a boca.

4. A mulher é atraída para um homem que a arrasta na sua inteira globalidade como um remoinho. 

5. O homem gosta da variedade (ter sexo com muitas), a mulher da permanência (fazer muito sexo mas só com aquele que ama). Por isso ela é, em geral, mais possessiva, tenaz e fiel do que o homem. Quando ela abandona o homem em troca de outro, fá-lo de uma forma muito mais decidida pois, mais do que tudo, é o amor que a move.

6. A sedução numa mulher não é feita com vista ao acto sexual, mas antes para chamar a atenção sobre si; para deixá-lo centrado, ou mesmo obcecado, só por ela. Pretende fazê-lo esquecer tudo, sobretudo todas as outras. É por isso que o convite sexual na mulher é feito pela negativa (pela recusa) e raramente pela afirmativa, onde ela toma a iniciativa. Para ela deve haver cortejamento e liberdade para ter muito espaço de manobra. Isso confere-lhe poder para escolher e agarrar o seu eleito. 

7. No homem, pelo menos no início, tudo é feito a pensar no acto sexual e como será ela na cama.

8. Para ele dormir a primeira vez com ela é sentir a mulher sua. Ela porem raramente se irá sentir conquistada só com a primeira noite. A mulher vai-se dando a conhecer aos poucos. Ela precisa de memórias completas, emotivas que nunca podem ser construídas numa só noite. Essa noite apenas iniciou um processo de conhecimento mais profundo. 

9. Dizer, implícita ou explicitamente, a uma mulher "vamos fazer amor e depois adeus" é obsceno e na certa ela irá recusar. Dificilmente uma mulher sente prazer se for considerada apenas um objecto sexual. O sexo deve ser sempre um subproduto do encantamento que ele é capaz de demonstrar por ela.

10. Um flirt para uma mulher só é satisfatório se ele lhe agradar e for capaz de o recordar mais tarde. É muito difícil uma mulher ficar satisfeita, cedendo a um homem que não lhe diz nada, só para saciar o seu desejo carnal. Para ela se satisfazer ele deve permanecer, pelo menos um pouco, no seu espírito. Por estas razões é muito mais difícil, e perigoso, quando a mulher se envolve num flirt. É raro uma mulher procurar um homem apenas pela atracção sexual. O seu erotismo pleno só é despertado com alguém que aceitação na sua plenitude.

11. Uma mulher gosta de ser lembrada, que ele pense nela, uma conversa, umas caricias, um abraço. Ela tem necessidade que lhe façam a corte, que o homem a procure e se mostre interessado. Por isso emite sinais ambíguos para aferir o interesse dele e a sua perseverança. A mullher quer ser envolvida em toda a sua feminilidade. É por isso que o sol é para ela um amante suave e terno.

12. A mulher ama o corpo do homem, mas ao mesmo tempo receia-o. Tem medo da sua força, que ela a possa usar para a subjugar e violar: nada a repugna mais. Gosta que o corpo do homem seja forte, mas ao mesmo tempo doce, algo que ela vai aceitando ao longo do tempo. O corpo masculino só por si, sem carácter, sem amor desinteressa-a, repugna-a até. É por isso importante mostrar gentileza a uma mulher - dominamo-a, mas fazendo-lhe sentir que nada tem a temer da nossa força. Assim ela sente-se confiante e desejosa.

13. A mulher revê-se ainda no quadro de uma bela adormecida à espera do príncipe que lhe desperte o que ela tem dentrod de si. Ou então na “bela e o monstro”, em que o amor se sobrepõe ao aspecto repugnante do corpo do amante, e que ela será capaz de transformar para se adaptar a si. Temos finalmente o protótipo da bruxa má, caprichosa e de coração gélido, que usa de artifícios de sedução e mentira para prender o coração do homem. Porem ela não é capaz de amar porque a sua inveja e egoísmo impedem-na de se entregar à paixão.

14. A mulher é atraída por homens de poder, famosos e ricos. Sentir-se a eleita excita-a. Mas esse homem deve ser só dela. Não admite partilhas!

15. O erotismo só atinge a sua plenitude quando é completamente livre e desligado do mundo e da sociedade. Quando os dois amantes vivem um para o outro sem mais nada a interferir. Quando essa relação se torna pública perante a família e amigos, é como que se subitamente estes lhe invadissem a privacidade, lhe entrassem pelo quarto e os observassem e aconselhassem sobre o que está certo e errado. O erotismo precisa de completa liberdade. É por isso que o casamento e as responsabilidades reduzem substancialmente a paixão erótica

16. O erotismo tem horror ao quotidiano social; ele é revelação, novidade, mistério. 

17. O erotismo masculino é privado, reservado. O da mulher é público, gosta de exibir ao mundo o seu corpo, a sua paixão.

18. Não há nada mais espantoso para um homem que o momento em que uma mulher se entrega.

19. Como o prazer é o principal objectivo do homem ele dificilmente distingue se uma mulher se entrega toda, muito, pouco ou nada. Elas sabem dissimular bem.

20. Negar o desejo do homem de olhar e desejar outras mulher é matar-lhe a sensualidade. Da mesma forma que o é negar a uma mulher que se arranje e se sinta bela e atraente.

21. O homem identifica obcessivamente o erotismo com penetração.

22. O sexo é para ser feito a dois e na privacidade: um homem e uma mulher. As orgias em que todos se dão a todos não têm nada de erótico.

23. A violação é das piores coisas que podem suceder a uma mulher. Uma parte fundamental do seu erotismo é sentir-se desejada mas onde ela tenha sempre a última palavra na escolha.

24. O grande sedutor é o que compreende bem uma mulher e lhe sabe libertar o erotismo sem pressas. O sedutor tem paciência. Sabe tratá-la como se ele mesmo fosse uma mulher, quase uma sua companheira. Por isso um bom amante é aquele que tem o corpo de um homem - com força, decisão e virilidade - mas que fala com o coração de uma mulher, de uma forma meiga, tranquilizante e compreensiva. Tem a segurança de um pai e a ternura de uma mãe. 

25. A arte da sedução está no uso sábio das palavras. Seduz-se de uma forma indirecta, sem forçar, mostrando confiança, cortejando e, sobretudo, esperando.

26. O homem precisa de sexo para viver bem e manter a auto-estima. A mulher também mas acima disso precisa de carinho, companheirismo, segurança e estabilidade.

27. No homem o apagar da paixão expressa-se pelo desinteresse, na mulher pela recusa.

28. Uma mulher é muito possesiva em relação ao homem que ama. Ele deve ser só para ela. Ela deve ser a sua princesa, a sua única eleita. Por isso, raramente a mulher está disposta a participar numa ménage a três com outra mulher – uma fantasia muito comum nos homens.

29. O verdadeiro erotismo só é possível quando cada sexo procura compreender o outro, consegue pôr-se no seu lugar e fazer suas as fantasias do outro. 

30. Ao contrário de um homem, para a mulher é muito difícil separar sexualidade e amor.

31. O que nos caracteriza como seres humanos é a continua tendência a transcendermo-nos. O erotismo é isso, a procura da novidade, do maravilhoso, de uma nova visão dos outros e de nós mesmos. 

32. A inquietação do erotismo é a mesma que a inquietação do conhecimento, da descoberta, da novidade. Mas esse é um conhecimento pessoal e não abstracto. 

33. Para haver unicidade no erotismo tem de existir multiplicidade. Os outros servem para referenciar o nosso parceiro, manter vivo o nosso desejo erótico. Por isso as mulheres gostam de ser apreciadas pelos homens. É nesse dia-a-dia de desejo que elas bebem a inspiração e a satisfação que canalizam à noite para o seu eleito. A força máxima do erotismo só pode ser sentida na sua plenitude quando todos os estímulos eróticos se concentram numa só pessoa.

34. O amor é inimigo do ego. Pessoas com ego inflamado não conseguem amar porque não se conseguem entregar. O seu ego é muito forte para se diluírem no outro. 

35. O amor não vive para o imediato, não se pode limitar ao prazer de uma noite.

36. Amar é um acto de admiração e deslumbramento. Exige imaginação, exploração, novidade e disposição para constante aprendizagem.

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