I - HOMENS E MULHERES: DOIS MUNDOS À PARTE



1.1 Afinal o que querem as mulheres?
Alguém me disse um dia "o chato das mulheres é não virem com manual de instruções". Eu ri-me e ao mesmo tempo pensei na verdades destas palavras de desespero tantas vezes repetidas pelos homens. Estamos habituados a ter livros de instruções para quase tudo na vida, desde automóveis, televisores a programas de software. O mundo é-nos apresentado como um mecanismo regido por regras racionais expostas em clarividentes manuais. 

Para o homem tudo tem, ou devia ter, uma causa última que pode, e deve, ser explicada à luz da razão. Ele acha que as acções derivam de determinados princípios simples e identificáveis. Para ele o mundo é um eficiente mecanismo de relojoaria onde tudo é compreensível. Quando qualquer coisa falha, lá pega ele na sua “mala de ferramentas” à procura de reparar aquele parafuso solto ou a engrenagem mal oleada. Tudo deve funcionar assim, desde os ínfimos átomos às estrelas mais distantes. 

Bem, quase tudo! É que mais tarde ou mais cedo ele acaba por se deparar com um ser chamado mulher. Caracterizada pela emoção, chorando por nada e rindo sem motivo, que se lembra da roupa que vestimos o mês passado mas que se engana no caminho por onde já passou dezenas de vezes. Sarcasticamente retratadas em incontáveis anedotas realçando a sua irracionalidade, emotividade excessiva, ânsia por dinheiro, ciume extremo e atenção desmesurada com a imagem. Sexualmente ora são apresentadas como frígidas e inacessíveis ou então insaciáveis máquinas de sexo.

 É sobejamente conhecida a rapidez com que podem passar de um amor incondicional a um ódio cego. São estas as pessoas que o criador destinou para companheiras do homem mas que teve a insensatez, ou malícia, de não disponibilizar o respectivo "manual de instruções". Elas estão bem conscientes disso pois sabem que sem esse manual quase todos os homens ficam completamente desnorteados na compreensão das atitudes femininas.

Se acha que isso é um problema, então prepare-se para o que tenho para lhe dizer: na verdade, é impossível alguém escrever um manual desses. Nem mesmo Deus seria capaz! E quem lhe diz isso é alguém habituado a escrever manuais técnicos.
Na verdade, quando entramos no campo do sentimentos temos de abandonar as fórmulas, regras e algoritmos. Diz o povo com razão que o amor é cego. Ele escapa à nossa análise, não se pode descrever em princípios universais nem explicar porque nos apaixonamos por alguém. É algo que acontece. Simplesmente. O amor é o domínio do coração, da poesia, do sonho, da imaginação e da paixão. Não é por isso de espantar que seja neste campo que o homem tenha mais dificuldade em lidar com as mulheres, que aqui se sentem como peixe na água.

Compreendo as dúvidas que assolam a mente de muitos homens, em particular as minhas. O temperamento das mulhres, tão distinto do nosso, não significa que haja algo de errado nelas. Não é por vontade própria que elas se comportam dessa forma complexa e aparentemente incompreensível. Na verdade elas pouco podem fazer contra isso. Não raras vezes elas confessam não perceberem porque ficam mais nervosas ou fora de si. Algumas dessas atitudes tem uma origem genética ou hormonal, outras são explicadas por uma educação distorcida, a maioria por factores sociais e culturais. Sejam quais forem as causas, a mulher é e será muito diferente do homem. Sobre a sua personalidade uma aura de mistério irá sempre pairar. 

O meu conselho para lidar com este facto é muito simples: a melhor forma de se relacionar harmoniosamente com uma mulher é NUNCA tentar compreendê-la, limite-se a aceitá-la. Sobretudo ame-a, mesmo nos dias em que os nervos estão à flor da pele. Saber ouvir é chave para se relacionar com uma mulher. Ouça e ajude mas não tente explicar. A mulher tem uma capacidade muito maior de se ajustar ao parceiro que o homem. Se ela se sentir amada irá fazê-lo tão naturalmente como respirar.


1.2 O que é ser mulher?
A perspectiva que a mulher tem do mundo em nada se assemelha à do homem. À mulher não lhe interessa o universal, mas antes o particular. Dá atenção ao detalhe, ao pessoal ao seu quotidiano. Tem pouco entusiasmo pela política ou pelas teorias sociais. Impressiona-a mais o rosto de uma criança que os tratados de livre comércio internacional. Para ela o particular e concreto reina sobre o abstracto. As coisas só fazem sentido quando ela as toca, as vê, e, sobretudo quando as sente.

A mulher não procura princípios unificadores no universo. Em vez de modelos matemáticos e teorias, prefere usar a sua apurada intuição. Analisa cada caso como se fosse único, com as suas particularidades, sem se preocupar em encaixá-lo num todo universal. O importante para ela são os seus pequenos mundos, o seu grupo de amigos e sobretudo a família. Age na continuidade e custam-lhe muito as mudanças. As rupturas extremas, como o divórcio, são-lhe extremamente dolorosas – podem passar vários anos até que ela esteja disponível para outro relacionamento sério. 

A mulher não procura o "santo graal", seja ele o conhecimento, o poder, a fama ou o domínio. Ela não gosta de se evidenciar e normalmente evita os conflitos, preferindo o consenso através do diálogo. Ao contrário do que muitos homens julgam, a mulher pensa quase sempre no interesse dos outros antes do seu interesse particular. A mulher é uma comunicadora nata, um agente da estabilidade. É ela o principal responsável pela coesão famíliar, por manter as comunidades e as tradições vivas. 

Para a mulher, mais importante que os porquês das coisas é ter ordem e estabilidade na sua vida. Mais importante que possuir é partilhar e sentir-se acompanhada com alguém que lhe dê atenção e saiba poder contar. 

Ainda, ao contrário que muitos homens julgam, são sobretudo os valores sentimentais que orientam as suas opções afectivas e não a conta bancária do pretenso namorado. A mulher ainda é um ser profundamente romântico que coloca bem alto nas suas prioridades viver um amor intenso e apaixonado. Na verdade, só o amor é capaz de lhe despertar toda a sua femininidade e energia. Quando ama de verdade, ela entrega-se de corpo e alma e é capaz de atingir todo o seu esplendor.

Como as suas características naturais diferem daquelas que a sociedade moderna valoriza, muitos pensam que a mulher é mais limitada, fraca ou estúpida que o homem. Inclusive as próprias mulheres. Num esforço para progredir nas carreiras profissionais, despem-se de certos valores femininos como a emotividade ou a compaixão. Tornam-se mulheres descaracterizadas de rostos inexpressivos, racionais - sem graça alguma! 
Seria bom que os homens aprendessem a compreender a beleza dos valores femininos e perceber a sua importância. Na verdade, são esses valores que tornam a sociedade mais terna, mais humana e rica. Os valores masculinos, como a energia, a força, a razão, o empreendimento tecnológico, a descoberta, são fundamentais, mas só por si insuficientes. Precisam de ser temperados por uma alma, por sentimentos e emoções. Na minha opinião vai fazendo falta um lado feminino ao mundo moderno. Acredito que muitos dos problemas das sociedades actuais se prendem com a sua excessiva “masculinização” e seria desejável que elas tivessem um papel mais activo nos cargos de decisão. Temos muito a aprender com as mulheres!


1.3 O sexo e a sociedade
Habituados a que as esposas assumam uma posição submissa às suas vicissitudes, a maioria dos homens não tomou ainda consciência da natureza sexual e social da mulher actual e pouco esforço tem feito para tentar compreender as suas necessidades. 

Quase meio século depois do movimento de libertação sexual (e social) da mulher, muita coisa mudou. A mulher ganhou consciência de si, assumiu-se como uma força participativa na sociedade e na família. Esta tomada de consciência social e sexual das mulheres talvez tenha sido das maiores transformações sociais que ocorreram na segunda metade do século passado. As mulheres entraram na vida activa, ganharam direitos e autonomia não só económica como emocional. Com o derrube dos estereótipos arcaicos caíram também os seus medos atávicos que as mantinham presas a uma teia inibidora de tarefas domésticas vedando-lhes o acesso a uma vida independente. 

Em Portugal, talvez excluindo as classes médias-altas das grandes cidades, a libertação da mulher ocorreu muito mais tarde que no resto da Europa. Na verdade, a tomada de consciência e as liberdade económica necessária para a mulher poder decidir sobre a sua vida só se generalizaram no nosso país a partir dos anos 90. É um processo que ainda está a decorrer como indica o aumento constante da taxa de divórcios, já superior à maioria dos países europeus.

Mas, ironicamente, o chavão desta revolução acabou por ser o ponto que talvez tenha registado menor evolução: a sexualidade. Sem dúvida que muitos preconceitos e tabus foram derrubados e a mulher hoje afirma a sua sexualidade de uma forma mais livre e descomplexada. Mas a conquista que a mulher ambicionava era também a afirmação da sua individualidade, dos seus gostos, idiossincrasias, a sua forma de ver o mundo e do seu jeito de ser. Terá nesse campo a mudança sido significativa? Creio que não. 

As mulheres acabaram por ficar prisioneiras de outros dogmas que ainda ditam a sua conduta moral. Os homens, directa ou indirectamente, ainda exercem muito controlo sobre a sua sexualidade e conduta. Sobretudo nas sociedades latinas, os clichés sexuais continuam a ser predominantemente masculinos e arcaicos. A sexualidade da mulher continua refém nas teias do pecado e da vergonha. É uma sexualidade em certos aspectos tacanha e inexpressiva, e completamente à mercê dos gostos masculinos. Veja-se como, após o casamento, as mulheres mudam drasticamente de atitude, tornando-se muito mais apagadas, abafando a toda a sua sensualidade para vestir o papel de “esposa”. Velhos hábitos levam tempo a morrer.

Várias explicações existem. Uma delas é que, infelizmente no ocidente, o sexo ainda é assumido com pouca naturalidade. Este supremo acto de manisfestação de amor é ainda considerado perverso, animalesco, quase pecaminoso. Esta rejeição pública do sexo, foi transposta para restritivas normas de conduta social, especialmente para as mulheres. Na religião cristã ele está omnipresente. Basta olhar para o estigma de Eva, a mulher que usa o seu corpo pecaminoso para induzir o seu companheiro na tentação, condenado assim a humanidade para todo o sempre. Na religião muçulmana, a mulher é considerada como um objecto de posse masculina onde praticamente não tem direitos, servindo apenas para fins reprodutivos e criar os filhos. É ainda prática comum cortare o clitóris às meninas, a fim que nem sequer possam ter prazer.

Existem outras sociedades onde o sexo é assumido de forma mais natural e até religiosa. Por exemplo, na Índia, o sexo e a religião estão de mãos dadas. Em algumas tribos africanas parte da educação feminina e masculina é dedicada a aperfeiçoar técnicas para melhorar o desempenho sexual: conter a ejaculação no homem ou exercitar os músculos vaginais na mulher. Talvez não seja por acaso que o Kama Sutra foi escrito na Índia. 
Talvez que a proliferação de livros e manuais de práticas sexuais com origem no oriente, como por exemplo o sexo tântrico, traduza a necessidade de, no ocidente, se recuperar o sentido espiritual desta arte. Creio, porém, que muitos leitores não assimilam a mensagem espiritual centrando-se apenas nos aspectos técnicos, perdendo assim a mensagem mais importante destes textos. O sexo sem uma componente espiritual pouco significado possui.

Estas atitudes mostram apenas umas coisa: a mulher desperta sentimentos contraditórios no homem e sobretudo medo. Por um lado ela fascina-o mas ao mesmo tempo receia-a. Uma mulher bonita provoca sempre no homem admiração e medo. Subjugado ao seu fascínio, assusta-o contudo falhar. Essa dicotomia masculina é visível no cinema em que a mulher é retratada como tentadora, irresistível e perigosa. Por outro lado há o papel de mãe protectora e esposa. Raramente existe um meio termo: um estereótipo exclui o outro. Isto não significa que esta seja a verdadeira natureza da mulher. É simplesmente a perspectiva distorcida e simplista como o homem a encara. Infelizmente muitas mulheres acabam por a representar. 

Para que uma sociedade tenha uma atitude positiva e saudável em relação à sexualidade, há que assumir o sexo como um acto natural – mas de forma alguma banal. Não se pode progredir enquanto abafarmos as perguntas com os dogmas, os desejos com o pecado e a atracção com a perversidade. Não se pode avançar muito se, em vez de analisar o sexo com sentimentos, antes o tentarmos explicar com a razão. A este propósito é confrangedor reparar como certos alguns autores se esforçam por explicar todos os aspectos da sexualidade à luz da fisiologia e teorias da psicologia evolutiva, propondo explicações mirabolantes e infundadas. A verdade é que se aprende mais sobre o sexo fazendo amor do que estudando teorias!

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