O ORGULHO DO POP AUSTRALIANO

    Nascido em Sydney, em 1980, o grupo já virou cult band. em breve, faz
show no Brasil.

Por Humberto Finatti, 1988

             Lá pelos idos de 84, a gravadora RGE adquiriu os direitos de distribuição do selo Carrere no Brasil e, com isso, passou a editar aqui alguns LPs de grupos de tendências dispares do pop music planetaria. Entre estes grupos estavam um obscuro quarteto australiano chamado THE CHURCH, do qual a RGE lançou dois LPs, em edição limitadíssima e com divulgação nula: The Blurred Crusade e Remote Luxury. Ambos não venderam nada, sumiram de circulação mas um exemplar de Blurred ... acabou parando nas mãos de quem vos fala que, ao ouvi-lo elocubrou, inapelavelmente seduzido: "Eis ai uma banda que jamais virá ao Brasil". Ponto.

             Brasil, 1988. O pais está literalmente falido mas, por mais paradoxal que possa parecer entrou no circuito internacional do rock business. Assim, THE CHURCH aporta na área no final deste mês para três concertos em São Paulo e um no Rio. A gravadora não não perdeu tempo; relançou os dois Lps do CHURCH, que há muito estavam fora de catálogo. Antes de ambos voltarem à prateleira das lojas, a garotada só podia ter acesso ao som do grupo através de seu último trabalho de estúdio, o álbum Starfish, lançado aqui no início do ano pela BMG Ariola.

             Mas há muito mais, há uma trajetória que já dura oito anos e que rendeu sete Lps, um EP e duas coletâneas, sendo que uma delas - Hindsight 1980-1987 - se constituiu numa imprescindível tour de force de 24 canções arrebatadoras, que mostram todos os ângulos e facetas desta autêntica guitar band. Editada lá fora pela EMI australiana, esta coletânea deveria ser lançada aqui pela Odeon, com urgência máxima.

             O Church, formado pelo baixista Steve Kilbey, pelos guitarristas Peter Kopes e Marty Willson-Piper e pelo baterista Richard Ploog, nasceu em Sydney, em 1980. O primeiro album - Of Skins And Hearts - sairia no ano seguinte, ja delineado a proposta sônica do quarteto: prestar claro tributo ao rock dos anos 60 através de melodias simples mas envolventes, todas centradas nas excepcionais texturas desenvolvidas pela dupla Koppes/Willson-Piper, dois guitarristas quase sublimes, responsáveis por um fraseado econônomico além de mestres na arte da distorção e do feedback.

             Mas é Steve Kilbey, o homem do baixo, que compõe a maioria das músicas da banda. Dono de uma inflexão vocal suave e doce - mas sem ser melosa -, Kilbey completa a sonoridade do grupo com letras recheadas de metáforas e elegias inerentes aos sentimentos humanos , destilando um texto poético belo e bem construido.

             THE CHURCH não é um grande "estouro" a nível mundial. Mas é considerado como cult band nos Estados Unidos e na Europa. E talvez seja, no momento, o grande orgulho do pop australiano em função do trabalho que desenvolve. Uma "banda de guitarra" ("a guitarra elétrica é o instrumento mais expressivo que existe", ja declararam numa entrevista) que, com uma musicalidade simples, regressiva até, luta contra a apoplexia do pop sensaborão e descartável, contra o bubblegum generalizado ou até mesmo procura evitar os experimentalismos mais ousados e/ou radicais, para apenas revisitar o rock básico dos sixties, com generosas incursões por melodias mais acústicas ou mesmo deambulando pelo território da psicodelia.

             A imprensa costuma classificar os live concerts do CHURCH como sendo "arrebatadores", um momento de pura celebração no palco, principalmente pelo desempenho dos dois guitarristas . Portanto, a expectativa é grande: a cult band australiana está chegando, ao vivo, até nós. Deverão, com certeza, apresentar um dos melhores shows internacionais dos últimos tempos por aqui. Aguardemos pois.

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