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A escultura dos Sete Povos das Missões A maioria das estátuas dos Sete Povos é talhada em madeira, de preferência cedro. É sabido que a madeira até certo ponto condiciona a obra, emprestando-lhe uma atitude hista, dura, especialmente quando se trata de figuras de grande tamanho. As estátuas missioneiras, na sua totalidade, eram polícromas. Algumas delas apresentam articulações. Este pormenor provocou a indignação de Arsene Isabelle quando, em 1833, visitou o Rio Grande do Sul: “[...] da piedade, diz ele, passei prontamente à indignação, vendo santos em tamanho natural, cujos olhos móveis dentro das órbitas podiam derramar lágrimas de sangue!...enquanto que outros santos tinham missão especial fazer sinais negativos ou de aprovação com a cabeça ou com as mãos!!!” (TREVISAN, 1978, p.47). SAINT-HILAIRE apud TREVISAN (1978, p. 48), referindo-se também, a um santo, anota: “[...] Vi um cujos braços eram móveis, parecendo-me representar Pilatos ou Judas, e era provavelmente destinado a figurar em uma dessas farsas pias com que os jesuítas divertiam os índio”. As encenações plásticas visavam satisfazer ao sentido realista do índio, cuja mentalidade táctil, festiva, processional, se comprazia nesse tipo de catequese lúdica. Além disso, grande número de estátuas mostram cavidades dorsais, que se estende da altura dos ombros até ao pedestal. Esta minúcia poderia ter várias finalidades, entre as quais, uma de ordem física, que seria para evitar que a madeira rache, mediante o ressecamento natural; ou, uma razão de ordem catequética, onde os jesuítas se colocariam sigilosamente dentro da cavidade em determinadas ocasiões, embasbacando o bugre, que acreditaria na voz do pseudo-santo e se tornaria dócil à disciplina, ao esforço agrícola e às doutrinas impostas pelo padres. Segundo KREBS, apud TREVISAN, 1978, terá surgido deste fato a expressão “santo do pau oco”. Outra razão, esta de ordem econômica, na qual as cavidades destinar-se-iam ao esconderijo de riquezas ou tesouros; uma razão de ordem prática: diminuição do peso das imagens e finalmente uma razão de ordem folclórica: seriam o resultado da profanação dos catadores de tesouros. Muitas esculturas, além da escavação dorsal comum, ostentavam um orifício pequeno, arredondado, na face posterior do crânio e à altura da nádega , um nicho. Dentre as numerosas estátuas examinadas, o investigador C. G. Krebs chegou a uma conclusão: “[...] o nicho craniano terá sido depósito, cofre, esconderijo de riquezas com pequeno volume e grande valor, pois , em algumas o espaço interior não dava lugar para entrar um garotinho de ano; e, pouco provável que os missionários tenham utilizado as escavações dorsais com finalidades catequéticas, pois, isso deporia contra a integridade moral dos padres.” (KREBS apud TREVISAN, 1978, p. 49)
Segundo TREVISAN (1978, p. 50), “[...] porque se valeriam eles de expedientes tão inglórios e arriscados, uma vez que sua ascendência sobre os indígenas era quase hipnótica? O padre é a alma de tudo: faz ao povo o que a alma faz ao corpo”. A estatuária missioneira teve sua peculiaridade. Como toda arte cristã, a arte dos Sete Povos foi uma arte didática. Seu objetivo era estar a serviço dos fins primordiais da evangelização. Atendia, pois, o exercício de escultura nas Missões a uma dupla necessidade: prover, por um lado, os templos com imagens capazes de apoiar, visualmente, a pregação dos missionários; por outro, preencher uma das exigências da pedagogia catequética da Ordem. Ainda para o mesmo autor; Os jesuítas, que tem uma importância preponderante nos primórdios da ação civilizadora no Brasil, puderam contribuir, poderosamente, para formar, na Colônia, uma arte estatuária, e isso mormente porque, por razões de catequese, eles tinham tendência a iniciarem os próprios índios nas artes manuais. Cada colégio possía uma oficina onde trabalhavam os pintores e os santeiros (...) Em 1760, quando os jesuítas foram expulsos, encontravam-se várias obras inacabadas, e havia em reserva nos estabelecimentos agrícolas do interior muitos troncos de cedro grandiosos para estátuas. (Idem, 1978, p. 44). Dada a importância da escultura, alguns índios que se destacavam nela obtinham prerrogativas hierárquicas, colocando-se em plano superior aos demais. Sendo poucos os que sabiam ler, as imagens supriam a falta de leitura, em termos de aprendizado religioso. Daí não faltar a escultura em nenhum povo das Reduções, quando da expulsão dos jesuítas. As imagens conferiam esplendor ao culto divino. Eram uma das traduções de que se valiam os padres para assimilar o bugre. Outra peculiaridade a realçar na escultura missioneira, é o fato de ser ela híbrida ou mista. Os missionários e seus discípulos, desinteressados da pureza estética de duas produções, reproduziam de ouvido modelos do centro e norte da Europa, donde procediam os mestres. Entretanto, em algumas imagens toscamente esculpidas em que já se nota apreciável habilidade técnica, sente-se que ao gosto barroco trazido pelos jesuítas vai misturando-se uma expressão de gosto ameríndio, que, possivelmente, tivesse podido atingir mais amplo desenvolvimento, criando um verdadeiro estilo jesuítico-guarani. De acordo com FURLONG apud TREVISAN (1978), é difícil saber o número de estátuas do acervo missioneiro. Estima-se em 2 000 imagens a produção escultórica nas 30 Reduções Jesuíticas. Porém, a falta de conservação, as condições climatéricas, transportes precários, incêndios, roubos e outras contingências contribuíram para o desaparecimento desse patrimônio. Presume-se que existissem cerca de mil produções de escultura somente nos Sete Povos das Missões. Conforme já nos referimos, o patrimônio escultórico das Missões pode ser dividido em quatro grandes classes. Aqui, vamos destacar exemplos dessa atividade artística, ilustrando algumas imagens. São obras dos grandes mestres: São Francisco de Borja, São Luiz Gonzaga, Arcanjo, Santo Isidoro Lavrador, São José com o Menino, São João Batista Menino, São Lourenço, São Francisco Xavier, Pai Eterno, São Francisco Xavier e Companheiros, Santo Inácio de Loiola, Santa Ana, Crucifixo, Ego Sum, Nossa Senhora com o Menino, Anjo Gabriel, Crucifixo, Nosso Senhor dos Passos, Anjo Músico, Nossa Senhora das Dores, entre outros. Esculturas elaboradas pelos indígenas segundo modelos europeus: Arcanjo, Santo Isidoro Lavrador, Santa Catarina. Obras mistas nas quais a técnica e o modelo europeus se unem ao espírito índio: São Miguel Arcanjo, Menino Deus com Cocar, Retábulo de São Borja, Nossa Senhora da Conceição, Bancos Zoomorfos, Cristo Ressuscitado, Nossa Senhora da Anunciação, Santa Catarina, Crucifixo. Nas plásticas Indias destacam-se: Crucifixo, Cristo em Pé, Cristo Morto, São José com o Menino, Estatueta em pedra, encontrada em São Miguel das Missões. A escultura dos Sete Povos das Missões concretizou determinada expressão dentro do barroco instalado no território rio-grandense; barroco este, crioulo, uma vez que foi indigenizado. Isso explica porque as esculturas dos Sete Povos são de tendência arcaizante, contendo uma carga de romanicismo, goticismo e maneirismo. O barroco missioneiro, por si só, demonstra certa criatividade de nossos índios: é um barroco infeliz, saudosista, por tender à busca do tempo perdido
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